Opinião de um médico sobre a crise atual

A atual pandemia do coronavírus traz consigo uma série de acontecimentos, afirmações, interpretações e decisões sujeitos ao contraditório, muito longe de qualquer solução dogmática. Os horizontes não estão claros e as estratégias para combater o mal, nebulosas. É certo que, para prevenir o contágio, pouca coisa pode ser feita além das medidas tradicionais de isolamento social e vacinas para que outras viroses não se associem. O tratamento para a doença instalada está sendo buscado e algumas luzes já surgem para impedir um quadro clínico extremo de os pacientes necessitarem de ventilação assistida. Aí é que está o problema, porque a imensa maioria das pessoas contaminadas ou são assintomáticas ou desenvolvem sintomas leves ou moderados e a cura segue o curso de qualquer virose.

Entretanto, a mídia ideológica, repetitiva, sensacionalista e confusional bombardeia com chavões desvinculados de qualquer propósito informativo, mas rico gerador de pânico e pavor na população, e muitas atitudes ditas preventivas, quando não inúteis, são até prejudiciais.

O tão alegado esgotamento do sistema de saúde pode até ocorrer, mas apenas sediado nos casos que necessitam de tratamento intensivo. Entretanto, esse cálculo pode ser feito com razoável precisão. Muitos pensam que tudo se resume a achatar a curva de novos casos para que o número de necessitados não exceda a disponibilidade do sistema tratamental. Muito bem, mas qualquer inteligência razoável percebe que, levando ao extremo a paralisação social, como querem a Globo e esses políticos e juízes que não entendem nada, mas usam a crise para parecer eficientes, vai quebrar o país, gerar caos social, matar a população de fome e, dessa maneira, só piorar tudo. Talvez seja esse o propósito de tantos disparates. Espero que seja apenas burrice.

Sendo aceito, como me parece lógico, prover estrutura para tratar os casos realmente necessitados, que não chegam a cinco por cento de todos os infectados, o problema restante volta-se para as medidas preventivas. Essas, cuja aplicação incompetente pode destruir o país – doentes e sãos, pobres e ricos, velhos e moços, crianças e adultos -, comandadas por mensagens irresponsáveis e sensacionalistas, é que precisam ser revistas. Assisti ao último pronunciamento do Bolsonaro na TV sobre a pandemia. Fora a habitual ausência de brilho oratório, mas que o povão adora, não considero que tenha dito nenhum disparate, apenas emitiu opiniões, muitas delas lúcidas, principalmente as que visam a evitar a hecatombe social sendo armada, que os intransigentes cínicos defensores da liberdade de expressão agora consideram caso de polícia. Até a expressão “gripezinha” não é dele, foi antecedida sem nenhuma crítica pelo guru médico da globo, o dr. Varella.

O fanatismo e a intransigência pretendidos nas medidas propostas e aguçados pelo sensacionalismo estão causando males maiores que o vírus: filas enormes nos postos e emergências provocadas apenas por espirros, pais contra filhos, depressão, angústia, desânimo, quebradeira de empresas e comércio, falências, todas condições que baixam o sistema imunológico e o combate ao vírus. E os milhões de informais? Não me esqueço de um chorando na porta de um parque fechado e dizendo que iria morrer de fome. Há aceno com auxílio governamental, mas e a dívida pública?

Além disso, se chegar o tal auxílio, talvez o necessitado já tenha morrido. Como na quebra da bolsa em 1929, é possível que comecem os suicídios, mas é claro que isso a Globo não vai noticiar. É bom lembrar que estão criando outras doenças, até mais graves, porque, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. A menos que algum douto explique que o quadro criado é saudável e desejado por toda a humanidade.

Impedir crianças e adolescentes, praticamente um grupo sem risco, de ir à escola é criar problema onde não existe. Crianças e jovens confinados se neurotizam. Ah!, dizem, mas podem trazer o vírus para casa, e cada um contamina mais três. Identifiquem-se os contaminados e os suscetíveis e tomem-se as medidas adequadas, porém, isolar todos, com todas as consequências a surgir, é absurdo. Medida estulta é o fechamento de parques, justamente um lugar ensolarado onde o vírus tem menos condições de prosperar. Ah! Mas e a aglomeração? As pessoas caminham nas calçadas ao redor ou empilham-se em apartamentos e, por isso, ficam mais próximas umas das outras. Limite-se a frequência aos parques a um número razoável que permita conveniente afastamento entre as pessoas. Afastem as mesas dos restaurantes três metros umas das outras, mas não matem os garçons de fome. Permitam poucos clientes revezando-se nas lojas, mas não enlouqueçam os comerciantes.

Outro absurdo é colocar pessoas acima de sessenta anos no mesmo saco. Sem desconsiderar gravidade no contexto, esse terrorismo midiático sobre a população mostra misto de desinformação e bestialidade. Na Idade Média culpavam os judeus pela peste negra. Supostas bruxas eram perseguidas. Agora dizem proteger os velhos, mas do jeito que noticiam, os estigmatizam como fontes do vírus. Ignoram não ser a idade, mas o estado físico que torna as pessoas mais vulneráveis. Idosos saudáveis – e os há cada vez mais com noventa ou mais, sem hipertensão, diabetes, sedentarismo, enfisema, não-fumantes – também são pouco atingidos. Mas são constrangidos. Não querem que vão à farmácia ou ao supermercado ou mesmo exerçam o direito sagrado e constitucional de caminhar. Senhora hígida abordada por repórter para saber o que fazia na rua respondeu como devia: não lhe devo explicações; cuide de sua vida. Os tais defensores da liberdade cultivam perigosa fase de totalitarismo, base do fanatismo. Alguém não contagiante, lúcido e coerente, tem o direito de avaliar seu risco e não ser interditado para outro avaliar por ele.

Boçais com título de policiais provocaram tempestade de areia para espantar duas pessoas numa praia deserta em Santa Catarina, justamente um lugar para se isolar e fugir do vírus. Ato flagrantemente violento pelo qual devem ser processados. A maioria das pessoas no comando de grandes empresas, nos postos mais altos do governo, nos ministérios, no parlamento, no judiciário, nas universidades, encontram-se nessa faixa etária, até o presidente. Como a lei é igual para todos, deveriam ir para casa. Não apenas o coitado do velho sadio, anônimo e desprotegido, não contaminado que só quer tomar um solzinho. Então deve-se parar tudo? Insano. De novo, lavem as mãos, mantenham distância conveniente, evitem maior contato físico, identifiquem-se os suspeitos com testes e não com preconceitos e tomem-se as medidas adequadas, que, na maioria dos casos, são simples, duram quatorze dias, imunizam e curam.

Vamos ao reverso. Um exemplo de medida totalmente inútil, angustiante e frustrante para a população teria sido a suspensão do Gre-Nal. Não tiveram coragem. Lá estavam 55000 pessoas. Isso já faz mais de três semanas, tempo suficiente para que tivesse aparecido um caso lá contaminado. Não apareceu nenhum. Como a medicina hoje se guia por evidências e não por suposições, esse fato mostra que a suspensão teria sido inútil. Aponto isso para mostrar quantas restrições mal pensadas estão atingindo as pessoas. Que o dinheiro público seja bem usado e não dissipado como faz o demagógico prefeito de Porto Alegre, multando pessoas nas ruas, sem nenhum mandado judicial, ou alugando um avião para divulgar mensagem de ir para casa, que ninguém ouve. Não é por acaso que pertence ao grupo do Doria, do Witzel e da raposa Fernando Henrique, este querendo impor como presidente do país um empregado da Globo.

A maioria das pessoas ainda não percebeu, mas o maior perigo de tudo isso é o controle social, ditatorial, que estão ensaiando sobre a liberdade pessoal. É o guarda da esquina pedindo identidade para te deixar passar, quem sabe até fazer preencher um formulário. Aqui aproveito para citar Yuval Harari, historiador, professor universitário e escritor israelense: “Tecnologias imaturas e até perigosas são colocadas em serviço … Países inteiros servem como cobaias em experimentos sociais em larga escala. Se as empresas e governos coletarem nossos dados biológicos em massa, eles podem nos conhecer melhor do que nós mesmos, e podem não apenas prever nossos gostos e sentimentos, mas também manipular o que sentimos para vender o que quiserem – seja um produto ou um politico”. Ao entusiasmo com a vigilância biométrica como medida temporária tomada durante um estado de emergência, Harari lembra que medidas temporárias têm o hábito desagradável de superar as emergências.

A globo passou uma hora e meia agredindo o Bolsonaro, mostrando a catástrofe na Itália e divulgando mensagens de autoridades médicas para justificar suas ações. Bem, até lá há diferenças: o norte da Itália é muito mais atingido que o sul, no norte há muito mais asilos e comorbidades, o inverno é inclemente e o sistema de saúde não foi preparado para casos graves como devia. No Brasil a situação é outra: a mortalidade é menos que um por cento e o clima está ajudando. Quanto às opiniões divulgadas de autoridades, é claro que são só as favoráveis à tal rede. Poderiam levar ao ar o contraditório, mas isso nunca fazem. Ainda mais, conheço alguns dos declarantes e não é bem assim. Um deles me disse que concordava em muitos pontos comigo e com outros, mas que não poderia falar isso no ar!

Concluindo, ninguém está livre e a situação deve ser encarada com seriedade e não com irracionalidade. Da maneira que está sendo conduzido por certa mídia, esse é um problema que extrapola a medicina e entra na esfera social, com consequências muito mais graves. O que fazer: procurar manter a população hígida protegida com medidas razoáveis, e não catastróficas, cuidar da maioria dos enfermos leves ou moderados e sobretudo armar um sistema de tratamento eficaz para os casos que realmente necessitem de medidas intensivas. Não quebrando a economia e não desperdiçando dinheiro público, haverá recursos para tudo.

*Carlos Antonio Mascia Gottschall é médico – CREMERS 2862. Membro titular das Academias Sul-Rio-Grandense e Nacional de Medicina.

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