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Quando bilionários especuladores e corporativistas de Wall Street ficaram de joelhos

Há 10 anos, a década de 2010 começava abalada pelos movimentos de caráter revolucionário, tanto da Primavera Árabe quanto pelo movimento anticapitalista Occupy Wall Street. Este segundo movimento ganhou projeção por protestar contra o corporativismo dos bilionários e dos especuladores da Bolsa nos EUA em uma pregação de fim do capitalismo após a crise de 2008, na qual acusava os membros da bolsa de valores de serem os principais culpados pela crise.

Passados 10 anos, o movimento foi esvaziado por sua falta de conquistas, seus resultados nulos e principalmente por sua pregação messiânica em favor de movimentos de extrema-esquerda. Basta lembrarmos que, no Brasil, não fosse a vontade popular, as Jornadas de Julho teriam sido um movimento de caráter similar. Nos EUA, a boa execução do mandato de Obama tornou o movimento uma mera realização de um jovem metido a revolucionário no seio do maior representante mundial do capitalismo.

Em contrapartida, semana passada, os gamers conseguiram fazer o que os extremistas de Occupy Wall Street jamais conseguiram: deixar os especuladores e corporativistas de Wall Street desesperados e atônitos, porém de maneira muito mais capitalista do que jamais imaginaram.

Devido ao aumento do mercado de mídias digitais de vídeo-games, os grandes varejistas do ramo começaram a enfrentar dificuldades de se manter de pé no mundo, perdendo a cada ano um montante considerável de valor de mercado. Com isso, não tardou para fundos de cobertura, os chamados Hedge Funds, apostarem em suas quedas, principalmente na maior empresa desse ramo no mundo, a GameStop. A aposta era lógica no mercado financeiro, afinal, a baixa procura de jogos em mídia física fazia com que lojas do tipo perdessem seu valor e, com isso, a loja em si.

Mas, no mundo gamer, lógicas de mercado são as mais imprevisíveis, afinal, estamos falando de pessoas que se dispõem a pagar 500 dólares em action figures de personagem de jogos em estrutura realista, aumentando em muito a utilidade marginal de um objeto que, para a maioria das pessoas comuns, se custasse 50 dólares já seria um absurdo. Para os gamers, a nostalgia muitas vezes fala mais alto que a inovação de mercado. Basta ver quantos clássicos do PlayStation 1 são disponibilizados na Play Store Network atualmente, mesmo estando já na quinta geração do console.

Com isso, a gigante GameStop era uma parte da nostalgia, já que a loja, que opera desde 1984, é responsável por ser o grande point de colecionadores ávidos e apaixonados por mídias físicas, action figures e tudo que for possível sobre o universo de seu jogo favorito. Como uma comunidade unida, os gamers então tomaram conhecimento destas apostas de fundos de cobertura na queda e até mesmo na falência da GameStop.

O sistema era simples: imagine que você aluga temporariamente sua cópia de Cyberpunk 2077 para o seu amigo. Ele pegou emprestado seu jogo na época do lançamento, quando o preço do game era de R$ 250. Só que esse seu amigo viu todos os rolos que aconteceram no lançamento do jogo e decidiu vender a sua cópia para outra pessoa por R$ 250. Porém, como vocês haviam combinado, na data marcada ele teria que te devolver, né? Mas, se ele vendeu, como ele vai fazer isso? Oras, comprando de novo de alguém. E aí esse seu amigo foi esperto: ele esperou Cyberpunk 2077 entrar numa promoção e recomprou a cópia por R$ 150. Com o jogo em mãos, ele devolveu o jogo e você sequer percebeu que tudo isso aconteceu. Nesse esquema, seu amigo embolsou 100 contos (R$ 250 – R$ 150 = R$ 100). Bom, né?

E é exatamente isso que os fundos de investimento estavam fazendo com a GameStop. Pegando ações emprestadas, vendendo e esperando recomprar num preço bacana para devolver. Isso é uma prática muito comum e que acontece desde sempre no mercado financeiro. Porém, em vez de uma cópia de Cyberpunk, pense que esses fundos compram milhões de ações por bilhões de reais ou dólares, como nesse caso. É muita grana envolvida.

Porém, para um gamer, brincar com os seus gostos é praticamente uma blasfêmia. Via Reddit, um fórum sobre os mais diversos assuntos, os gamers notaram que a prática estava sendo realizada contra o seu templo sagrado, a GameStop.

Voltando ao exemplo do seu amigo com o Cyberpunk, vamos explicar o que foi o movimento dos gamers.

Seu amigo está lá, “de boa”, vendo todo o rolo dos bugs do jogo e esperando o preço cair para recomprar uma cópia e devolver o game “sem treta”. Só que, de repente, a CD Projekt Red arrumou o que estava errado, lançou uns patches, e os jogadores (nesse caso, os usuários do Reddit) se empolgaram com o jogo de novo e começaram a comprar de monte. A procura pelo Cyberpunk aumentou tanto que o preço do jogo começou a subir. Aí vamos supor que, eventualmente, uma cópia do jogo chegou a ser negociada por R$ 500 (lembrando que isso é apenas um exemplo). Seu amigo ficou desesperado. Ele pensou “MEU DEUS! Eu vendi a cópia do meu brother por R$ 250 e agora, para eu devolver, vou ter que recomprar por R$ 500!”. Seu amigo, então, está no prejuízo de 250 “pilas”.

Agora pense que tudo isso aconteceu em uma escala 100 vezes maior. Os usuários do Reddit compraram TANTAS ações da GameStop que os valores foram lá para cima. Os fundos que precisavam recomprar essas ações começaram a entrar em desespero, porque eles estavam perdendo bilhões de dólares.

Tudo isso ocorreu dentro das trocas voluntárias do mercado de ações na esfera capitalista, sem precisar efetuar um único discurso promovendo práticas de extrema-esquerda e pregando revoluções. Apenas exercendo sua liberdade de comprar uma propriedade (ações) e ser dono da mesma.

Atualmente, é claro, o sistema da Bolsa de Valores tem mecanismos sofisticados para evitar que este movimento cause uma nova crise financeira mundial. Não estamos mais em 1929, quando vender excesso de crédito disponível no mercado acionário e uma gestão federal que deu de ombros largando para o “laissez-faire resolver” deixaria atingir um poço tão fundo assim. Em breve, a queda da GameStop será tão grande quanto a sua ascensão, uma vez que a compra de ações não segue a realidade da situação de suas lojas.

Porém, fica a lição para todas as gerações do futuro: o capitalismo é o sistema mais igualitário da história da humanidade. Ele permitiu que pessoas comuns como eu e você, sentados de suas poltronas de casa, com a mão invisível do mercado, colocassem bilionários especuladores e corporativistas de Wall Street de joelhos, implorando para o governo americano usar sua mão visível para impedir a perda de seu dinheiro – e com resultados expressivos.

*Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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