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“Skal!”, um brinde à criatividade sueca

LIGIA FILGUEIRAS*

Um marinheiro mercante da Suécia caiu no mar, no meio da noite, e quebrou o braço. Agarrou-se a um saco de lixo, enquanto seu navio prosseguia viagem. “Tudo aconteceu muito rápido”, disse o agora milionário Peter Bronsman, à BBC News / Business. “Disseram-me para jogar alguns sacos do lixo ao mar, mas, de alguma forma, perdi o equilíbrio e fui com eles.” Com um só braço [e provavelmente muita dor no outro], Bronsman agarrou-se num dos sacos de lixo e começou a gritar, no meio da escuridão. “Mas era só eu e milhas de oceano”. Ele estava certo de que um tubarão viria buscá-lo. Isso aconteceu entre Hong Kong e Taiwan. Bronsman tinha 24 anos.

A esperança, no entanto, falou mais forte. Bronsman pensou: se sobrevivesse, montaria seu próprio negócio. Felizmente, um de seus companheiros de navio tinha visto o acidente e fez soar o alarme.

Bronsman seguiu seu propósito: largou logo a vida no mar e, em Gotemburgo, segunda cidade sueca, montou seu próprio negócio. Bebedor inveterado de cerveja, resolveu importar marcas do mundo todo – que conheceu em sua experiência na Marinha mercante. Escolheu como sócio seu irmão, Dan-Anders, mas logo viu que não seria o único – o governo tinha o monopólio do álcool na Suécia. Isso significava que, com as estritas leis de licenciamento, só poderia vender para um único cliente – a Systembolaget, que detinha o monopólio estatal no país.

Apesar de tudo, o negócio fez sucesso, num país onde o consumo de álcool é elevado. “Lidar com o governo estava bem. Não conhecíamos nada diferente.” Mas Bronson logo viu que, se quisesse ganhar dinheiro, de fato, teria que ter a própria cervejaria.

Kopparberg, sidra de pera suecaCom a poupança realizada com o negócio de importação e um empréstimo bancário, comprou uma antiga fábrica de cerveja. Da cerveja evolui para a fabricação de sidra, em várias versões, incluindo o sabor de pera e o tipo misto. Escolheu um nome: Kopparberg, cidade onde fica a cervejaria. O novo produto iria conhecer um boom de exportação. Só não podia fazer propaganda no próprio país – é proibida a publicidade de álcool na Suécia.

Solução: Por que não ir aos suecos quando estão em temporada de férias no Mediterrâneo? Foi para as Ilhas Baleares espanholas e para a Grécia. De repente, a Kopparberg estava sendo vendida de Ibiza a Creta, com direito à distribuição de amostras grátis. Novo sucesso. E não só entre os suecos. Os ingleses, apreciadores tradicionais de uma boa sidra, aderiram em peso ao novo produto. Agora a Kopparberg é best seller no Reino Unido.

Segundo a matéria da BBC, a Kopparberg é hoje a maior cervejaria da Suécia, tendo vendido 75 milhões de litros de sidra no ano passado, em comparação com o meio milhão de litros de seu primeiro ano de produção. O faturamento em 2012 foi de US$350 milhões. Exporta para 50 países e assinou um contrato de distribuição com a cervejaria mundial SAB Miller.

Nada mal para quem, depois do risco dos tubarões, ainda enfrentou as mordidas do sócio estatal. Mais do que um jeitinho brasileiro, Brosnman (agora com 50 anos) usou a criatividade genuína de um empresário para contornar o intervencionismo estatal. Skål! à confiança, coragem e empreendedorismo do ex-marinheiro mercante sueco.

* JORNALISTA
REF. IMAGEM: WIKIPEDIA
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