Não, Haddad. Sua derrota não será “culpa do Neoliberalismo”

Fernando Haddad atribuiu a ascensão do presidenciável Jair Bolsonaro a uma “crise do Neoliberalismo”. Como sempre, o PT não possui autocrítica e começa a preparar sua narrativa para justificar a acachapante derrota eleitoral na corrida presidencial.

Neoliberalismo é uma espécie de espantalho criado pela esquerda para ser apontado como o causador de qualquer coisa que se queira criticar. Alguns casos sobre o assunto foram coletados pelo economista e pesquisador do Ipea, Leo Monasterio.

Exemplo disso é a frequente crítica de que o Neoliberalismo foi o responsável pelo colonialismo da África a despeito de liberais criticarem o colonialismo desde Adam Smith. Também nesse contexto, um genocídio cometido pelo Rei do Congo Belga Leopoldo II no final do século XIX é apontado como responsabilidade do Neoliberalismo. Sim, ele carrega o ônus até por crimes estatais do passado.

Há alarde ainda no tocante ao Neoliberalismo ser o “culpado” pelo alto preço de alguns itens de luxo. A literatura ensina que, em circunstâncias específicas, aumento de preço pode significar um aumento surpreendente na procura pelo bem. É a teoria do consumo conspícuo: as pessoas consomem bens que simbolizam status com o objetivo de serem notadas. Nesses casos, a finalidade principal do consumo é ostentar a riqueza, não a qualidade do bem, como um Porsche. É o que convencionou-se chamar de Bens de Veblen. O preço inflacionado por um Rolex, por conseguinte, seria resultante do tal do Neoliberalismo, já que, pelo mercado não ser regulado, deixa-se os preços para livre apreciação dos indivíduos que queiram comercializar entre si.

Já Donald J. Nicolson vai além: escreveu um livro correlacionando uma suposta baixa qualidade de conferências acadêmicas com o “Neoliberalismo na academia”. Para ele, em vez de investigação intelectual, agora os papers são voltados para a mensuração de desempenhos a partir de dados e evidências empíricas. Não importa, portanto, se sua proposição não for possível de ser testada a partir do método popperiano de verificação e falseabilidade. O que importa é meramente o discurso e a retórica – e o Neoliberalismo está destruindo isso. Se Nicolson estiver correto, infelizmente essa revolução Neoliberal na academia ainda não chegou ao Brasil, cuja academia costumeiramente produz mais lixo acadêmico que boas publicações.

Por fim, há quem correlacionou o fenômeno de exibir em redes sociais fotos do próprio corpo em academias como forma de se valorizar em um contexto de austeridade e Neoliberalismo na Inglaterra. É sério. E foi em um artigo acadêmico.

A tática de criar espantalhos, como o Neoliberalismo, FHC ou Snowball,  e tratá-lo como um inimigo em comum, é útil para uma esquerda orgulhosa que se recusa a realizar qualquer autocrítica. Até hoje a esquerda ainda abraça o comunismo.

Haddad não perderá por causa do Neoliberalismo. Perderá porque o legado petista é de corrupção, aparelhamento do Estado, por se sustentarem em um ex-presidente condenado e preso. A derrota será uma sanção por causarem a maior recessão da história do país. Será punido nas urnas por uma campanha que não se comunica com as massas e insiste em pedir votos falando sobre Democracia e Fascismo – conceitos que a maior parte do eleitorado nem sequer compreende. A maioria dos brasileiros estão preocupados se conseguirão novamente um emprego e em poder transitar nas ruas com segurança.

Tudo isso é um enorme atraso ao debate público brasileiro. Há uma “esquerda esclarecida”, que defende políticas públicas visando redistribuição de renda, desde que com responsabilidade fiscal. Foram partidos de esquerda que, em dados momentos, promoveram fortes ajustes fiscais e reformas liberais na Nova Zelândia, Canadá e Suécia nos anos 1980 e início dos anos 1990, por exemplo. Culpar espantalhos por seu fracasso eleitoral impede um amadurecimento que a esquerda brasileira deveria buscar. Infelizmente, neste momento ela está mais preocupada em abraçar um presidiário e culpar alguma entidade abstrata.

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