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O risco de “americanização” do liberalismo brasileiro (Parte I)

Uma antipatia ferrenha ao liberalismo e aos liberais toma conta dos principais partidos e correntes políticas no Brasil. Se resta alguma dúvida disso, basta abrir o Twitter e procurar por ‘’liberais’’ para notar a quantidade de críticas – na melhor das hipóteses – feitas a quem é simpático ao liberalismo, isso quando não se trata de xingamentos, ofensas e execrações.

Dado o momento político e econômico no país, a coisa parece estranha: nunca antes tivemos tantas reformas liberais, tanto apoio às desregulamentações e tanto político autodenominando-se liberal – quando até ontem alguns surfavam na onda estatista do comunopetismo. A Reforma da Previdência e o Novo Marco Regulatório do Saneamento Básico conseguiram aprovação no Congresso e – justiça seja feita – contaram com a boa vontade de uma grande mídia outrora recalcitrante com o enxugamento do Estado e da máquina pública.

Porém, como disse no primeiro parágrafo, a situação é justamente a oposta. Como explicar a crescente antipatia aos liberais quando suas pautas e suas ideias são tão bem tratadas por quem historicamente sempre as desprezou?

A pergunta é pertinente e no meu humilde ponto de vista tem três explicações e uma constatação inescapável:

  1. Seguidos por muitos liberais, João Amoêdo e significativa parcela de seu partido já exibiram rechaço ao conservadorismo – seja moral ou político. Isso ficou bastante claro em 2018, quando o engenheiro e então presidenciável apoiou a indefensável ‘’Agenda 2030’’ da ONU. A ONU é o suprassumo do globalismo, da elite fabiana e dos inimigos das liberdades e tradições ocidentais. Os valores propagados pela entidade e suas extensões – OMC, OMS e UNESCO – são muito claros: progressismo moral e estatismo econômico. Um liberal que apoia a ONU é como um gremista que morre de amores pela Guarda Popular. Ao fazer isso, Amoêdo não excluiu apenas o conservadorismo de sua plataforma política, mas o próprio liberalismo clássico de que ele se disse porta-voz. Afinal, a Agenda 2030 defendia regulamentações e leis no campo trabalhista em vez de desburocratização e facilitação de relações de trabalho; intromissão do Estado nas dinâmicas de importação, nas indústrias e no agronegócio; em outras palavras, não era uma agenda simpática verdadeiramente à agenda liberal.
  2. Muitos liberais andaram alfinetando o governo Bolsonaro. Até aí nenhum problema: o humilde colunista autor deste artigo já fez isso em muitas oportunidades. Entretanto, o conteúdo dessas alfinetadas diz tudo. Começaram a dizer que faltava foco para Bolsonaro, que ele não iria aprovar a Reforma da Previdência sem dialogar com o Congresso, que as reformas não eram prioridade em seu governo. Pois bem, Bolsonaro conseguiu aprovar a Reforma da Previdência, manteve a linha liberal e estava com a Reforma Tributária pronta antes da pandemia do coronavírus. Detalhe: ele conseguiu bons resultados sem o presidencialismo de coalizão. Agora que o seu governo começou a lotear pastas importantes para o Centrão, os tais liberais aparecem como os arautos da moralidade e pintam Bolsonaro como um politiqueiro mais do mesmo. Criticá-lo pelos motivos da ocasião sempre foi o objetivo máximo de muitos liberais – e com os supracitados não foi diferente.
  3. A pandemia do coronavírus é uma completa desgraça em todos os aspectos: vidas ceifadas, doentes aos montes nos hospitais, destruição econômica severa causada pelo isolamento horizontal e tempo desperdiçado. Também serviu para que as velhas raposas da política brasileira aproveitassem a oportunidade e empreendessem o maior ataque às liberdades já visto na história da humanidade. Prisões arbitrárias, decretos autoritários sem base factual alguma, fechamento de pequenos e médios negócios e um isolamento horizontal contestado por muitos cientistas respeitáveis. Seria normal que os liberais adotassem uma postura de franca oposição a esse estado de coisas, pois a liberdade individual é um valor de suma importância para o liberalismo, além da preservação da liberdade econômica com a manutenção dos empregos e das empresas. O que estamos vendo até agora foi justamente o contrário: a maioria dos liberais comprou a narrativa pérfida dos políticos e da grande mídia sobre a necessidade da quarentena irrestrita e encaram a destruição das liberdades como um mal menor – ou mesmo como sendo mal algum.

Entretanto, isso tudo deságua em um processo perceptível desde o ano passado, que é o fator do qual realmente me pretendo ocupar: boa parte do liberalismo brasileiro está cada vez mais parecida com o “liberalismo” americano. Nos Estados Unidos, “liberal” é sinônimo de esquerdista. O “liberal” americano gosta de impostos, regulamentações e sonha com o famigerado Estado de bem-estar social. Ele é progressista na pauta cultural: defende o aborto, o casamento gay, a liberação das drogas e de toda agenda comportamental esquerdista advinda da contracultura dos anos 1960. Na questão das soberanias nacionais, o seu sonho dourado é a destruição de todo e qualquer Estado-nação para a implementação do Leviatã global, ou seja, do governo mundial.

É nisso que o liberalismo brasileiro está desaguando. Na década passada, o PFL virou DEM para ficar parecido com o Partido Democrata dos EUA, ou seja, para imitar a esquerda americana. Boa parte dos nossos liberais está na mesma toada e parece se contentar com a mesma sina do dito partido em ser a linha auxiliar da social democracia tucana. É o que chamo “americanização” do liberalismo brasileiro. É daí que vem significativa parcela da crescente antipatia dos conservadores e da direita em geral aos liberais.

Referências:

1.https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/governo-bolsonaro-e-amontado-de-gente-batendo-cabeca-diz-amoedo.shtml

2.https://conexaopolitica.com.br/ultimas/conheca-a-agenda-2030-da-onu-apoiada-por-joao-amoedo/

(Continua…)

Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.