Seria viável um confronto contra a Venezuela?

A tensão entre o Brasil e a Venezuela causada pelo bloqueio das fronteiras entre os países pelo regime de Nicolás Maduro tem sido tema de debates acirrados nos últimos dias. Por um lado, Maduro alega que seu país não está em crise e que não necessita de “esmolas”, apesar das notícias de sua própria população dizerem o oposto. Do outro lado, a coalizão humanitária, encabeçada por Brasil, Colômbia e EUA, tenta a todo custo entrar com donativos para ajuda humanitária em território venezuelano. A pergunta que paira é, ainda que em tons de brincadeira: como seria um confronto armado entre Brasil e Venezuela? Seria viável? E qual seria o benefício, se é que há algum? Podemos fazer algumas ponderações.

A primeira coisa que deveríamos questionar é a consequência desse tipo de confronto para o Brasil. Estamos em processo de reestabelecimento econômico depois de uma crise provocada por más administrações e corrupção, principalmente do setor público, o que levou o país a ser desacreditado por investidores, enfraquecendo a economia. Um conflito militar nessa altura poderia ter consequências muito negativas nessa área, considerando os gastos necessários para bancar uma empreitada desse tipo. O esforço de guerra poderia levar a economia novamente ao recesso.

Um outro ponto a se considerar é a instabilidade política que causaria um confronto desse porte. Estamos vindo de um recente impedimento presidencial e, ainda mais recentemente, uma eleição muito conturbada que mexeu com os ânimos de uma parte considerável da população, o que acabou se refletindo nas escolhas do povo ao Congresso Nacional. Em tempo de consolidação política, onde se faz fundamental uma certa estabilidade, principalmente quando o executivo pretende passar uma Reforma Previdenciária, que por sinal é motivo de muitas controvérsias, não seria prudente iniciar-se uma ofensiva armada contra a Venezuela. Fora que, além da política interna, isso poderia causar problemas graves com outros países importantes que sinalizaram apoio a Maduro; exemplo claro é a China, que é um dos maiores parceiros comerciais do Brasil – e que recentemente fez um convite no mínimo suspeito a parlamentares governistas.

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O custo humanitário de uma intervenção armada é muito alto, o que poderia causar revoltas e protestos contra tal coisa até mesmo de apoiadores do governo Bolsonaro, que poderiam ver com maus olhos a perda humana em um conflito. Justamente o que não se quer neste momento é perder apoiadores.

Considerando o que foi dito, já teríamos razões suficientes para não apoiar uma intervenção militar na Venezuela. Entretanto, se tais considerações forem ignoradas ou por motivo de força maior, como um ataque venezuelano, como seria uma possível guerra contra a Venezuela? Podemos considerar algumas coisas.

De acordo com o site especializado em informações militares GlobalFirePower, em comparação com a Venezuela, o Brasil possui maior contingente e um maior número de equipamentos militares, contando as três Forças. Ou seja, em quesito numérico, que ainda é bem relevante, o Brasil levaria vantagem no conflito. Outro fator importante seria a participação da Colômbia, que apesar de ter um menor contingente humano, possui mais aviões de combate e uma esquadra bem grande, considerando seu território, o que daria mais vantagens para o lado dos aliados brasileiros.[1] De grande importância na guerra, o fator tecnológico é fundamental, e neste ponto, além de contar com aviões radares brasileiros, o lado aliado poderia usufruir da logística americana, que provavelmente se envolveria no conflito, dado que a Colômbia e os EUA são conhecidos cooperadores militares; soma-se a isso a simpatia dos governos Bolsonaro e Trump, o que resultou numa possibilidade de entrada brasileira na OTAN (VEJA).

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Mas que dificuldades a tropa invasora poderia encontrar? Quais seriam os possíveis trunfos de Maduro?

China e Rússia sinalizaram apoio ao regime de Maduro e chegaram a dizer que poderiam intervir caso uma invasão militar acontecesse, se isso fosse levado a cabo poderíamos ver tal conflito tomar proporções globais, o que seria catastrófico. Entretanto, há razões para acreditar que tal coisa não se seguiria. Primeiro que a logística de apoio das tropas russas e chinesas devido à distância para a Venezuela demandaria um gasto que, acredito eu, nem os chineses nem os russos estariam dispostos a bancar, uma vez que a Rússia se encontra em crise com a Ucrânia que vem sendo prejudicial economicamente, e a China por sua vez enfrenta dificuldades em decorrência da guerra comercial com os EUA.

Uma outra dificuldade que poderíamos considerar seria a sempre vantagem de se defender do que atacar. Na história mundial das guerras podemos ver diversas vezes exércitos tidos como fracos se defenderem de exércitos muito mais fortes com uma boa estratégia e conhecimento de território. Podemos lembrar que na época de Hugo Chavez o mesmo incentivava a formação de milícias contra um possível ataque yanke em seu território. Ainda na época de Chávez, a Reuters afirmou ter um documento que comprovaria a compra de um total de 5.000 misseis anti aéreos russos (VEJA), o que poderia causar sérios problemas a aviões bombardeios aliados.

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Considerando todos esses fatores, um conflito bélico contra a Venezuela traria mais prejuízos que benefícios. O Brasil teria prestígio regional e global, a Venezuela se livraria de um ditador e o povo venezuelano teria esperanças novas em sua nação, entretanto o Brasil não tem nenhuma condição de realizar uma empreitada deste tipo, por mais honrosa que poderia ser, a um custo muito alto para seu próprio povo.

*Sobre o autor: Rodolpho Lima Nagel é graduando em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense e coordenador local do Students For Liberty Brasil.

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