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Lutar pelo certo não é “fazer o jogo dos Estados Unidos”

Os recentes acontecimentos de profunda tensão nas fronteiras com a Venezuela em Brasil e Colômbia diante da tentativa de deslocamento de itens para ajuda humanitária escancaram a sordidez do regime chavista.

Não que haja qualquer grande novidade nisso. O verdadeiro caráter de Nicolás Maduro e do regime inaugurado por seu antecessor já era de conhecimento de toda a parcela decente da América Latina, bem como de observadores mais atentos ao redor do mundo. Só estão surpresos os demasiadamente incautos e mal informados – bem como estão “surpresos” os que fingem aturdimento para se passarem por pobres vítimas de um irresistível engodo, prontas a alegar que o socialismo foi deturpado (pela “infinitésima” vez) ou que Chávez não era tão nefasto quanto Maduro, “traidor da magnífica Revolução Bolivariana” (pff!).

Também não há nenhuma novidade nos que, não obstante a realidade escancarada, se esforçam por mascará-la empregando subterfúgios retóricos cada vez mais mirabolantes – e, na mesma proporção, patéticos. Já tivemos professor de universidade federal, com doutorado, dizendo há apenas um ano que a Venezuela é “muito mais democrática” do que nós. Já tivemos artista famoso que chora pela perseguição da ditadura militar brasileira mandando mensagem carinhosa para o tirano assassino. Já tivemos presidentes da República patrocinando e sustentando a escalada ditatorial do país vizinho e saudando como “companheiros” seus infames mandatários.

Essa escória foi derrotada no impeachment de 2016 e nas eleições de 2018. Não podemos nos esquecer disso jamais. Entrementes, a grande questão atual é que o legado nefasto que deixaram é real e não há mágica que possa dissipá-lo. Embora nunca possamos admitir que na mesma proporção em que os próprios venezuelanos, o Brasil tem responsabilidade na situação horrorosa da Venezuela. O Partido dos Trabalhadores, chancelado pela maioria do nosso eleitorado desde 2002 para o Executivo federal, foi culpado por sustentar a Revolução Bolivariana, apoiando-a financeiramente e diplomaticamente.

O caos venezuelano é um filhote aberrante dos monstros do Foro de São Paulo, que devoraram a dignidade da região e garantiram longa sobrevida à metástase da desgraça de que foram parteiros. Esse filhote aberrante, em tendo sido o Brasil uma das suas mães mais pródigas, hoje volta para cobrar a fatura. Nosso território, especialmente ao norte, vem sofrendo as consequências de tudo isso, e a instabilidade social na região é indiscutivelmente assunto de interesse nacional brasileiro. O tema tem tudo a ver conosco, justificando-se plenamente o envolvimento intenso do nosso Ministério das Relações Exteriores, e até de nosso vice-presidente, no assunto.

Por outro lado, estão certos os que se lembram de que os mesmos monstros, em ambiente doméstico, deixaram um legado de problemas econômicos e fiscais que precisam ser resolvidos, tornando urgentes, para o futuro do Brasil, reformas essenciais e estruturais como a da Previdência para manter, sem exagero, a viabilidade do país. É evidente que isso é nossa prioridade imediata, porque uma nação, por mais que seja culpada, não tem condições de salvar o vizinho sem arrumar a própria casa.

Já escrevi anteriormente admitindo a possibilidade de uma solução militar para o caso venezuelano como saída extrema e não retiro nada do que aventei. Minha intenção era afastar a hipocrisia do bom mocismo politicamente correto e colocar as cartas na mesa, considerando que, às vezes, a violência é a única forma de resolver uma crise internacional. Não disse, em momento algum, que o Brasil deveria dar sozinho o primeiro passo e invadir o país, nem que essa seja a única forma de combater o problema, como se eu fosse um grande estrategista militar, ciente de todas as informações necessárias para fazer uma escolha a esse respeito. Não creio, aliás, que ninguém as tenha em absoluto além das inteligências militares e os governos dos países envolvidos no assunto.

Sempre, ao contrário, sustentei que havia ainda muitas saídas indiretas antes do último recurso, diplomáticas e de apoio à oposição venezuelana, que o Brasil e outros países poderiam tomar para endurecer o tratamento dispensado à ditadura chavista, saídas que justamente não eram empregadas devido, alternativamente, à cumplicidade desaforada com o regime autoritário por conivência ideológica ou à pusilanimidade da classe política brasileira.

Entendo o receio dos que tentam afastar a hipótese mais radical de um ataque direto a Maduro. Se ela fosse simples, fácil e sem custos, e se houvesse totais garantias de que resolveria o problema, e resolveria rapidamente, já teria sido adotada. Não é apenas o Brasil que hesita em assim agir; todos os países o fazem.

Creio que o Brasil não tem condições de agir por si só militarmente contra a Venezuela; essa decisão não poderia partir daqui e não poderíamos protagonizar a ação, caso viesse – ou venha – a ser o único caminho. Isso prejudicaria sobremaneira a atmosfera interna necessária às reformas e, ainda que vencêssemos, teria o potencial de nos destruir financeiramente mais do que já estamos destruídos. Digo mais: outros países, como os Estados Unidos e a Colômbia, devem estar cientes disso e não podem cobrar do Brasil aquilo que evidentemente não podemos oferecer. Somos um aliado melhor às democracias ocidentais se estivermos recuperados e com boas perspectivas domésticas.

Isso, no entanto, não quer dizer que, ao declarar em alto e bom som que o regime de Maduro é criminoso, ao atacá-lo como ditador e presidente ilegítimo, ao exercer sua posição de potência regional, garantida pela História, por sua dimensão territorial e pelo tamanho de sua economia, para pressionar o regime chavista e fazer coro a boa parte da comunidade internacional, o Brasil esteja apenas “fazendo o jogo dos Estados Unidos” como dizem algumas jornalistas de relevo e alguns antiamericanos crônicos cheirando a naftalina. Para essas mentes esclerosadas, lutar pelo que é certo e fazer coro às democracias ocidentais contra uma ditadura que empesteia e abala o nosso continente é ser “capacho dos Estados Unidos”. Nada mais falso.

Essa ladainha é antiga. Também durante a Guerra Fria, havia mentes tacanhas no Brasil pedindo uma postura de não-alinhamento com os Estados Unidos contra o totalitarismo soviético. Ora, estar ao lado dos Estados Unidos não era ser capacho, mas atuar junto a uma nação-irmã em defesa de ideais que ambicionamos e sustentamos contra a ameaça de uma força totalitária que também pretendia nos engolir, como a todo o mundo, destruindo as melhores realizações de nossa civilização. Por que cargas d’água seria então a “neutralidade” de nosso “interesse nacional”?

O caso venezuelano é igual. Devemos sempre nos impor aos aliados para adequar os termos dos acordos e discussões no Grupo de Lima ao que é cabível à nossa conjuntura interna combalida. No entanto, sou inteiramente a favor de que o Brasil, com inteligência, apoie toda mobilização contra o regime de Maduro, com vistas a fazê-lo cair o mais depressa possível. É nosso dever, é o certo a fazer, é belo e moral, e o esperneio de quem ajudou a trazer as coisas ao ponto em que estão não deve ser nada mais que desprezado.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.