Jornalista militante + desconhecimento histórico = vergonha alheia

O grande problema da militância política é que ela costumeiramente acontece a partir do ato de ignorar fatos em troca de mentiras convenientes. Isso foi classificado pelo filósofo Eric Voeglin como: “sacrificium intellectus” (2013, p. 62), ou seja, o ato de sacrificar a própria lógica e conhecimentos históricos objetivos em troca de alternativas mentirosas e […]

O grande problema da militância política é que ela costumeiramente acontece a partir do ato de ignorar fatos em troca de mentiras convenientes. Isso foi classificado pelo filósofo Eric Voeglin como: “sacrificium intellectus” (2013, p. 62), ou seja, o ato de sacrificar a própria lógica e conhecimentos históricos objetivos em troca de alternativas mentirosas e endossos falsários. O militante escolhe livremente perpetrar na realidade uma espécie de nuvem de distorções filosóficas, políticas e históricas, no intuito de reafirmar uma ideologia política pré-determinada. Assim sendo, arrogar uma batalha social entre ricos e pobres, héteros e gays, e demais camadas sociais, é condição básica para reafirmar a ideia de luta de classes — ainda que não se diga isso abertamente, é claro —; reafirmar constantemente que qualquer oposição política à direita é fruto de “ideias extremistas”; que qualquer concepção conservadora de sociedade é em sua essência “nazista” e “fascista”. Enfim, tudo isso faz parte do jogo linguístico do desconstrucionismo moral da sociedade ocidental.

Entretanto, todo esse aparato militante sempre se encontra a um passo do desmoronamento e, assim como a torre de Babel caiu pela soberba e confusão linguística, as torres dos militantes vivem caindo através da constatação das absurdidades por eles defendidas e propagadas como verdades dogmáticas. Seja por má-fé militante, ou por desconhecimento puro e simples — pessoalmente eu acredito que seja uma soma dos dois —, os militantes sempre abrem mão da razoabilidade do conhecimento objetivo abraçando as causas ideológicas ditadas por seus gurus de uma forma fideísta e com pouca inteligência.

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A última dessas absurdidades foi feita pelo jornalista da Globo News, Guga Chacra. O jornalista global chamou a festa da independência da Polônia de “manifestação nazista“. A Cônsul da Polônia, Katarzyna Braiter, desmentiu o Guga Chacra abertamente no Twitter dizendo que a afirmação do global não passava de “informações falsas”; o que qualquer um, com o mínimo conhecimento da história europeia, conseguiria constatar. Guga Chacra, ao invés de se desculpar pela maior asneira da história jornalística atual — seguindo o exemplo do jornalista da Wall Street Journal, Drew Hinshaw, que se retratou no Twitter após semelhante consideração sobre a comemoração polonesa —, afinal, se tem um país que rechaça veementemente o nazismo — assim como o comunismo — esse país é a Polônia. O país sofreu com a tirania nazista e comunista depois de seguidas invasões militares de ambos os espectros político-governamentais, poucos povos sabem o que as ditaduras à direita e à esquerda podem proporcionar a uma nação como o povo polonês sabe.

Que possam existir extremistas e supremacistas poloneses nas manifestações, ora, é claro que pode. Como faz para reprimir os pensamentos e princípios de cada cidadão de um país? Tirando o modelo soviético de outrora, dificilmente alguém ousaria fazer tal patrulha do pensamento num país que preze pela democracia. Entretanto, uma coisa é dizer que havia “extremistas” — ou “grupos de extremistas” — na passeata de comemoração de independência da Polônia, outra coisa é afirmar que “Cerca de 60 mil pessoas participaram de manifestação nazista na Polônia defendendo uma Europa apenas para os brancos”. Uma afirmação tola, imprudente e criminosa; temo que nem um estagiário de jornalismo assim agiria.

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Não bastando a vergonha alheia de sua afirmação abobalhada, Guga Chacra bloqueou a cônsul polonesa e está agindo de forma truculenta com quem o critica. Esse que vos escreve, por exemplo, há alguns meses também se encontra bloqueado pelo jornalista global, um genuíno “expoente da democracia e livre expressão”.

Isso tudo nos mostra como atua o jornalismo da Globo News. Agindo como palpiteiro de bar, Guga Chacra mostrou um desconhecimento basilar da história da Polônia e da Europa, unido a uma imprudência jornalística beirando a insanidade; se ele conhecesse o mínimo necessário da biografia recente daquele país, saberia que o que ele disse no Twitter é simplesmente uma sandice monstruosa.

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Um jornalista militante acaba sempre a um passo da vergonha!

Ainda se espera uma posição oficial da Globo News, já que o jornalista geralmente atua no Twitter como comentarista da instituição. Ofender uma nação inteira por má fé ideológica, por mero fetiche político, é o mesmo que agir com aquilo que José Ortega Y Gasset chamou de “acanalhamento” (2016, p. 222), isto é: defender mentiras mesmo sabendo que são mentiras. A ignorância não é e nem nunca foi pecado, pecado mesmo é propagá-la como sendo conhecimento; ou nesse caso em específico, como informação. Sendo assim, a dica do mês é: se for para ser um jornalista — ou comentarista político —, certifique-se antes que seu tesão ideológico não sobreponha a sua sobriedade intelectual.

 

Referências:

VOEGELIN, Eric. Idade média tardia. São Paulo: É realizações, 2013

Y GASSET, José Ortega. A rebelião das massas, 5ª Ed, Vide Editorial: Campinas, 2016

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