Cultura como campo de disputa política
Durante muito tempo, tratamos a cultura como se fosse uma moldura: algo acessório, bonito, talvez, mas secundário. A política, dizíamos, estava nas urnas, nos partidos, nos palácios. A cultura ficava para o cinema, a música, a televisão, as redes, esse vasto território do “não tão importante”. O erro foi justamente esse. Cultura não acompanha a política de fora; ela prepara o terreno em que a política se torna possível. Enquanto uns discutiam a política do poder, outros disputavam o poder da política pela via da cultura.
Hoje, no Brasil e fora dele, já não parece razoável separar uma coisa da outra. A linguagem molda a percepção; a percepção molda o juízo; e o juízo, cedo ou tarde, encontra a urna, a rua ou a lei. Quem domina o imaginário popular não governa apenas gostos, mas inclinações, simpatias e repulsas. Uma narrativa repetida na ficção, no humor, na música ou no ambiente digital pode parecer pequena no formato, mas se torna grande no efeito. A batalha começa no enredo, passa pela sensibilidade e termina na escolha política.
O que mais me chama atenção nesse processo é a nossa demora em percebê-lo. Há quem ainda ache que falar de cultura é perder tempo; eu diria o contrário: é perder menos tempo do que perder o terreno inteiro. O Brasil de hoje mostra, com certa ironia, que a sociedade nem sempre pensa primeiro e sente depois. Muitas vezes, sente primeiro, repete depois e só muito mais tarde pensa. Quem ignora isso renuncia a compreender o país real, que não mora apenas nos gabinetes, mas também nas telas, nas músicas e nas conversas de esquina.
Negligenciar a cultura é renunciar a influência. Quem não participa da formação lenta do senso comum acaba chegando tarde ao debate, quando a sensibilidade coletiva já foi moldada por outros, e a política, nesse estágio, passa a disputar efeitos de algo que começou muito antes.
Se isso é verdade, a mudança precisa começar por uma revisão de postura. Não basta denunciar hegemonias; é preciso construir presença. Isso significa formar artistas, escritores, professores, comunicadores, produtores culturais e gente capaz de criar linguagem, ocupar meios e falar com o país real e não apenas com o país dos convertidos. Influência duradoura não nasce de indignação ocasional, mas de presença paciente. Quem abandona a cultura ao adversário pode até ganhar um debate, mas dificilmente ganhará uma geração.
*Deyvid Correa é advogado. Especialista em Direito Societário e Planejamento Patrimonial e Sucessório pela FGV/SP, com imersões internacionais focadas em proteção e planejamento patrimonial e sucessório. Associado do IFL-BH.



