Resenha de “Better Money”, de Lawrence White
Sobre o autor e a obra
Lawrence H. White é um economista da tradição liberal e um dos principais representantes contemporâneos da Escola Austríaca de Economia. Grande parte de sua produção acadêmica é dedicada ao estudo da moeda, da competição monetária e do free banking, tendo como forte influência autores como Friedrich Hayek e a tradição iniciada por Carl Menger. White também
dialoga com as ideias que inspiraram o movimento cypherpunk e que, mais tarde, serviriam de base para o surgimento do Bitcoin.
Em Better Money, White não parte da premissa de que o Bitcoin já seja a solução definitiva para o dinheiro nem de que seu sucesso esteja garantido. Sua principal tese é mais modesta e,
ao mesmo tempo, mais profunda: a existência do Bitcoin demonstra, pela primeira vez em escala global, que soluções monetárias funcionais podem surgir e competir fora do controle
direto do Estado. O livro busca explicar por que isso é possível e quais características definem uma boa moeda.
A captura do dinheiro
Partindo da tradição inaugurada por Carl Menger, White defende que o dinheiro não foi uma invenção do Estado, mas uma instituição que surgiu espontaneamente da necessidade de as
pessoas realizarem trocas voluntárias. O escambo dificultava as relações comerciais, pois cada indivíduo precisava encontrar alguém disposto a trocar exatamente aquilo que possuía pelo
que desejava adquirir. Além disso, faltava uma referência comum capaz de facilitar a comparação entre diferentes bens.
Ao longo do tempo, o próprio mercado selecionou determinados bens para desempenhar essa função. Ouro e prata passaram a ser amplamente utilizados como moeda porque reuniam
propriedades particularmente adequadas: eram relativamente escassos, divisíveis, duráveis, transportáveis e reconhecidos por diferentes participantes como reserva de valor. A história que se seguiu, entretanto, foi mais complexa do que uma simples substituição do mercado pelo Estado. O desenvolvimento dos bancos, do crédito, da padronização monetária e das instituições públicas ocorreu de forma entrelaçada com guerras, tributação, crises financeiras e mudanças na própria organização das economias. Gradualmente, porém, o resultado desse processo foi uma crescente concentração da decisão monetária.
É nesse sentido que utilizo a expressão captura do dinheiro. Controlar sua emissão significa concentrar uma forma extraordinária de poder econômico e político. Acrescento a esse ponto um aspecto que considero importante: a confiança. O Estado desenvolveu instituições capazes de proteger propriedade, fazer cumprir contratos, padronizar unidades monetárias e reduzir determinadas incertezas nas relações entre indivíduos. Essas mesmas capacidades também lhe deram condições de assumir progressivamente uma posição dominante sobre a moeda.
A questão que surge não é, portanto, simplesmente se o Estado participou ou não da evolução monetária. É quais incentivos aparecem quando uma instituição deixa de competir pela confiança dos usuários e passa a deter um monopólio sobre o dinheiro que eles necessariamente precisam utilizar.
A história do padrão-ouro
White dedica parte importante do livro a desfazer alguns equívocos sobre o padrão-ouro e sua evolução histórica. O surgimento dos bancos, principalmente na Europa, ampliou os serviços
de custódia, cunhagem, pagamentos e crédito, contribuindo para um enorme avanço econômico. Ao mesmo tempo, introduziu estruturas financeiras cada vez mais sofisticadas e dependentes da expansão do crédito.
O padrão-ouro não eliminava crises, flutuações de preços ou problemas bancários. Sua diferença fundamental estava na existência de uma restrição econômica externa à criação da própria base monetária. Produzir ouro exigia trabalho, capital, investimento, exploração e tempo. Crises financeiras, guerras e sucessivas mudanças institucionais enfraqueceram progressivamente essa relação. Em 1971, a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro marcou uma etapa decisiva desse processo e abriu caminho para a consolidação do atual sistema monetário fiduciário.
O ponto mais relevante não é tratar o ouro como um sistema perfeito, mas perceber que a natureza de sua oferta impunha limites diferentes daqueles existentes em uma moeda criada
por decisão institucional.
O padrão fiduciário
Para White, uma das principais diferenças entre o ouro e a moeda fiduciária está justamente na forma como sua oferta é determinada. A produção de ouro depende de custos reais de extração e responde aos incentivos econômicos. Quando seu preço aumenta significativamente, surgem incentivos para explorar novas reservas, desenvolver tecnologias e ampliar sua produção. Essa resposta não é imediata, não elimina volatilidade e pode levar anos para ocorrer, mas representa um mecanismo econômico de ajuste cuja expansão possui custo material.
A moeda fiduciária opera sob outra lógica. Sua oferta pode ser expandida por bancos centrais e pelo sistema financeiro sem uma limitação física equivalente. Isso proporciona instrumentos
importantes de política monetária, mas também cria uma característica singular: a quantidade de dinheiro passa a depender, em grande medida, de decisões tomadas por autoridades e
instituições às quais os usuários da moeda não podem simplesmente deixar de se submeter. A consequência que mais me chama atenção é a normalização da perda de poder de compra
ao longo do tempo. Passamos a considerar natural que uma unidade monetária seja incapaz de transportar integralmente seu valor para o futuro e que preservar patrimônio exija continuamente buscar outras formas de proteção.
O padrão Bitcoin
É nesse contexto que surge o Bitcoin. White o descreve como um dinheiro digital descentralizado, capaz de operar sem governos, bancos centrais ou intermediários, sustentado por uma rede aberta de participantes e por regras transparentes que não podem ser alteradas arbitrariamente. Na visão do autor, uma boa moeda deve preservar seu poder de compra, oferecer previsibilidade e não depender da confiança em uma autoridade central. O Bitcoin reúne essas características por possuir uma oferta absolutamente limitada e um conjunto de regras conhecido por todos os participantes da rede.
Uma observação feita por Satoshi Nakamoto ajuda a compreender sua dinâmica econômica: à medida que o número de usuários cresce, cresce também a utilidade da rede, aumentando o
valor atribuído a cada unidade monetária. Esse efeito cria um ciclo positivo em que adoção e valorização passam a se reforçar mutuamente.
A conclusão de White sobre o preço do Bitcoin é relativamente simples: seu valor aumenta conforme cresce a demanda por utilizá-lo, tanto para transações quanto para investimento. Quanto maior a confiança das pessoas de que poderão utilizá-lo no futuro como dinheiro, maior tende a ser sua demanda no presente.
O dinheiro como armazenamento de energia
Acredito que a análise de White seja sóbria ao explicar o que devemos esperar de uma boa moeda e os impactos produzidos quando o dinheiro deixa de cumprir adequadamente algumas
de suas funções. Minha impressão é que ainda não percebemos plenamente o custo dos experimentos monetários das últimas décadas porque desaprendemos o que significa viver sob um dinheiro verdadeiramente escasso.
Costumo enxergar o dinheiro, de maneira metafórica, como um mecanismo de armazenamento de energia econômica. Quando uma pessoa trabalha, empreende ou produz alguma coisa que outra pessoa valoriza, ela transforma tempo, esforço, conhecimento e risco em riqueza. Ao receber dinheiro em troca, pode consumir imediatamente esse resultado ou transportá-lo para o futuro. Poupar significa abrir mão do consumo presente para preservar capacidade de consumo, investimento ou escolha no futuro. Nesse sentido, uma das funções mais importantes de uma boa moeda é permitir que o resultado do trabalho atravesse o tempo sem exigir de seu proprietário uma atividade econômica adicional apenas para impedir sua deterioração.
É justamente aí que encontro um dos maiores problemas do sistema atual. Hoje, para simplesmente tentar preservar o resultado do próprio trabalho durante períodos longos, frequentemente não basta poupar. É necessário investir, estudar mercados, assumir riscos, adquirir imóveis, empresas, títulos ou outros ativos capazes de compensar a perda de poder de compra da moeda.
Existe uma diferença importante entre assumir risco porque identificamos uma oportunidade produtiva e ser empurrado para o risco porque permanecer em dinheiro significa aceitar sua
deterioração. Uma moeda capaz de preservar melhor o poder de compra devolve ao indivíduo parte dessa escolha. O capital pode ser direcionado a uma empresa, um projeto ou um investimento
quando o retorno esperado justificar o risco e não apenas porque manter liquidez representa uma perda previsível.
Bitcoin como moeda, capital e propriedade legítima
É justamente nesse ponto que, na minha visão, o Bitcoin representa uma ruptura importante. Seu processo de criação foi singular e suas regras conseguiram reproduzir digitalmente uma forma de escassez que, antes, dependia fundamentalmente de bens físicos. Um conjunto refinado de incentivos econômicos e tecnológicos criou uma rede descentralizada, resistente à censura e extremamente difícil de interromper.
Por isso, entendo que o Bitcoin pode ser analisado simultaneamente como moeda, capital e propriedade privada. Como moeda, reúne propriedades que permitem transmitir valor entre indivíduos sem depender necessariamente de um intermediário central. Sua divisibilidade, transportabilidade, verificabilidade, previsibilidade de oferta e resistência à censura fazem dele uma experiência monetária especialmente relevante.
Como capital, considero importante sua capacidade de carregar valor por longos períodos com custos relativamente baixos de manutenção. Um patrimônio monetário que não precisa ser
fisicamente armazenado, conservado ou administrado por estruturas complexas pode funcionar como uma base a partir da qual decisões produtivas são tomadas. Uma boa reserva de capital não elimina investimento nem empreendedorismo. Pelo contrário: permite que o risco seja assumido quando existe uma oportunidade econômica suficientemente boa para justificá-lo.
Mas talvez seja como propriedade privada que o Bitcoin apresente sua ruptura mais profunda. Durante praticamente toda a história, defender patrimônio relevante exigiu algum tipo de estrutura proporcional ao seu valor: território, cofres, vigilância, instituições financeiras, proteção jurídica ou força física. Em muitos casos, a propriedade também permaneceu dependente do reconhecimento ou da cooperação de terceiros.
O Bitcoin altera profundamente essa relação. Um indivíduo pode deter diretamente as credenciais que controlam seu patrimônio e transferi-lo sem depender da autorização de uma instituição financeira. O custo de manter essa propriedade pode ser extremamente baixo quando comparado ao valor que ela representa, enquanto o custo de tomá-la pode ser muito elevado. Essa assimetria é politicamente importante. Pela primeira vez, torna-se possível deter e transportar uma forma de patrimônio cuja defesa não depende necessariamente de superioridade física nem da anuência do próprio Estado.
Um governo pode regular empresas, fechar intermediários, criar impostos, restringir acessos e exercer pressão sobre indivíduos. Mas não existe uma sede central do Bitcoin a ser fechada, um presidente da rede a ser coagido ou um servidor único cuja interrupção encerre o sistema. Isso não torna nenhum indivíduo absolutamente imune à coerção estatal. Torna, porém, a propriedade monetária muito mais difícil de controlar por meio das estruturas tradicionais de poder. Para uma tradição liberal baseada na proteção da propriedade privada, essa talvez seja uma das características mais relevantes de toda a experiência Bitcoin.
Baixa preferência temporal
Talvez um dos ensinamentos mais interessantes dessa discussão não seja propriamente tecnológico, mas comportamental. Uma moeda influencia a maneira como indivíduos percebem o presente e o futuro. Quando manter dinheiro implica uma expectativa constante de perda de poder de compra, surgem incentivos adicionais para consumir, buscar ativos ou antecipar decisões. Quando existe confiança de que aquilo que foi poupado poderá preservar melhor seu valor, torna-se mais fácil considerar horizontes mais longos.
É nesse contexto que relaciono o Bitcoin à ideia de baixa preferência temporal: abrir mão de uma satisfação imediata em favor da construção paciente de riqueza, projetos e possibilidades
futuras. Não acredito que baixa preferência temporal torne automaticamente alguém melhor nem que explique sozinha a qualidade de empresas, famílias ou relações humanas. Entretanto, a
capacidade de planejar, poupar, adiar determinadas recompensas e pensar além do curto prazo influencia profundamente a forma como construímos empresas, projetos e decisões pessoais.
O ponto mais importante, portanto, não é moralizar o comportamento individual, mas perceber que sistemas monetários também produzem incentivos comportamentais. E é nesse aspecto que Better Money me parece mais relevante.
Durante muito tempo, fomos ensinados a tratar o sistema monetário atual como se fosse a forma natural e definitiva do dinheiro. A perda contínua do poder de compra, a necessidade de
assumir riscos apenas para preservar riqueza e a concentração das decisões sobre a oferta monetária passaram a ser encaradas como características inevitáveis da economia. O dinheiro fiduciário contemporâneo é uma construção institucional historicamente particular e não o estágio final inevitável da evolução monetária. Seus problemas se tornaram tão familiares que muitas vezes deixamos de percebê-los como problemas.
A importância do Bitcoin talvez não dependa, portanto, de provar antecipadamente que ele substituirá todas as outras formas de dinheiro. Sua existência já rompe uma premissa muito mais antiga: a de que não existe alternativa possível ao monopólio monetário estabelecido. A partir do momento em que duas formas de dinheiro podem competir, voltamos a fazer perguntas que haviam desaparecido do debate cotidiano. Qual preserva melhor o resultado do trabalho? Qual possui regras mais previsíveis? Qual protege melhor a propriedade? Qual concentra menos poder? Que tipo de comportamento cada sistema incentiva? E em qual deles os indivíduos são mais livres para decidir como transportar sua riqueza entre o presente e o futuro?
Talvez essa seja a contribuição mais importante de Better Money. O Bitcoin não encerra a discussão sobre o que é uma boa moeda. Ele torna essa discussão possível novamente. Ao devolver ao dinheiro a possibilidade de competição, também nos obriga a reconhecer que as regras monetárias nunca são neutras: elas moldam os incentivos pelos quais poupamos, investimos, produzimos, planejamos o futuro e distribuímos poder dentro da sociedade.
*Rafael Leandro é engenheiro civil pela Universidade Mackenzie e associado do IFL Brasília. Trabalha no mercado imobiliário com atuação em incorporação, urbanismo e desenvolvimento de cidades. Otimista delirante e maximalista do Bitcoin.



