PDT e Ciro Gomes homenageando Vargas – mas fascistas são os liberais!

O Partido Democrático Trabalhista e seu hoje principal nome, Ciro Gomes, aproveitaram a semana em que se relembram os 65 anos do suicídio de Getúlio Vargas, nosso ditador de estimação nacional, para enaltecer sua figura. Um elogio pode ser feito ao partido: a coerência em evocar sem peias suas bases ideológicas nacionais. Afinal, o PDT é a encarnação partidária mais assumida do brizolismo, que, por sua vez, é um filhote pela esquerda do varguismo.

A existência de um partido assumidamente varguista em pleno 2019, entretanto, só é possível porque, em 1945 e em 1954, não foram adotadas as providências que deveriam ter sido adotadas, de maneira análoga ao que aconteceu em outros países acometidos por regimes similares. O grande opositor de Vargas, Carlos Lacerda, já dizia isso, e em meu novo livro Lacerda: A Virtude da Polêmica, pela LVM Editora, procuro detalhar sua percepção sobre aquela época e sobre o quadro de persistência do varguismo, mesmo após a morte de seu ícone maior, crítica que transponho muito parcialmente para este artigo.

Diz o PDT que Vargas é um “sinônimo de esperança” que “priorizava a justiça social e aliava a sua visão humanitária com pensamento de vanguarda para o desenvolvimento nacional”. Considera seu suicídio um “ato de resistência” que “postergou o golpe de 64 por dez anos”, garantindo “que não houvesse um retrocesso” e tendo “coragem para defender o povo das ameaças do domínio pela força e o terror”. Prega que ele “respeitava o povo”. Ciro Gomes também registrou em vídeo seus elogios a Vargas, “o maior dos brasileiros”.

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Sim, Getúlio foi sinônimo de esperança – para uma geração que queria uma maior democratização do país diante do regime oligárquico em vigência na República Velha, mas despertou na desilusão da ditadura e do caudilhismo grotesco. Foi “humanitário” – com seus apaniguados e aqueles que conseguia cooptar com sua habilidade de articulação, porque para a oposição, nada. Resistiu com seu suicídio – aos efeitos da degeneração moral e institucional que seu governo demagógico, iniciado cinco anos após sua ditadura ter terminado, produzia no país, garantindo a sobrevivência política de sua corriola. Garantiu que não houvesse um retrocesso – sua casta poderia permanecer desfrutando da hegemonia política, mesmo sem a sua presença física. Defendeu o povo das ameaças do terror – o “terror” de se ver livre dos herdeiros políticos daquele que censurou, prendeu, reprimiu e torturou durante seu regime ditatorial. Respeitou o povo – como massa de manobra de suas tramas políticas, desprezando aquela outra parte do povo, considerável, que não partilhava de suas posições e que foi tão “respeitada” que por mais de uma década nada pôde dizer, escrever ou fazer sem sofrer o tacão de sua tirania. Foi o maior dos brasileiros – entre os políticos e presidentes, por ter deixado o legado mais longevo e penetrante, mas esse legado, de muitas maneiras, representa justamente o atraso e os entraves de que nos precisamos livrar.

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Postergou o golpe de 64 em dez anos? Isso não, porque considero um reducionismo tosco dizer que 54 seria exatamente igual a 64. Entrementes, mesmo que o tivesse, seria – e é – de uma hipocrisia incalculável fazer dele a vestal, a virgem santa dos legalistas por conta disso. Estamos ou não estamos falando do mesmo homem que fez a Revolução de 1930; governou por três anos sem Constituição; reprimiu uma revolta que reivindicava uma Carta Magna e, quando a convocou, escamoteou as eleições para permanecer no poder por via indireta em 1934; e que inventou um grande plano comunista para dar um golpe em 1937 e inaugurar a ditadura mais completa da história do Brasil, o Estado Novo?

Tamanha deformação da História só é possível porque, se na Alemanha nazista o país experimentou uma “desnazificação” e na Itália fascista, houve uma “desfascistização”, o varguismo não morreu com a Constituição de 1946. Seus próceres não foram punidos, sequer seu ícone maior; seus herdeiros e ele próprio mantiveram viva toda a máquina e a estrutura criadas por anos de ditadura personalista e controle dos instrumentos de propaganda e condução da vida econômica e política. O maior e o terceiro maior partidos do país entre 1946 e o AI-2, respectivamente o PSD e o PTB, eram egressos dessa máquina, esbanjando a predominância nos cargos públicos. A imagem e a exaltação do varguismo permaneceram e se converteram em substância da linguagem política nacional.

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É tempo de resgatar os verdadeiros democratas e os verdadeiros heróis e fazer, pelas ideias, o que o passado não se encarregou de fazer. Não aceitemos que essas pessoas nos alcunhem de “fascistas” enquanto exaltam o ditador que realmente simpatizava com Mussolini. Basta de perverterem os conceitos e as verdades sem resposta. A resposta está aqui.

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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.