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Seria possível prever e evitar a ascensão de um ditador?

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Hélio Rodrigues Pereira*

As grandes revoluções dramáticas do passado são entendidas pelo senso comum como fenômenos claramente reconhecíveis, precedidos por ampla divulgação que anuncia a todos a verdadeira natureza dos acontecimentos.

A leitura superficial fornecida pelos livros de história incute-nos esta impressão, de que a ascensão do nazismo e a revolução cubana, entre outras coisas, já nasceram devidamente identificadas, sugerindo que tais propósitos fossem didaticamente explicados pelos seus líderes nos meios de comunicação.

A verdade é que Hitler não avisou aos alemães que iria fazer a guerra ou exterminar os judeus em seus discursos de campanha, e Castro muito menos avisou publicamente que possuía ideais comunistas. Ambos agiram de maneira dúbia, procurando amenizar os anseios das expectativas públicas que buscavam em suas palavras os esperados sinais de moderação.

Para se ter uma idéia mais exata da ilusão com que o senso coletivo estava mergulhado, e do correspondente grau de cinismo adotado por esses líderes, o primeiro ministro Chamberlain afirmou ser Hitler um homem sensato, sinceramente interessado na paz. O próprio Hitler por sua vez dizia que suas intenções eram pacíficas e que repudiava a idéia de guerra na Europa. Mesmo erro incorreu Ghandi, Keynes, e muitos pacifistas que confiavam totalmente nas promessas pacíficas do nazismo. Testemunhos da época dão conta que até mesmo judeus duvidavam das sinistras intenções de Hitler, alguns achavam que pelo fato de este ou aquele membro das SS ter namorada judia era prova de que não iria acontecer nada. Outros de tão incrédulos consideravam esta hipótese absurda.

O Caderno B do Jornal do Brasil no ano de 1936 retratava o nazismo como uma corrente filosófica em busca da perfeição humana. O ponto culminante da mentira generalizada foi quando Hitler, no mês anterior à invasão da Polônia, ridicularizou uma carta enviada por Roosevelt, que lhe pedira para dizer se a soberania de tais e quais nações seriam respeitadas. Hitler leu a carta no parlamento diante das gargalhadas histéricas dos deputados e posteriormente notas diplomáticas foram enviadas pelos países listados – futuramente ocupados – em repúdio ao presidente americano e reafirmando amizade com o Terceiro Reich. O escritor William L. Shirer acrescenta ainda que nenhum dos jornalistas presentes, inclusive ele próprio, notou que a Polônia fora omitida.

Churchill teve que insistir repetidas vezes em mostrar no parlamento uma quantidade imensa de dados militares que eram tediosamente relatados para uma assistência debochada e sonolenta, até finalmente conseguir convencê-los dos planos hostis da Alemanha.

A revolução cubana não ficou por menos.

A guerrilha fidelista que combatia em Sierra Maestra não assumia notoriamente suas inclinações ideológicas. Quem tiver o trabalho de consultar os microfilmes e ler as manchetes daquele período, vai perceber que não se associava a guerrilha cubana a idéia de comunismo. O próprio Fidel Castro, mentindo diante das câmeras disse que não era comunista e chegou mesmo a comentar numa outra ocasião que era contra isso. Até mesmo Jesus Carreras, oficial militar e um dos chefes da guerrilha, ficou chocado quando percebeu tendências marxistas em Guevara.

Apesar de toda rede de mentiras, desinformação, dissimulação, foi possível para aqueles que puderam apreender da massa confusa de dados contraditórios um sentido unificador, o sinal inconfundível de uma turbulência que se aproximava, de modo semelhante ao guerreiro solitário que se abstrai dos caóticos sons da floresta e escuta no solo as pisadas de uma cavalaria em movimento.

Todavia, não existe uma fonte segura ao qual possamos nos referir para captar os indícios reveladores do perigo. Ao invés disso existem inúmeros relatos conflitantes entre si, cada qual descrevendo seu mundo de maquinações e acusando a mídia de esconder as provas. Seja tramas envolvendo a industria de armas, infiltração alienígena, planos do governo americano ou sociedades secretas, uma boa quantidade de versões conspiratórias alegam estar apoiadas em provas definitivas que, diante de um observador despreparado, parecem tão verdadeiras quanto as evidências que realmente indicam algo de concreto. Diante de tanta confusão as pessoas costumam reagir com total credulidade, ou total descrença aceitando somente o que as fontes publicamente reconhecidas subscrevem.

Como separar uma coisa da outra? Como distinguir no meio desse caos, os elementos que verdadeiramente compõe um quadro coerente dos acontecimentos em marcha? Como saber o que é verdade e o que é fantasia especulativa?

Resposta: Adotando critérios de validade e filtrar o que procede e o que não. Modelos para acuracidade dos dados, dos testemunhos e das fontes podem ser obtidos mediante exemplos bem sucedidos em prever o futuro.

Não é preciso ter um amigo trabalhando em arquivos confidenciais. Basta prestar atenção nos sinais que realmente provaram ser fidedignos ao longo do tempo.

Ao invés de estórias criadas por escritores ou denúncias de militantes engajados, coletar aquilo que realmente fundamentaria o trabalho de um historiador.

Atas de reuniões, acordos assumidos entre organizações, material interno de partidos, confissões públicas de interesses escusos, atividades parlamentares, dados estatísticos, informes técnicos de autoridades militares, cartas de intenções, depoimentos de dissidentes, e todo tipo de coisa que não se apresenta isoladamente como algo perdido no espaço, mas que complementa um sentido de coerência que se ajusta a um passado histórico sem lacunas, formada por nexos de causalidade resultante de um esforço em não omitir nada.

Reunir essas informações é fundamental para que o público possa ser alertado sobre a provável ascensão de um ditador.

Sobre o autor: Hélio é engenheiro elétrico e livreiro. É um dos fundadores do grupo de estudos e debates COF RIO sobre filosofia, literatura, política e história. Ministra palestras e workshops sobre filosofia e teoria econômica.  

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O Instituto Liberal é uma instituição sem fins lucrativos voltada para a pesquisa, produção e divulgação de idéias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal.