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O risco de americanização do liberalismo brasileiro (II)

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Fazer do liberalismo uma ponta de lança para a revolução propagada pelo movimento esquerdista mundial não é algo difícil de acontecer. Muito pelo contrário: o culto cego da economia de mercado, combinado ao descarte da base civilizacional que deu as condições para o seu surgimento e desenvolvimento, é nada mais do que a própria consumação dos anseios revolucionários de quem quer que esteja à esquerda, pois, ao ceder na cultura, seus inimigos já cederam em tudo.

Liberais e conservadores continuam com o mesmo triunfalismo imbecil do fim da Guerra Fria e dão o comunismo como inimigo vencido. Se por comunismo entendem a mera abstração da ideologia marxista encarnada pela União Soviética, eles têm razão. Porém, o comunismo jamais foi um Estado-nação ou um regime: é um movimento político de caráter supranacional, articulado por várias entidades e com uma capacidade incrível de adaptação às condições do momento. Esse equívoco ainda é um resquício da doutrina Morgenthau, em que os agentes históricos são as nações – algo completamente falso.

Com isso, quero dizer três coisas: (I) o comunismo não acabou, (II) economia de livre mercado per si não irá salvar o mundo da chaga revolucionária e (III) a resistência dos liberais brasileiros na política à esquerda é historicamente débil.

O comunismo não é uma ideologia palpável, nem um sistema de governo encarnado pela antiga URSS – como alguns desavisados pensam. É um movimento político revolucionário com objetivos e fins de longo prazo. O simples fim de uma de suas experiências práticas não significa o seu desaparecimento completo – como de fato não o foi. Se no Leste Europeu ele saiu da realidade e foi parar nos livros de História, na América Latina virou uma ameaça com a fundação do Foro de São Paulo, a organização que reúne partidos de esquerda latino-americanos com o objetivo declarado de implementar o comunismo no continente. O simples fato do crescimento avassalador do movimento esquerdista mundial após a dissolução do bloco soviético já deveria ter servido de exemplo para que liberais e conservadores abrissem os olhos e dinamitassem suas certezas olímpicas a respeito do inimigo. A ameaça comunista continua viva em solo latino, africano e oriental.

Uma ideia estúpida não deixa de ser perigosa pelo simples fato de ser estúpida. A economia socialista foi devidamente refutada por Ludwig Von Mises, que provou a sua completa inviabilidade no século passado. A hipótese do socialismo econômico simplesmente não existe. Ainda assim, ela é uma ideia poderosa e faz bater mais forte o coração de militantes e políticos de esquerda pelo simples fato de ser parte do movimento revolucionário. Ao contrário do que dizem os teóricos da economia de mercado, a democracia liberal nos moldes capitalistas não é algo capaz de domar sozinho a chaga revolucionária. Não é por uma coisa simples: o capitalismo liberal separado das bases civilizacionais que o geraram vira um inferno burocrático, um capitalismo capenga – como o francês e até mesmo o nosso.

A completa estatização dos meios de produção é uma meta que segundo Karl Marx demora séculos para ser alcançada, podendo ser adiada ad infinitum. Se no campo econômico a esquerda pode alternar entre estatismo e liberalismo, o que sobra a ela? O campo moral – e é justamente aqui que começa o problema: em um universo sem os valores cristãos ocidentais, os capitalistas tendem a aderir ao progressismo politicamente correto do beautiful people e o propagam como verdade do Evangelho. O crescimento do lumpemproletariado – grupo de intelectuais gramscianos – é inevitável. Daí para a revolução é um passo. Pode-se apelar o quanto se queira para as vantagens da economia de mercado capitalista. Não vai adiantar. Com o ambiente dominado pelos esquerdistas, o terreno estará arado para as maiores desgraças possíveis, mesmo com a prosperidade material do liberalismo.

Vimos no Brasil um domínio avassalador da esquerda em todos os campos possíveis. Na política ela sofreu um pequeno revés com a vitória de Collor em 1990, mas daí em diante elegeu todos os presidentes e conseguiu infiltrar-se na máquina pública de forma incrível. Dominou a grande mídia, as universidades, o setor cultural e o resto dos espaços que moldam o imaginário brasileiro. Demarcou o que podia e o que não podia no debate nacional – ou no que restou dele. Ainda que fora do poder político com a vitória de Bolsonaro, a esquerda ainda tem uma força tremenda nos outros dois poderes da República, com o STF prendendo e cerceando arbitrariamente seus grandes inimigos.

Onde estavam liberais e conservadores nesse período? Os últimos sumiram da vida pública graças ao desmantelamento da direita empreendido pelos militares – principalmente o general Golbery. Os primeiros tinham alguma representação política com o antigo PFL, mas não moveram uma palha no combate ao esquerdismo dominante que não fosse no campo econômico. Prova maior do servilismo liberal ao inimigo foi a mudança de nome do Partido da Frente Liberal para Democratas – tentativa imbecil de imitar o Partido Democrata dos EUA na esperança de parasitar o prestígio esquerdista. Resultado: o DEM quase foi parar na lata de lixo da história e só conseguiu sobreviver graças à onda conservadora de que o próprio partido foge como o diabo foge da cruz.

Pela milionésima vez: liberalismo separado dos valores civilizacionais que o possibilitaram é o “liberalismo” da França e dos EUA, e consequentemente é mais uma etapa dentre tantas na revolução mundial perpetrada pela esquerda. Não há como fugir dessa realidade.

Referências:

1.https://www.averdadesufocada.com/images/f/atas_foro_sao_paulo.pdf

2.https://www.institutoliberal.org.br/blog/quem-ganha-com-o-socialismo/

Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.