Entre a narrativa e a realidade: por que a direita pode vencer as eleições de 2026?

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Introdução
As eleições presidenciais de 2026 ocorrerão em um dos cenários políticos mais complexos das últimas décadas. O Brasil chega ao período eleitoral profundamente dividido, com elevados índices de rejeição, crescente desconfiança em relação às instituições e uma população que demonstra sinais claros de exaustão com a polarização permanente.

A análise apresentada por Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, aponta para uma disputa presidencial acirrada, marcada pela continuidade da disputa entre o lulismo e o campo político associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (ARRUDA, 2026). Segundo o cenário apresentado, a possibilidade de consolidação de uma terceira via continua limitada, e a eleição poderá ser decidida por diferenças mínimas no segundo turno.

O diagnóstico merece atenção. Entretanto, considero precipitada qualquer conclusão que apresente a permanência da esquerda no poder como resultado provável ou inevitável. A direita conserva uma base social expressiva, encontra terreno favorável em temas decisivos para o eleitor e tem condições concretas de disputar a vitória.

Essa possibilidade, contudo, não decorre apenas da força do antipetismo ou da identificação ideológica de parte da população com o conservadorismo. Ela se relaciona diretamente às dificuldades econômicas vividas pelas famílias, à crescente preocupação com a segurança pública, à deterioração da confiança no Estado e à percepção de que o atual governo não oferece respostas satisfatórias aos principais problemas nacionais.

O objetivo deste artigo é analisar as condições políticas, econômicas e institucionais que podem favorecer a vitória da direita em 2026. A hipótese defendida é que a eleição será decidida menos pelas narrativas produzidas pelos partidos e pelos formadores de opinião e mais pela realidade que o cidadão percebe no dia a dia.

Essa realidade aparece no supermercado, nos juros do crédito, na dificuldade de empreender, na insegurança das ruas, no orçamento familiar e na perda da capacidade de planejar o futuro.
Convém explicitar, desde o início, uma distinção que atravessa todo o texto. Uma coisa é identificar as condições que podem favorecer eleitoralmente a direita; outra é defender o projeto político que o autor considera desejável. O artigo trata dos dois planos, mas mantém esses planos separados: quando descreve tendências, apoia-se no cenário eleitoral disponível e em seus limites; quando recomenda caminhos, assume abertamente a perspectiva liberal que orienta a argumentação. A hipótese defendida aqui é condicional e não profética: sustenta-se que a vitória é possível sob determinadas condições, não que seja provável ou inevitável.

A economia oficial e a economia vivida
As análises econômicas recorrem com frequência a indicadores agregados para avaliar o desempenho de um governo. Crescimento do Produto Interno Bruto, taxa de desemprego, inflação oficial, renda média e arrecadação são indicadores indispensáveis à compreensão de a economia de um país.

O problema surge quando esses indicadores deixam de servir à interpretação da realidade e passam a ser usados para contestar a experiência concreta da população. A jornalista Miriam Leitão, assim como outros analistas de avaliação mais favorável ao governo, sustenta com frequência haver uma distância entre a percepção negativa dos brasileiros e determinados resultados econômicos apresentados pelas estatísticas oficiais.

Essa interpretação pode conter elementos pertinentes, mas corre o risco de inverter a lógica da relação entre governo, economia e sociedade. Não cabe ao cidadão ser convencido de que sua situação melhorou apenas porque alguns indicadores tiveram desempenho positivo. Cabe à política econômica produzir resultados concretos o bastante para que essa melhora seja percebida espontaneamente.

A experiência individual não substitui a análise estatística. Ao mesmo tempo, a estatística não pode invalidar a experiência de milhões de pessoas. O brasileiro pode não acompanhar regularmente a divulgação dos índices econômicos, mas sabe quanto pagava antes pelos alimentos, pelo combustível, pelos medicamentos, pelo aluguel, pela energia elétrica e pelos serviços essenciais. Também sabe quanto de sua renda resta depois de cumprir suas obrigações mensais.

A inflação, nesse sentido, não é percebida como um conceito abstrato. Ela representa a diminuição concreta da quantidade de bens e serviços que determinada renda consegue adquirir.
Há uma razão técnica para um indicador agregado consistente e a experiência individual divergirem sem que nenhum dos dois esteja equivocado. Índices oficiais de preços são médias construídas a partir de cestas de consumo e de ponderações previamente definidas e representam um padrão que não corresponde exatamente a nenhuma família em particular. Domicílios com estruturas distintas de consumo, de renda e de patrimônio experimentam, portanto, variações de preços distintas entre si e em relação à média nacional.

Uma família de renda mais baixa, que compromete grande parte de seu orçamento com alimentação, transporte e habitação, sente a elevação dos preços de modo diferente de uma família com renda elevada e maior capacidade de poupança. Quando os preços dos bens essenciais aumentam acima da média geral, o impacto social pode ser bem maior do que o retratado pelo índice agregado, sem que o índice esteja incorreto.

A contribuição de Ludwig von Mises ajuda a entender por que essas diferenças têm importância política. Ao demonstrar que o valor econômico possui uma dimensão necessariamente subjetiva, Mises (2010) evidencia que as pessoas avaliam sua realidade a partir das necessidades a que buscam satisfazer e das escolhas que precisam fazer. Disso não decorre que a inflação seja subjetiva nem que cada indivíduo possua uma taxa própria determinada por sua avaliação pessoal: a variação dos preços é um fenômeno objetivo e mensurável. O que decorre é que o significado dessa variação para cada família depende daquilo que ela efetivamente precisa comprar. É esse significado, e não o índice isoladamente, que se converte em avaliação política.

Há ainda uma distinção fundamental entre a redução da inflação e a redução dos preços. Quando a inflação desacelera, os preços continuam aumentando, ainda que em ritmo menor. Os aumentos acumulados anteriormente não desaparecem. Por essa razão, é perfeitamente possível que um indicador oficial mostre desaceleração inflacionária enquanto a população continua percebendo perda de poder de compra.

Desqualificar essa percepção pode trazer consequências eleitorais relevantes. Quando o discurso político afirma que a economia está melhor, mas o cidadão encontra uma realidade diferente em seu orçamento, a experiência pessoal tende a pesar mais do que o discurso oficial na formação da confiança. Em uma democracia, essa experiência também se expressa pelo voto.

A inflação como fenômeno econômico e político
Milton Friedman afirmava que processos inflacionários persistentes estão associados à expansão continuada da oferta monetária (FRIEDMAN, 1994). Embora choques externos, alterações climáticas, crises internacionais e dificuldades de oferta possam pressionar determinados preços no curto prazo, a permanência da inflação depende, em grande medida, das escolhas fiscais e monetárias realizadas pelo Estado.

Convém, porém, evitar supor uma sequência causal automática entre gasto público, expansão monetária, inflação, juros e redução de investimentos. Choques de oferta, expectativas, condução da política monetária, situação fiscal, câmbio e condições externas operam por canais distintos e em horizontes variados. O argumento liberal não depende de afirmar que todo desequilíbrio fiscal produzirá imediatamente inflação mais alta. O ponto está em demonstrar algo mais preciso e verificável: a deterioração fiscal persistente restringe o espaço da política monetária, eleva prêmios de risco, pressiona a taxa de juros e compromete, ao longo do tempo, a estabilidade e os investimentos produtivos.

A inflação não é apenas um problema econômico. Também produz consequências sociais, morais e políticas. Ao reduzir o valor da moeda, a inflação transfere renda de forma silenciosa. Aqueles que possuem patrimônio, acesso a investimentos e capacidade de reajustar seus rendimentos conseguem se proteger parcialmente. Os trabalhadores assalariados, os aposentados e os cidadãos de menor renda dispõem de menos instrumentos de proteção.

Por esse efeito distributivo, a inflação costuma ser descrita como uma espécie de tributação indireta e não autorizada. A expressão não é uma definição técnica do fenômeno, mas uma analogia que traduz sua consequência prática: uma redução de renda real imposta sem deliberação legislativa, cujos efeitos são especialmente severos sobre aqueles que vivem da renda mensal e precisam destinar a maior parte de seus recursos ao consumo imediato.

Friedrich Hayek destacava que o funcionamento de uma economia livre depende da capacidade de indivíduos e empresas utilizarem informações dispersas ao planejar suas decisões (HAYEK, 2010). Quando a moeda perde estabilidade e os preços sofrem alterações recorrentes, essa coordenação se torna mais difícil. O empresário tem dificuldade de prever quanto custará sua matéria-prima, qual será o custo de reposição dos estoques ou quanto deverá cobrar para manter sua atividade. O trabalhador encontra dificuldades para comparar salários reais. A família adia investimentos e passa a concentrar seus esforços nas necessidades imediatas.

A inflação, portanto, corrói mais do que o poder de compra: corrói a capacidade de planejamento. Esse fenômeno pode ocupar posição central nas eleições de 2026. Mesmo que o governo apresente indicadores positivos, a oposição poderá construir uma narrativa eleitoral consistente se demonstrar que o crescimento das despesas públicas, a deterioração fiscal e a falta de confiança na condução econômica têm consequências diretas na vida da população.

A direita, no entanto, precisará evitar soluções simplistas. Não bastará denunciar o aumento dos preços. Será preciso explicar a relação do problema com o desequilíbrio das contas públicas, com a expansão do Estado, com os juros elevados e com a redução dos investimentos produtivos. A responsabilidade fiscal deve ser apresentada não como uma exigência do mercado financeiro, mas como uma condição de proteção da renda, da moeda e das futuras gerações.

Uma eleição marcada pela rejeição
O cenário eleitoral apresentado por Juan Carlos Arruda indica que 2026 poderá reproduzir, em grande medida, a polarização vista nos últimos pleitos presidenciais (ARRUDA, 2026).
De um lado, há uma parcela da população que rejeita o Partido dos Trabalhadores e responsabiliza seus governos por escândalos de corrupção, intervencionismo econômico, crescimento do Estado e deterioração fiscal. De outro, há também um segmento que teme o retorno do grupo político ligado a Jair Bolsonaro e associa esse campo a conflitos institucionais e à instabilidade política.

Será, portanto, uma eleição em que a rejeição poderá ser tão importante quanto a preferência. O antipetismo continua sendo uma das forças mais relevantes da política brasileira. Não decorre apenas de divergências ideológicas. Também se relaciona à memória dos escândalos políticos, ao desgaste de sucessivos governos petistas e à percepção de que a esquerda continua defendendo um modelo baseado na ampliação das despesas públicas, na intervenção econômica e no fortalecimento da burocracia estatal.

Entretanto, a existência do antipetismo não garante, por si só, a vitória da direita. Uma candidatura presidencial não pode se sustentar apenas na rejeição ao adversário. É preciso oferecer uma visão positiva de país, capaz de mobilizar os eleitores que não se identificam integralmente com nenhum dos polos.

James Buchanan demonstrou, no âmbito da Escola da Escolha Pública, que os agentes políticos respondem a incentivos e buscam preservar poder, influência e recursos (BUCHANAN; TULLOCK, 1999). Essa constatação ajuda a explicar por que o crescimento do Estado tende a produzir grupos organizados interessados em sua própria continuidade. A disputa eleitoral não ocorre, portanto, em terreno neutro. Governos dispõem de mecanismos administrativos, programas públicos, capacidade de comunicação e influência institucional. Para competir nesse ambiente, a direita precisará combinar mobilização popular, organização partidária, comunicação eficiente e propostas concretas.

Mais importante, deverá demonstrar que o liberalismo econômico e o conservadorismo político não são abstrações restritas a determinados grupos sociais (FRIEDMAN, 1984). Seus princípios devem ser traduzidos em benefícios compreensíveis para o cidadão comum: liberdade econômica deve significar mais empregos e mais oportunidades; responsabilidade fiscal deve significar inflação menor e estabilidade; segurança jurídica deve significar investimento e crescimento; limitação do Estado deve significar menos privilégios, menos desperdícios e maior respeito ao contribuinte.

Segurança pública e a crise da autoridade
A segurança pública deverá ocupar lugar central na eleição. Segundo os dados apresentados por Arruda (2026), o tema tornou-se a principal preocupação de parcela expressiva da população brasileira, superando questões tradicionalmente dominantes no debate eleitoral.

Esse movimento é compreensível. O crescimento das organizações criminosas, a expansão do tráfico de drogas, o domínio territorial exercido por facções e a sensação de impunidade tornaram a insegurança parte da experiência cotidiana. O problema ultrapassou os limites das grandes cidades e passou a atingir regiões que antes apresentavam níveis menores de criminalidade.
A segurança pública representa uma vulnerabilidade eleitoral para a esquerda, mas é preciso esclarecer em que consiste essa vulnerabilidade. Não se trata de atribuir a todo um campo político a recusa ao exercício legítimo da autoridade estatal. Trata-se de observar que determinadas propostas defendidas nesse campo — a ênfase quase exclusiva em políticas sociais de prevenção, a resistência a instrumentos de endurecimento penal e a crítica recorrente à atuação policial — têm produzido resultados que parcela expressiva da população considera insuficientes diante da expansão do crime organizado. A comparação entre propostas concretas e resultados verificáveis oferece base mais sólida para a crítica liberal do que a generalização sobre disposições ideológicas.

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Permanece válida, contudo, uma ressalva de fundo: explicar as causas sociais da criminalidade não significa atenuar a responsabilidade individual de quem pratica crimes. Compreender as causas da violência é necessário, mas não elimina o dever de proteger a sociedade. John Locke sustentava que uma das funções fundamentais do governo é proteger a vida, a liberdade e a propriedade (LOCKE, 1998). Quando o Estado deixa de assegurar esses direitos, compromete sua própria razão de existir.

A direita é historicamente mais identificada com a valorização das forças policiais, o endurecimento do combate ao crime e a defesa da ordem. Essa posição poderá gerar vantagem eleitoral relevante. Contudo, também nesse campo, será preciso ir além dos slogans. O Brasil precisa de uma política de segurança baseada em inteligência, integração das forças de segurança, controle das fronteiras, combate à lavagem de dinheiro, fortalecimento das polícias, gestão do sistema penitenciário e enfrentamento das estruturas econômicas do crime organizado.

A defesa da autoridade precisa vir acompanhada de eficiência, planejamento e respeito às instituições. A população não espera apenas discursos firmes; espera resultados.

A direita e o desafio de ampliar sua base
Arruda (2026) descreve o eleitorado como dividido entre bolsonaristas, lulistas e um grande grupo intermediário sem fidelidade absoluta a nenhum dos polos. Esse eleitorado moderado poderá decidir a eleição — hipótese cuja confirmação depende de séries de pesquisas de intenção de voto e de levantamentos de opinião que dimensionem o tamanho e o comportamento efetivo desse segmento.

A direita cometerá um erro grave se acreditar que sua base tradicional será suficiente. Uma eleição nacional exige capacidade de formar maioria, dialogar com diferentes grupos sociais e compreender as preocupações de quem não acompanha intensamente o debate político.

O eleitor moderado não busca necessariamente uma terceira ideologia. Em muitos casos, procura estabilidade, previsibilidade e competência administrativa. Esse eleitor pode concordar com posições conservadoras em determinados temas e, simultaneamente, demonstrar preocupação com políticas sociais, emprego e renda. A direita deverá responder a essas preocupações sem abandonar seus princípios. A defesa de políticas sociais não exige aderir ao crescimento ilimitado do Estado. Ao contrário, programas sociais responsáveis precisam ser focalizados, avaliados e acompanhados por mecanismos que promovam autonomia e favoreçam a superação da dependência. Uma sociedade verdadeiramente livre não abandona os mais vulneráveis, mas também não os transforma em instrumentos permanentes de controle eleitoral.

A direita também precisará conter disputas personalistas. A fragmentação pode comprometer candidaturas majoritárias, especialmente nas eleições para o Senado. Em estados em que duas vagas estarão em disputa, um número excessivo de candidatos do mesmo campo poderá dividir votos e favorecer adversários mais organizados. Isso não exige eliminar a diversidade interna. Exige estabelecer prioridades, construir consensos mínimos e compreender que nenhuma liderança individual deve se sobrepor ao projeto nacional.

Minas Gerais, abstenção e equilíbrio eleitoral
Minas Gerais deverá voltar a exercer papel determinante. O estado reúne realidades econômicas, sociais e culturais. Possui regiões industriais, áreas agrícolas, grandes centros urbanos e municípios fortemente dependentes das transferências públicas. Essa diversidade faz de Minas uma representação aproximada do próprio Brasil.

Convém registrar que a centralidade mineira é, aqui, uma hipótese derivada do histórico eleitoral do estado e do cenário apresentado por Arruda (2026), e não conclusão extraída de séries do Tribunal Superior Eleitoral ou de levantamentos recentes de intenção de voto. A confirmação dessa hipótese depende do comportamento efetivo do eleitorado mineiro no próximo pleito.
Conquistar o eleitor mineiro exige equilíbrio. A retórica excessivamente ideológica tende a encontrar limites em uma sociedade que valoriza a moderação, a prudência e os resultados concretos. A direita terá de dialogar com o empresário que enfrenta insegurança jurídica, com o trabalhador preocupado com o emprego, com a família afetada pela inflação, com o produtor rural e com o cidadão que depende de serviços públicos.

Outro fator decisivo poderá ser a abstenção. O aumento da abstenção poderá prejudicar especialmente a direita nos grandes centros urbanos. Muitos desses cidadãos não apoiam o governo, mas estão desiludidos com a política e não acreditam que sua participação possa produzir mudanças. Também aqui, a afirmação tem caráter de hipótese: o efeito partidário da abstenção varia conforme a região, a faixa etária e o perfil socioeconômico do eleitor, e mensurá-lo exige dados de comparecimento por seção eleitoral e pesquisas específicas.

Em uma eleição equilibrada, contudo, a ausência de milhões de eleitores não é um fenômeno neutro. Ela altera o peso relativo dos grupos mais organizados e pode permitir que estruturas políticas consolidadas ampliem sua influência. Combater a abstenção exige mais do que campanhas de incentivo ao voto. Exige também reconstruir a confiança na representação política. O eleitor precisa encontrar razões positivas para participar. A direita deverá demonstrar maturidade para reconhecer seus erros, apresentar prioridades claras e oferecer um horizonte que vá além dos conflitos políticos imediatos.

Congresso, governabilidade e reformas
As projeções para o Congresso indicam crescimento do Partido Liberal, fortalecimento do Centrão e redução do espaço da federação liderada pelo Partido dos Trabalhadores (ARRUDA, 2026). São projeções, não resultados: sua confirmação dependerá do desempenho das legendas nas eleições proporcionais e das migrações partidárias que costumam ocorrer no período anterior ao pleito. Esse cenário pode impor dificuldades a qualquer presidente eleito.

Caso Lula seja reeleito, enfrentará um Congresso mais conservador e possivelmente hostil. A governabilidade dependerá de negociações permanentes com partidos do centro, o que ampliará o custo político e orçamentário para formar maiorias. Caso a direita vença, não poderá presumir que contará automaticamente com uma base parlamentar estável. O crescimento de partidos formalmente identificados com a direita não implica, necessariamente, compromisso com uma agenda liberal.

A história política brasileira demonstra que muitos parlamentares respondem mais a incentivos regionais, partidários e orçamentários do que a programas ideológicos. A aprovação de reformas dependerá, portanto, de boa liderança, articulação política e clareza de objetivos. O próximo governo terá de enfrentar desafios como o crescimento das despesas obrigatórias, o endividamento, a perda de poder de compra, a baixa produtividade e a necessidade de ampliar investimentos.

Douglass North demonstrou que o desenvolvimento econômico está diretamente ligado à qualidade das instituições (NORTH, 1990). Países prosperam quando as regras são estáveis, os contratos são respeitados e o poder político é submetido a limites previsíveis. O Brasil precisa de reformas que reduzam a discricionariedade estatal, simplifiquem o ambiente de negócios, fortaleçam a segurança jurídica e restabeleçam a credibilidade da política fiscal. A experiência do governo Michel Temer mostrou que reformas importantes podem avançar mesmo em circunstâncias políticas adversas. Isso exige, porém, capacidade de construir maiorias e disposição para assumir custos de curto prazo em benefício da estabilidade futura.

O próximo presidente terá pouco espaço para improvisações. O adiamento contínuo das reformas poderá agravar os desequilíbrios e transferir custos ainda maiores para as gerações seguintes.

Por que a direita pode vencer
Considerados os elementos discutidos até aqui, pode-se sustentar que a direita possui condições concretas de vencer as eleições de 2026. Essa avaliação não resulta de subestimar a força eleitoral de Lula, da estrutura política do Partido dos Trabalhadores ou da capacidade de mobilização da esquerda. Também não significa ignorar os erros, conflitos e divisões existentes no próprio campo da direita.

Ela parte da constatação de uma distância crescente entre a narrativa governista e a realidade vivida pela população. O cidadão sente no orçamento o peso acumulado da inflação. Percebe a dificuldade de acesso ao crédito, a insegurança das ruas, a expansão do crime organizado e o custo crescente de sustentar uma estrutura estatal que oferece serviços que frequentemente não correspondem aos tributos arrecadados. Nenhuma estratégia de comunicação é capaz de ocultar indefinidamente o que a população encontra no supermercado, nas contas domésticas, nos impostos e nas ruas.

A direita só poderá vencer, porém, se conseguir canalizar essa insatisfação sem se limitar a ela. Será preciso apresentar um projeto nacional baseado em liberdade econômica, responsabilidade fiscal, segurança pública, respeito à propriedade privada, fortalecimento da família, estabilidade institucional e proteção das liberdades individuais. Defender o livre mercado não significa defender privilégios empresariais. Significa permitir que as pessoas empreendam, produzam, contratam e prosperem com menos obstáculos. Defender responsabilidade fiscal não significa abandonar os mais pobres. Significa impedir que a inflação, os impostos e o endividamento façam recair sobre eles o custo da irresponsabilidade estatal. Defender segurança pública não significa autoritarismo. Significa garantir ao cidadão o direito de viver sem medo. Defender as instituições não significa aceitar a ampliação indefinida das competências de órgãos não eleitos. Significa, antes, preservar a separação dos poderes e garantir que todas as autoridades estejam submetidas à Constituição.

Em síntese, a direita poderá vencer se demonstrar que seus princípios são instrumentos concretos de melhoria da vida das pessoas.

Considerações finais
As eleições de 2026 ocorrerão em um ambiente de polarização, rejeição e incerteza. As projeções apresentadas por Juan Carlos Arruda indicam uma disputa equilibrada, que poderá ser definida por margens estreitas (ARRUDA, 2026). Segurança pública, inflação percebida, abstenção e composição do Congresso tendem a ser elementos determinantes.

Embora determinadas análises indiquem a possibilidade de reeleição de Lula, o resultado permanece aberto. A direita possui base social, temas favoráveis e condições políticas de construir uma maioria eleitoral. Não bastará mobilizar o antipetismo. Será preciso demonstrar que existe uma alternativa responsável e institucionalmente viável.

A política econômica precisa respeitar novamente os limites da realidade. O Estado não pode gastar de forma contínua acima de sua capacidade, transferindo o custo de suas escolhas para o contribuinte, para o detentor da moeda e para as futuras gerações. A segurança pública deve ser tratada como função essencial do Estado e não como questão secundária subordinada a disputas ideológicas. A liberdade econômica deve alcançar o cidadão comum, permitindo que trabalhar, investir e empreender deixem de ser atos de resistência contra a burocracia.

Por fim, a experiência cotidiana da população deve ser respeitada. Quando formadores de opinião afirmam que a economia está melhor, mas o cidadão enfrenta dificuldades crescentes para preservar seu padrão de vida, não é a percepção do cidadão que deve ser corrigida. É a política econômica que deve produzir resultados mais consistentes. A realidade pode ser ocultada temporariamente por discursos, estatísticas selecionadas e estratégias de comunicação. Entretanto, ela permanece presente nas escolhas feitas diariamente por milhões de brasileiros.

Retoma-se, ao final, em sua forma condicional, a hipótese que orientou este artigo: a direita possui condições reais de vitória se conseguir converter a insatisfação difusa em maioria eleitoral, reduzir sua fragmentação e apresentar uma alternativa percebida como competente, estável e capaz de melhorar, de forma concreta, a vida das pessoas.

Nenhuma dessas condições está garantida de antemão. A eleição também não se reduz a uma escolha entre duas concepções inteiramente opostas de país: o eleitorado comporta parcelas intermediárias, as coligações são heterogêneas e os partidos não seguem integralmente programas ideológicos. Mais precisamente, o que está em disputa é a ênfase relativa entre um modelo que concentra no Estado a responsabilidade por conduzir a sociedade e outro que reconhece no indivíduo, na família, na livre iniciativa e nas instituições limitadas as principais forças do desenvolvimento.

Se a direita conseguir apresentar essa escolha com equilíbrio, competência e clareza, poderá não apenas vencer as eleições, mas também iniciar a reconstrução de um país que recupere a confiança em sua própria capacidade de prosperar.

Referências
ARRUDA, Juan Carlos. Análise do cenário político e eleitoral brasileiro para 2026. Palestra proferida no Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte – IFL-BH, Belo Horizonte, 17 ago. 2026.
BUCHANAN, James M.; TULLOCK, Gordon. The calculus of consent: logical foundations of constitutional democracy. Indianapolis: Liberty Fund, 1999.
FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
FRIEDMAN, Milton. Money mischief: episodes in monetary history. New York: Harcourt Brace, 1994.
HAYEK, Friedrich A. O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
NORTH, Douglass C. Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

*Elias Lopes é empresário, administrador de empresas, CEO da Target Mecânica e associado ao IFL-BH. Atua nos setores industrial e de investimentos, com foco em estratégia, gestão e desenvolvimento de negócios.

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