CazéTV, Globo, bets e a sociedade brasileira mercantilista

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O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) emitiu uma medida liminar contra as propagandas de casas de apostas, as chamadas bets, no canal CazéTV, do youtuber Casimiro Miguel, o Cazé. O objetivo da medida liminar é suspender provisoriamente as propagandas até o julgamento final do caso.

Além do Conar, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão federal vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, abriu investigação contra a CazéTV após uma ação movida pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Esse acontecimento mostra como a sociedade brasileira é mais parecida com uma sociedade mercantilista do que com uma sociedade capitalista.

O youtuber Cazé ficou famoso com suas lives sobre futebol. Com sua ascensão, criou uma base de espectadores nesse segmento. Cazé atingiu o auge dessa trajetória ao conseguir transmitir alguns jogos da Copa do Mundo de 2022. Antes disso, a emissora Globo tinha a exclusividade da transmissão do evento. Neste ano, o canal do youtuber conseguiu ir além: atingiu 18,3 milhões de dispositivos conectados simultaneamente contra 22,8 milhões da TV Globo. Um youtuber que começou fazendo lives no quarto de sua casa conseguiu rivalizar com o maior canal de televisão do país.

Para isso, o canal buscou recursos por meio de patrocinadores. O modelo é basicamente o mesmo usado por empresas como o Google. O acesso ao Google é gratuito; isso significa que você não paga diretamente pelo serviço. O lucro do Google vem dos patrocinadores, que pagam para ter sua marca divulgada nas páginas da empresa. Quanto maior o acesso, maior é o preço que o Google pode cobrar das empresas para anunciá-las.

Cazé fez a mesma estratégia. Ele e sua equipe foram em busca de patrocinadores que pagariam para ter suas marcas anunciadas nas propagandas do canal. Entre essas marcas, estão as bets.

Esse caso da CazéTV só aumenta a percepção de que a sociedade brasileira vive muito mais em um sistema mercantilista do que em um sistema capitalista. O argumento utilizado para que o Estado brasileiro fosse acionado contra a CazéTV foi o uso de propagandas de bets. Porém, a emissora que disputa audiência com o canal do YouTube apresentou o programa Big Brother Brasil entre 12 de janeiro e 21 de abril de 2026, e era possível ver propagandas de bets, mas nada aconteceu.

cazétv transmissão
Equipe da CazéTV, em registro durante transmissão de jogo da Copa. Da esquerda para a direita: o apresentador Casimiro Miguel, a comentarista Juliana Cabral, o narrador Luis Felipe Freitas (Luisinho) e o comentarista Fernando Campos (Donan) | Foto: Reprodução/YouTube/CazéTV

Também é possível ver propagandas de apostas em jogos do Campeonato Brasileiro, o Brasileirão, no canal Premiere — um canal que pertence ao Grupo Globo.

Para piorar a situação, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) proibiu a CazéTV de disputar os direitos de transmissão da Copa do Brasil. O problema é que a organização, a regulamentação e a negociação das cotas de televisão, dos patrocinadores e dos naming rights são responsabilidades da CBF, e o nome oficial do torneio neste ano é Copa Betano do Brasil, em referência a uma casa de apostas. Além disso, o campeonato conta com mais duas casas de apostas como patrocinadoras: a Betnacional e a Superbet.

Este texto não tem a intenção de expressar a minha opinião sobre as casas de apostas e suas propagandas na televisão. O objetivo é refletir sobre por que agentes públicos, políticos e a entidade privada que organiza o futebol no Brasil reagiram dessa forma contra um simples canal de YouTube. A CBF alega que a CazéTV não atende aos critérios financeiros. Porém, o canal conseguiu acesso a um evento muito maior, que é a Copa do Mundo, mas não passou nos critérios da CBF.

Em uma sociedade capitalista saudável, a regra deve ser geral, previsível e aplicada de maneira igual a todos os participantes do setor. Se propaganda de apostas é considerada abusiva, ela deve ser fiscalizada em todos os veículos, em todos os campeonatos e contra todos os agentes econômicos envolvidos. O problema está em usar a regulação de forma seletiva, especialmente quando o alvo é um novo concorrente que ameaça estruturas já estabelecidas. É nesse ponto que o Brasil se aproxima mais de uma sociedade mercantilista do que de uma sociedade genuinamente capitalista.

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No capitalismo, empresas competem para conquistar consumidores. No mercantilismo, empresas competem para conquistar proteção, autorização, privilégio e tolerância do poder político. Em uma ordem capitalista, o sucesso da CazéTV deveria ser medido pela capacidade de atrair audiência, patrocinadores e entregar um produto que o público deseja consumir. Em uma ordem mercantilista, o sucesso passa a depender também da capacidade de sobreviver ao emaranhado de regras, pressões, órgãos, entidades e decisões que controlam o acesso ao mercado.

Uma ruptura na transmissão

A CazéTV representa justamente uma ruptura nesse setor. Um canal que começou na internet, com linguagem própria, mais leve e um orçamento muito menor conseguiu competir com empresas tradicionais que dominaram a transmissão esportiva no Brasil por décadas. Isso é capitalismo em sua forma mais clara: um novo entrante usando tecnologia, inovação e preferência do consumidor para desafiar incumbentes. Mas a reação das instituições ao crescimento desse novo competidor revela uma realidade diferente.

Quando o novo entrante cresce, incomoda e começa a disputar audiência, direitos de transmissão e dinheiro publicitário, o jogo deixa de ser apenas econômico e passa a ser político-regulatório. De repente, aquilo que era tolerado em vários espaços do futebol brasileiro passa a ser tratado como um problema urgente quando aparece no canal que ameaça a velha estrutura. A Globo é a emissora que mais recebe repasses do orçamento de publicidade do governo. Sob o governo Lula, a Globo recebeu R$ 270 milhões, o que representa 25,6% do total do orçamento entre 2023 e junho de 2026.

Para fins de comparação, o valor recebido pela Globo é 118% maior que o da Record, que recebeu R$ 122 milhões e é a segunda maior recebedora de recursos de publicidade da Presidência da República. A revista Oeste divulgou que a emissora já teria recebido R$ 10,2 bilhões entre 2000 e 2016. A contradição é evidente. O futebol brasileiro está profundamente financiado por casas de apostas. Há bets nos nomes dos campeonatos, nas placas de publicidade, nas transmissões, nos uniformes e nos intervalos. Mas, quando a CazéTV usa esse mesmo mercado publicitário para viabilizar sua transmissão gratuita e competir com gigantes tradicionais, surge uma pressão regulatória e institucional.

Um caso de poder

No mercantilismo clássico, reis concediam monopólios, licenças e privilégios a grupos próximos ao poder. O comerciante bem-sucedido não era necessariamente aquele que produzia melhor, mas aquele que conseguia comprar essas concessões dos reis. No Brasil atual, a lógica é parecida. A disputa econômica muitas vezes não é decidida pelo consumidor, mas por órgãos reguladores, decisões administrativas ou judiciais e relações políticas.

Em vez de ser punida pelos consumidores, a CazéTV foi vítima do sistema mercantilista contemporâneo brasileiro – a estrutura que pune quem quer ser o “getting ahead” para proteger os que são “staying ahead”. O grupo do staying ahead é composto por empresas e empresários que já estão no topo. Trata-se de uma elite econômica consolidada, cuja sobrevivência depende, em grande medida, de lucros e ganhos derivados de rent seeking. Para esse grupo, a concorrência deixa de ser oportunidade e passa a ser ameaça; por isso, seus membros tendem a usar o poder político para erguer barreiras à entrada, proteger mercados e a ordem existente excluindo ou barrando novos concorrentes.

Já o grupo do getting ahead é formado por aqueles que querem “chegar lá”: empreendedores inovadores que, em geral, não têm acesso direto ao poder político. Para eles, a única via legítima de ascensão é a inovação, a criação de valor, a expansão da oferta de bens e serviços que melhoram a vida das pessoas. O espírito empreendedor é, por natureza, criativo o suficiente para driblar barreiras e encontrar brechas — desde que essas barreiras não sejam institucionalmente intransponíveis. Uma sociedade mais livre é aquela em que esse segundo grupo consegue desafiar o primeiro em vez de ser bloqueado por uma muralha de privilégios legais.

Por isso, o caso CazéTV não é apenas sobre bets. É sobre privilégio e poder. É sobre um sistema econômico em que novos entrantes podem até crescer, desde que não cresçam demais. Porque, quando crescem a ponto de ameaçar os donos tradicionais do setor, descobrem que, no Brasil, o sucesso depende da aproximação com os “reis”. Enquanto, em uma sociedade capitalista, a eliminação dos concorrentes depende da decisão dos consumidores, no mercantilismo contemporâneo, essa eliminação ocorre por meio do uso seletivo das regras pelos donos do poder regulador, político ou judicial.

*Artigo publicado originalmente na revista Oeste.

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Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

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