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O risco de americanização do liberalismo brasileiro (III)

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Uma coisa que pode incomodar muitos liberais – e de fato incomoda – é o dedo em riste de muitos conservadores em suas caras com as seguintes palavras: vocês são amorais sem princípios. Essa postura arrogante pode ofender muita gente, mas contém em si uma verdade difícil de ser admitida: o liberalismo é uma doutrina fincada não em princípios, mas em regras práticas.

Um princípio não demanda maiores explicações pelo simples fato de estar no princípio, de ser o começo para alguma coisa. Todos os desenvolvimentos a partir de seu estabelecimento não entram em choque contra ele próprio. É um preceito fundante, não fundado, que está na raiz de tudo.

Já uma regra prática é derivada de alguma outra coisa ou limitada em sua aplicação por inúmeras outras regras práticas. Liberdade individual é um bom exemplo. Quando se diz que a liberdade de fulano termina quando começa a de beltrano, o que se está admitindo é que a liberdade como tal não pode ser absoluta, com o risco de ela própria ser extinta. Um princípio não tem limites em sua aplicação. Já uma regra prática é estabelecida a partir de sua limitação por tantas outras.

Sendo um conjunto de regras práticas, o liberalismo acaba por englobar correntes ideológicas das mais variadas e conflitantes entre si. A depender da terminologia pátria, é possível ser liberal de uma vertente conservadora ou até mesmo de uma revolucionária. O liberalismo francês é o liberalismo dos Voltaires, dos Rousseaus e dos Montesquieus: a fina flor da revolução jacobina que jogou a França num processo de interminável declínio. Já o inglês estabeleceu o Estado de Direito e a limitação dos poderes governamentais sem subverter a ordem e os costumes vigentes. Ambos são muito diferentes, mas são liberalismo.

Tome por exemplo o liberalismo americano. Como doutrina é a completa antítese da versão tupiniquim. Ele é um misto de estatismo econômico com progressismo cultural e desde o século XX é a corrente política dominante no Partido Democrata. Os liberais americanos morrem de amores pela ação estatal em todos os campos da vida humana e acreditam ser o Estado o grande timoneiro da sociedade. As desigualdades econômicas e sociais só podem ser extintas – ou ao menos aliviadas – com os programas governamentais e uma vez estabelecidos devem durar até o dia em que milagrosamente todos os cidadãos forem iguais em absolutamente tudo.

Já o liberalismo brasileiro é associado ao amplo liberalismo econômico. Quando alguém é chamado de liberal no Brasil, essa pessoa é logo associada ao mercado e às privatizações. Ao contrário do liberal americano, o brasileiro sonha com menos Estado na economia e na vida das pessoas. Apesar de não ser uma obrigatoriedade, o nosso liberalismo tem traços conservadores e está fincado na direita política desde o advento da UDN. Não custa nada lembrar que a maior liderança política anticomunista deste país foi o liberal Carlos Lacerda.

Esse espírito multifacetado explica o porquê de ações, planos e medidas paradoxais serem defendidas por liberais com argumentações diferentes sempre em nome do próprio liberalismo. Quando um ministro da Justiça defende prisões arbitrárias em nome das sacrossantas instituições, liberais justificam a medida como necessária ao fortalecimento da democracia, pois não há liberdade sem ordem. Quando um governador defende a vacinação obrigatória para todos os brasileiros – e todo o ônus da sua recusa obstinada – em contraposição à defesa do presidente da República da liberdade individual, usa-se o mesmo argumento do ministro.

É sintomático: em ambos os casos o Estado ordena algo e pune severamente quem ousar ter uma posição contrária. Não poderia haver maior desrespeito aos ideais liberais. No entanto, muitos liberais defendem essas atitudes em nome do que eles entendem por liberalismo – e sem o menor respeito pela opinião divergente daqueles dentro do mesmo campo.

Na questão econômica não cabe – e não devem caber – maiores divergências, pois o liberalismo econômico pressupõe as mesmas coisas em qualquer lugar no mundo. Porém, em relação ao Estado e à agenda moral, as divergências entre liberais de múltiplas vertentes abre um precedente para (I) a dissolução de valores que deveriam ser comuns a todos os liberais, (II) o descarte da pauta cultural que era um dos pilares do liberalismo clássico e (III) a própria americanização do liberalismo brasileiro para que venho alertando.

Nessa série de artigos sobre o fenômeno anteriormente citado, coloquei a questão em pratos limpos. Não fiz por revanchismo ou ódio a determinadas correntes liberais. Muito pelo contrário: é por querer salvar o liberalismo daquilo que enxergo como a sua completa antítese. Descrever a realidade é completamente diferente de emitir juízo de valor sobre ela. O que fiz até agora foi um esforço de compreendê-la e expô-la aos meus leitores. Cabe a cada um, depois de ler o que foi colocado, achar bom ou ruim, gostar ou não gostar. Is the life.

Referências:

1.https://istoe.com.br/moro-diz-que-prisao-de-radicais-que-ameacam-ministros-do-stf-e-correta/

2.https://www.poder360.com.br/coronavirus/doria-discorda-de-bolsonaro-e-defende-vacina-obrigatoria-contra-covid-19/

(Continua…)

Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.

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