O xucro jornalismo de Guga Chacra

“Acuse os adversários do que você faz e chame-os do que você é”, tal frase é atribuída a Lênin. Não se sabe bem se ele de fato disse ou escreveu tal frase, mas a título de reflexão política isso não importa agora, pois sendo ou não dele a frase reflete muito bem os métodos comunistas de falsificação dos fatos.

Para confirmar tal tendência, o fiel amigo de Lênin, e o não tão amigo assim de Stálin, Trotsky, escreveu um livro denominado: A moral deles e a nossa, texto que confirma com ares de sinceridade máxima tal aptidão comunista à burla. Trotsky afirma que os revolucionários comunistas estão autorizados a se utilizarem de quaisquer meios — quaisquer MESMO — em nome de uma realidade vindoura, em nome das verdades utópicas do partido bolchevique.

No entanto, há uma nova espécie de esquerda advinda desse comunismo raiz, uma esquerda contraditória por convicção e falsária das próprias pretensões; o novo comunista é aquele que ama uma ditadura e até se excita com Che Guevara, mas que disfarça seus anseios tirânicos cantando músicas da Anavitória e falando de diversidade; o que fala de amor e tolerância, enquanto quer a morte de todos que não concordam com suas ideias e não endossam seu novo gênero social; trata-se, por fim, do esquerdinha que ama tiranos sanguinários, no entanto, chora pela Amazônia, ursos polares e girafas. Os discursos deles nunca refletem a essência do que se busca, nem a realidade do que se mostra.

A falsificação dos fatos se torna comum, está no cerne dessa esquerda contemporânea que permanentemente adotou a hipocrisia como modus operandi. Um exemplo perfeito dessa realidade é o jornalista da Globo News, Guga Chacra, que há tempos pratica e aprimora seu método de falsificação da realidade; em 2017 escrevi, aqui mesmo no Instituto Liberal, um texto sobre suas peripécias analíticas após chamar uma já tradicional passeata polonesa contra os totalitarismos nazifascista e comunista de uma “manifestação fascista” e conservadora. O erro do jornalista era óbvio, a realidade pulava e gritava na frente de qualquer um que possui uma massa encefálica funcional, mas novamente Chacra apostou na mentira como método.

A nova patetice do jornalista da Globo se deu novamente no Twitter. Agora o menino dos cabelos rebeldes conseguiu transformar Nicolás Maduro em um conservador. Isso mesmo, o pupilo de Hugo Chávez, o pai dos sindicalistas e das minorias bolivarianas é, na verdade, de direita — segundo o jornalista global. A estratégia do adulterador da realidade é a seguinte: “deu merda”, é de direita. Uma tese simplista, coxa de evidências e pouco digna de atenção, mas que eu trago aqui para explorar esse mar de hipocrisia que assola a esquerda nacional. 

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A tese xucra de Guga Chacra é que Nicolás Maduro é nacionalista, contra o casamento homoafetivo, contra o aborto e a liberação das drogas, e por isso ele é de direita— o jornalista disse o mesmo de Dilma Rousseff, minha resposta a seguir servirá para ambos, apesar de tratar somente de Maduro —; primeiramente, é necessária uma confirmação dessas supostas posições do ditador, mas, ainda que reais, não demonstram absolutamente nada, pois a principal diferenciação de pautas entre esquerda e direita está na medida da utilização do Estado para fins político-econômicos e de controle social e não especificamente em teses morais. Um conservador necessariamente é contra o aborto, mas ser contra o aborto, por si só, não o torna um conservador. Stálin era contra o aborto e o divórcio, todavia, por meras questões políticas; desde por medo da escassez de soldados caso o aborto se tornasse um“método contraceptivo” até por questões monetárias do Estado: se não há maridos, sobrará para o Estado assistir as mulheres moribundas. No fim, a preocupação seria manter o Estado grandioso e imponente e não exatamente defender valores. 

Ademais, as pautas progressistas são antinaturais, não sendo nada difícil encontrar fervorosos políticos progressistas que, em suas vidas particulares, adotam códigos éticos e práticas tidas como conservadoras. Todos os progressistas são a favor da liberação das drogas até ter um filho viciado em casa, da mesma forma que todos são favoráveis ao aborto, tirando aquele que o mataria.

A moralidade e a defesa do bom senso não são pontos fortes do ditador venezuelano; por isso mesmo se torna mais óbvio, considerando a veracidade do “conservadorismo de Maduro”, que ele assim se declare por puros motivos eleitorais. A América Latina é estruturada sobre o catolicismo cultural. Ser contra o aborto, além de ser uma postura normal de quem vê o óbvio assassinato que se esconde por trás da carapuça de “direitos femininos”, é uma questão moral e religiosa; por isso, pode ser sim que Maduro seja abertamente contra o aborto e o casamento gay, afinal de contas, não é nada popular ser a favor de tais teses num continente amplamente católico. Ou seja, o “Maduro conservador” pode ser mera estratégia de manutenção do poder. Alguém tem dúvidas de que Nicolás Maduro ama o poder?

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Nessa toada psicodélica de interpretações políticas idiotas, a mídia caminha acreditando que a Hillary Clinton tinha mais de 90% de chance de ganhar a eleição de 2016; que Haddad, Alckmin, Ciro e os demais ganhariam com folga de Bolsonaro no segundo turno; que os britânicos não querem o Brexit e que os conservadores (tories) estavam em queda no Reino Unido; e que há uma legião de robôs ocupados em atacar pessoas no Twitter e ameaçar de morte adolescentes militantes.

O motivo dos fracassos recorrentes das pesquisas políticas, assim como das análises pífias de jornalistas como Guga Chacra, está no fato de que eles não são treinados intelectualmente para balizar as informações cruas nem para interpretar os aspectos principais da realidade sem suas muletas ideológicas. Entorpecidos por teorias progressistas da filosofia da linguagem, acreditam que até os fatos mais óbvios necessitam de suas estonteantes e divinas inteligências politizadas e, nesse elo que intercala a realidade e o que é dito da realidade pelas mídias, se interpõe às ideologias dos quais tais jornalistas são intelectualmente escravos. Dessa maneira, ainda que não percebido, dentro de Guga Chacra grita uma voz que lhe pede lealdade às teses da sua casta ideológica, algo constantemente lhe diz que trocar as premissas da realidade não afetará a conclusão do que será noticiado — um erro lógico totalmente infantil.

Boa parte de nossos jornalistas se tornaram torcedores e isso ocorre também do lado direito do muro, onde conservadores podem cometer os erros a granel que sempre haverá uma frondosa desculpa para seus vacilos. Tais falsificações históricas e analíticas estão, em níveis maiores ou menores, nas desgraçadas tiranias do século XX; Hitler fazia acreditar que os campos de concentração eram, na verdade, campos educacionais, quase que um playground; Stálin matou 6 milhões de ucranianos por pura psicopatia, escondendo durante anos tal fato como se ele sequer tivesse ocorrido. Muitos até hoje não sabem ou simplesmente ignoram o demoníaco massacre de Holodomor, apesar de saberem de cor as estatísticas das queimadas da Amazônia sob o governo Bolsonaro.

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Modificar as premissas da história para favorecer sua ideologia, pintar os defeitos éticos com paletas coloridas, no intuito de disfarçar os cancros morais dos expoentes das suas ideias, é um grave crime moral contra a humanidade. É o mesmo que esconder e auxiliar os assassinos que amanhã podem nos matar. Se em um exorcismo devemos conhecer e dizer o nome do demônio a fim de expulsá-lo, na política não é diferente, é preciso dizer abertamente os nomes dos demônios assim como os de suas seitas. Nicolás Maduro é COMUNISTA!, a sua ditadura na Venezuela tem um nome: COMUNISMO. Somente assim os indivíduos conhecerão a gravidade que há em apoiar tal ideologia sanguinária. O mesmo vale para o fascismo, nazismo, etc. 

Negar-se deliberadamente à verdade não se trata de um mero erro de análise ou de divergência de opinião, mas de desvio de caráter.

Todo cuidado é pouco com as falsificações e falsificadores da História. Sartre teve que distorcer muito a realidade e passar noites a fio se convencendo de que apoiar a URSS era o melhor a se fazer, mesmo com as montanhas de corpos batendo em sua porta e os gritos das valas comuns da Sibéria o acordando todas as noites. O passo seguinte às mentiras que endossam tiranias é se tornar complacente com genocídios, apoiar ditadores sanguinários e aplaudir tiranos confessos. Tudo isso, é claro, temperado com discursos sobre amor às minorias, tolerância social, veganismo militante e proteção aos biomas. Desconfie sempre daqueles que dizem amar a humanidade, porém apoiam ideologias que sacrificam seres humanos; desconfie sempre de jornalistas que distorcem a realidade para tentar desculpar sua ideologia.

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor-chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.