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Ser ou não ser Charlie

Charlie

H. L. Mencken, no ensaio Reflections on the Drama, ensina que o drama é a arte mais “democrática” que existe: pintura, escultura, música e literatura não foram feitas para as multidões, mas para o indivíduo solitário, mesmo quando contempladas em público. O drama é feito para a contemplação coletiva, seu apelo é às massas, e também por isto depende dos preconceitos desta para lograr êxito.

Desta forma, qualquer idéia realmente nova deve ser tratada no drama com o máximo cuidado possível – a massa é sempre a hidra de várias cabeças que se considera livre de preconceitos por sua pluralidade, sem notar que todas as cabeças sempre pensam o mesmo – e sempre se julgam não-preconceituosas. O artista do drama deve fazer com que tudo o que seja de fato questionador apareça disfarçado de naturalidade – o que, na vida real, quase nunca o é. É onde começa a genialidade de Ibsen, Shaw, Strindberg.

O drama também é feito de questionamentos difíceis, pouco claros, sem respostas fáceis. Os personagens são sempre colocados em teste contra suas próprias crenças e valores, não tendo saída simples. Um personagem com uma arma que precise atirar em um assaltante não perfaz uma cena dramática. Este mesmo assaltante sendo o seu filho, e tendo uma arma apontada para a cabeça de um inocente já aumenta a carga dramática.

É por isto que o maior personagem dramático de todos os tempos, o Hamlet de Shakespeare, é lembrado pelos versos pentâmetros iâmbicos mais famosos do mundo: to be or not to be – that’s the question. Matar a família para salvar a honra, casar para esquecer os problemas no amor, ter respeito pelo tio e rei ou justiçar o crime que só ele conhece, ser considerado louco por conhecer a verdade ou aderir à pressão externa – questões que ninguém sabe responder com presteza.

Ainda mais: o drama, a poesia recitada por atores com diálogos, vem do verbo grego drao – fazer, agir. É a poesia mais ligada ao tempo que existe – até hoje, uma partida de futebol só se torna dramática quando está próxima do fim, com resultado incerto.

O mundo vive um de seus momentos mais dramáticos – urgentes, duvidosos – de todos os tempos. Podemos resumir a questão fundamental no seguinte: o Ocidente civilizado produz leis para tentar proteger a liberdade todos. Alguns seres querem usar esta tal liberdade para impor justamente uma tirania teocrática (ou estatólatra) que resulta exatamente em seu oposto. O que o Ocidente pode fazer, sem minar seus próprios pressupostos no processo?

O caso Charlie Hebdo aparece como exemplo non plus ultra desta questão, que até com o Patriot Act após o 11 de setembro conseguiu obter uma resposta mantendo alguma clareza em seus objetivos e métodos.

O que fazer não com os terroristas (defendidos apenas pelos próprios teocratas e pela esquerda mais desabridamente amalucada), mas com a liberdade de expressão, que produz “ofensas” a grupos “sensíveis”?

Ora, a resposta para mentes já amadurecidas é óbvia: a liberdade de expressão deve ser sempre defendida – a liberdade de se expressar sem se ofender é “defendida” até pelos mulás atômicos do Irã, pela alta cúpula nazista ou pelo círculo de amigos de Mao Zedong. Se é tão óbvia para personalidades crescidas que não se ofendem com o fato de nem todo o mundo pensar igual a elas e obedecê-las, explicar tal pressuposto já é um pouco mais complicado.

O Ocidente criou a “liberdade de expressão” justamente para que se defenda o direito de qualquer um falar o que quiser – seja ofensivo, repugnante, feio, estúpido, chocante, impróprio – desde que não se prejudique civilmente alguém com isto. É a diferença entre a liberdade de expressão e imprensa e a teocracia da shari’ah ou a imprensa estatal controlada dos totalitarismos socialistas e nazi-fascistas – ou mesmo da disfarçada “mídia social” da economia controlada de países como o Brasil atual.

Resumido na frase de Evelyn Beatrice Hall, erroneamente atribuída a seu biografado Voltaire, “posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”. O problema é que voltamos a ter de defender este direito realmente até a morte, porque esta liberdade nem sempre é agradável – o Ocidente se sacrifica em nome da liberdade, enquanto o mundo incivil sacrifica a liberdade em nome da conservação do pior aspecto de si próprio.

O Ocidente crê que a livre circulação de idéias permitirá que a melhor delas sobreviva – os odiadores do Ocidente que querem impor um culto de mesmificação têm medo até de que as pessoas conheçam algo que julgam ultrajante ou perigoso. Tal doutrina mantém implícita a regra de que ignorância e virtude são sinônimos, que o mais ínfimo conhecimento é fatal para a delicadíssima manutenção da igualdade – seja econômica ou seja sob as burcas muçulmanas.

É a liberdade, e não a opressão, que está sendo posta em xeque pelo palpitariado jornalístico e acadêmico em nome da hipersensibilidade dos extremistas islâmicos, julgando que justamente o Ocidente livre para onde todos querem fugir é que é causador da mentalidade assassina, carola, obscurantista e liberticida dos selvagens. Como afirmou Elise Cooper no essencial American Thinker, a liberdade de expressão pode te mantar? Defenda-a mesmo assim. É esta questão fundamental que passou ao largo dos “especialistas” de Globo News e seus repetidores inconscientes.

O terrorismo, a “propaganda armada” de Lenin, não é senão tornar uma mercadoria pouco desejável em “uma proposta que você não pode recusar”, nos dizeres dos filhos de Corleone. Se algum teocrata fanático quisesse impor pequenas censuras com base na shari’ah antes do 11 de setembro, seria impensável que algum cético, sobretudo ligado à esquerda progressista, aceitaria. É este teocrata explodir jornais e jornalistas antes disso, ameaçando outros tantos, e a mágica da aceitação está feita. O hocus pocus é que os terroristas ganharam, mesmo antes de impor o califado mundial.

Resta, então, imaginar qual o resultado de ordenar a sociedade com base na liberdade de expressão – olhando para o Ocidente – ou com base na impossibilidade de ofender – com leis punindo a “blasfêmia”. Se tal Idade das Trevas soaria ofensiva por si à esquerda há pouco mais de uma década, conseguiu ser a própria definição de objetivo da esquerda com a junção de terrorismo com multiculturalismo – a tese de que todas as culturas têm valor, exceto a ocidental, a única que permite o próprio multiculturalismo.

Como afirma o pensador marxista Terry Eagleton, o multiculturalismo “é imaginar que existe algo inerentemente positivo em ter um leque de diferentes visões quanto ao mesmo assunto. Seria interessante saber se esse é o caso quando se trata de indagar se o Holocausto algum dia ocorreu.” Ou seja, é algo fácil de ser aplicado à Islândia, à comunidade marítima, a uma festa de danças exóticas. Algo mais complicado quando se trata de analisar os neonazistas, O Hell’s Angels, a KKK.

Ordenar a sociedade pela liberdade, calcada em valores, mas sem impor tais valores por via da tirania estatal ou da aceitação do moralismo carola como lobby, é a ordem que gera o Ocidente. Basicamente, o Ocidente reúne a filosofia e cultura grega, o Direito romano (cuja base é essencial até para a Common Law consuetudinária anglo-saxã) e o cristianismo.

Eric Voegelin, o maior filósofo político por ser entre eles o maior filósofo, e não apenas político, se preocupou especialmente com a questão da ordem. Ordem não em sentido de imposição, e sim dos princípios que sustentam a sociedade – curiosamente, a “imposição” pela força é necessária tanto para a sociedade da “igualdade” (tornando o resultado de empreendimentos diferentes “iguais” pela concentração de poder político) quanto para a sociedade teocrática, que proíbe a blasfêmia e a pune violentamente.

Esta ordem ocidental é que precisa ser novamente buscada – entendemos palavras que viram platitudes quando se tornam substantivos abstratos e palavras de ordem, como “liberdade de expressão”, mas não as entendemos mais como os princípios ordenadores de nossa sociedade, e qual o resultado de uma ordem distinta.

Uma ordem calcada na liberdade permite que idéias diferentes “concorram”, seja o liberalismo, o marxismo, o islamismo, o secularismo, o esoterismo, o catolicismo ou o que for. Uma ordem calcada na proibição da blasfêmia – ainda que através de lobbies disfarçados, como “não se deve falar sobre tal pessoa, apenas sobre tal outra”, como andam fazendo certos auto-proclamados arautos do bom gosto do que se deve ler – gerará apenas uma única opinião oficial aceitável.

Na ordem da liberdade, pessoas serão ofendidas, enquanto outras farão coisas ofensoras: sexo, rirão em hora inapropriada, comerão bacon, escolherão a religião ou tendência política que não se quer, lerão Salman Rushdie e Charles Bukowski e assistirão South Park. Na ordem anti-ofensa, pessoas serão chibatadas por não gostarem da shari’ah, mulheres serão apedrejadas por dirigir, gays serão enforcados em praça pública para ensinar o que acontece quando se é pecaminoso, pessoas de outras religiões serão degoladas na faca fria por grupos extremistas quando sua religião tentar se impor para o resto do mundo.

Só se deve acreditar em alguém que defenda a liberdade de expressão quando esta pessoa defende a liberdade de expressão de um inimigo. Como ser um liberal e recomendar a leitura de Eagleton. Voegelin nota que não apenas a Aliança, mas o fato de a sociedade cristã nascer da idéia de “amar a todos”, inclusive os inimigos, a torna única e tão admirada – e admiradora de outras, com um amor nunca recíproco. Por isso há tantas referências a Hebreus 13:1 em sua obra (tanto em Ordem e História quanto em História das Idéias Políticas).

Este amor, é claro, não é o amor do eros grego, mas algo mais próximo do amor fraternal – de reconhecer o outro como um próximo, e de julgar e punir como um pai julga e pune seus filhos – buscando o bem da família, e não a sociedade de subtração de vidas e bens da shari’ah, do terrorismo e do socialismo secular.

Trata-se, então, de dar a seu inimigo os mesmos meios que você dá a si próprio. Novamente, dar liberdade para ele se expressar e se defender – ou defender qual idéia for, inclusive as idéias que buscam destruir a livre troca (de bens e idéias) do Ocidente. Nossa civilização acredita tanto na vantagem da liberdade que crê que ela sempre vencerá um debate entre ela própria e seus destruidores.

É também um sentido possível para Mateus 5:38-42 (“dar a outra face”, substituindo o “olho por olho”): o que não te destrua, mas apenas doa, você deve aceitar sem buscar vingança. Tal ensinamento gera a sociedade que não mata artistas que encenem Jesus Christ Superstar ou o Marilyn Manson – já a sociedade da vingança gera atentados como o Charlie Hebdo. É esta ordem que deve ser entendida.

Tal ordem está se perdendo pela confusão de vocabulários abstratos (“técnicos”, “científicos” e “acadêmicos”) impregnados, tentando aproximar “ofensa” e assassinato terrorista, dissolvidos na categoria de “coisas que não se deve fazer”. Ou mesmo sob a categoria de “crime”, mesmo que o primeiro não faça parte dela. Mas é esta ordem que deve ser reaprendida: uma sociedade que aceite o assassinato apenas em ultíssimo caso, para impedir um homicídio de inocentes, algo “pior”.

Charlie Hebdo, por exemplo, é um jornal anti-liberal. Entre os cartunistas mortos, há um ilustrador de um livro sobre Karl Marx. Todavia, é um princípio liberal irrevogável que se defenda o direito de seus ilustradores publicarem e venderem o seu trabalho (eles só precisam notar isto para perceberem que também são liberais sem o saber). E justamente a esquerda defendida pelo jornal agora o acusa de “machismo”, “racismo”, “islamofobia”, “xenofobia” e outras palavras abstratas da última moda… por terem sido mortos. Os terroristas, novamente, conseguiram fazer com que a liberdade fosse algo a ser sacrificado pelo medo. Recuperemos o nosso drama: não é fácil dar aos adversários o mesmo que damos a nós próprios – mas é isto que nos torna mais morais. E esta é a questão mais urgente e complexa do mundo atual.

Infelizmente, a barbárie está chegando sob o lema ”Não sou a favor do assassinato, mas…”

Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para o jornal Gazeta do Povo , além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Lançou seu primeiro pela editora Record Por trás da máscara, sobre os protestos de 2013.

10 comentários em “Ser ou não ser Charlie

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    18/01/2015 em 5:52 pm
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    Excelente análise.
    É difícil ver os avanços contra a cultura ocidental e ficar quieto.
    Como encarar a situação em que pessoas deixam seus países de forma a se favorecerem das benesses oferecidas pelos Estados laicos e democratas em que aportam, e não satisfeitos se acham no direito de implantar ali uma teocracia (totalitarista por natureza), em franca violação às instituições, ao ordenamento jurídico e valores?
    Não podemos esquecer que, apesar da vitimização forçada e amplificada por quem a isso interessa, a religião muçulmana prega a conversão ao islã ou a morte dos infiéis.
    Então, creio que o mais correto seja lhes apresentar as seguintes alternativas: ou se adequam às normas do local ao qual se dirigiram, ou voltem aos seus países e sejam felizes por lá.
    Logicamente, não se pode esquecer que há gente interessada num colapso da democracia para fazer implantar seu regime torpe de esquerda, com o auxílio luxuoso dos idiotas úteis e inúteis que, em grande parte, militam diuturnamente em qualquer frente possível para recolher seu caraminguá de origem pública, seja através de ONGs, sindicatos, blogs amigos…
    Afinal, não há almoço grátis, nem “pão com ‘dendela’ e dolly”.

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    18/01/2015 em 1:55 pm
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    Este artigo levanta dois aspectos importantes acerca do conservadorismo e da democracia.Ao ler com atenção, escancara-se a importância da defesa do estado de “coisas permanentes”, realizada pelos conservadores,e , por outro lado, evidencia-se a vulnerabilidade da democracia, caso este estado de coisas permanentes não seja arduamente defendido.

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    18/01/2015 em 1:54 pm
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    Excelente. Parabéns por elucidar essa questão sem cair na mesmice do “nós contra eles”. Como você disse no Facebook, o ocidente é tão tolerante que ainda dá liberdade de defenderem gente que explode pessoas. A liberdade de defenderem pontos de vista que não concordamos, é essencial. É isso que as pessoas precisam entender. Simples.

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    17/01/2015 em 11:18 pm
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    Uma análise primorosa da situação. Parabéns!

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    17/01/2015 em 10:26 pm
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    Excelente texto! Morgenstern na Veja e Folha, já!

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