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Quem se importa com o amanhã?

JOÃO LUIZ MAUAD *

Já vi algumas empresas quebrarem por conta da ilusão do crédito fácil.  Com pequenas variações, a coisa se dá mais ou menos assim:  em épocas de “vacas gordas”, as empresas sucumbem aos fortes incentivos para aumentar os custos fixos, normalmente através do pagamento de altos salários a seus executivos/administradores, locação de novas sedes suntuosas, aquisição de automóveis de luxo e outros, não necessariamente vinculados à atividade fim da empresa.

Quando a situação aperta, as vendas caem e as inevitáveis recessões se aproximam, insumos e mão-de-obra direta são relativamente fáceis de cortar, mas os custos fixos e as despesas administrativas são mais complicados, pois é uma tendência natural que os executivos protejam os próprios salários e benefícios, afastando-se dos sacrifícios que a prudência recomendaria.

A maneira indolor de lidar com o problema imediato é esquecer os riscos de longo prazo e apelar para o crédito, normalmente abundante para empresas pouco endividadas, esquecendo uma das principais lições de um bom empresário: usar o crédito bancário apenas para investimentos, nunca para financiar despesas correntes e outras extravagâncias.  Ao fazer isso, os executivos transferem para amanhã um problema atual, sempre na esperança de que, quando a conta chegar, a situação será diferente, a recessão terá passado e a bonança estará de volta.  Algumas vezes, isso realmente acontece, mas  nem sempre.

Se esta visão curta é exceção no meio empresarial, geralmente focado no longo prazo, o mesmo não se pode dizer dos governos.  O horizonte desses, normalmente, vai apenas até a próxima eleição, incentivando-os a gastar o máximo possível, a fim de reeleger-se.  Mas há um problema: gastar significa cobrar mais impostos, só que estes não são nem um pouco populares.  A solução, então, tem sido aumentar a dívida pública e deixar a conta para as futuras gerações.

Antigamente, essa gastança desenfreada não era tão bem quista pelos eleitores, que, a exemplo de Adam Smith,  preferiam governos prudentes a parcimoniosos.  Foi John M. Keynes quem deu aos políticos e burocratas a argumentação teórica para gastar a vontade, ao levantar a tese de que o melhor remédio contra recessões, presentes e futuras, é o gasto público.

Como bem inferiu Don Boudreaux, se amanhã não importa – porque, afinal, estaremos todos mortos -, apenas uns poucos malvados, indiferentes ao sofrimento humano, recusarão as políticas que trazem alívio hoje, à custa de amanhã. Apenas seres sem coração sugerirão que os problemas econômicos podem ter causas diferentes e exigem tempo para ser resolvidos de forma adequada e sustentável. Apenas os sádicos serão contra os planos para aliviar a dor de hoje, sob a alegação de que eles vão piorar as coisas amanhã.

Hoje. Aqui e agora. Esse é o único foco dos utilitaristas de visão curta, que infelizmente tomaram conta do mundo, desde que Keynes lhes deu as justificativas teóricas para transferir para as próximas gerações os sacrifícios que deveriam ser feitos agora.

Mas o leitor deve estar se perguntando: a propósito de quê tudo isso?  É que um amigo esquerdista me mandou o link de um site que prega abertamente o calote como solução dos problemas fiscais brasileiros (parece estranho, mas há muita gente que ainda defende esse tipo de coisa).  Embora estejamos de acordo quanto ao diagnóstico – a dívida pública é um imenso problema econômico, que empobrece o país diariamente -, estamos muito distantes quanto à solução.  Como liberal, jamais poderia concordar com quebra de contratos ou culpar os credores pela gastança do estado e pela miséria que é a administração pública.

Assim, ao contrário daquela gente, minha proposta para solução do problema é bastante simples e passa pela introdução de uma norma constitucional que estabeleça, de forma taxativa e incontroversa, que os governos, em suas três esferas, não podem gastar mais do que arrecadam (em impostos), sob pena de imediato impeachment.   Em outras palavras, os governos ficariam proibidos de endividar-se.  Eu estabeleceria também um limite para a carga tributária, em relação ao PIB, mas este já seria um segundo passo.

* ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

 

Instituto Liberal

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