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O fim último do filósofo

Larguem-me, hoje eu vou ensaiar filosoficamente a questão disputada da imperfeição dos Homo Sapiens. Na verdade eu já a iniciei no ensaio publicado aqui no Instituto Liberal: Carta aberta aos Homo Sapiens que gostam de protesto. Creio que ficou faltando, no entanto, um esclarecimento real do papel do filósofo, já que digo no referido texto que ao homem pensante (aqui designado: os filósofos) é dada uma razão “maravilhosa”, porém, também maravilhosamente limitada e incapaz de perfeições. Um professor e amigo meu me disse na última quinta-feira (12/09) após ler meu texto acima citado: “[…] parece que você joga contra nós, meu caro; está no time dos místicos contra os homens da razão. […] A razão do homem é feita para descortinar o mistério e encontrar caminhos para tocar o impossível. […] Falta sempre em seus textos explicar assertivamente o que pensa ser o papel do filósofo”.

Pois bem, permita-me então dizer as coisas de maneira clara: o fim último do filósofo é encontrar o Ser que É; parafraseando Parmênides e Platão: Ser é a Causa incausada de todas as demais causas; ou seja, Deus ― seja lá o que seja Deus. A pergunta fundamental da filosofia, o porquê último de ela existir, segundo Etienne Gilson na obra Deus e a Filosofia, é a seguinte: “o que é o Logos… o que é Deus?”.

O homem sempre está a uma curta distância de seu criador, porém, seu dedo insiste em não esticar na direção de Deus, preferindo antes a delirante soberba de crer que a fruta da ciência lhe tornará mais deus do que Deus. “Relegava-se o divino a céus desconhecidos e impenetráveis; o homem, e somente o homem, passava a ser a medida de todas as coisas; ele próprio era razão de sua existência e de seu fim”, diz Paul Hazard em A Crise da Consciência Europeia – 1680-1715.

Esta é a leitura que faço da obra: A criação de Adão, de Michelangelo. A pintura mostra e desperta a agonia do homem imperfeito quase chegando no perfeito, porém sempre relutante em sua ânsia desobediente de tentar ser um deus de proveta. Quase Adão toca em Deus, Deus quase toca em Adão, mas persiste entre eles (nós e Deus) uma verdade lacunar, metafísica, teológica, verdadeiramente incômoda: não podemos tocar as evidências do fato divino, apesar de podermos deduzi-lo, pensá-lo, até mesmo parcamente compreendê-lo em suas linhas gerais. Nós vemos as evidências de Deus sem poder, porém, condensá-las em nossas máquinas metafisicamente enferrujadas. Vemos suas silhuetas, sentimos seus arroubos em nossas essências, até tocamos seus sacramentos; todavia, a nós é negada a prova cartesiana e laboratorial do Eu-Sou.

A evidência da Verdade última que Descartes tentou encontrar com seus métodos; que Leibniz em desespero tentou mostrar através de um pensamento filosófico geométrico; que Hegel intuiu estar nos ventos do espírito histórico, tudo isso são meras sombras de um Ser que se esconde dos racionalmente soberbos.

O Deus que moldou a essência do homem no barro, com suas próprias mãos, parece que agora deliberadamente retira-se do alcance humano exigindo dele uma crença baseada no que pode ser visto apenas como contornos esfumaçados num após-horizonte limitante; Deus é um sol que não se cansa de brilhar no cume do céu, mas que sempre termina o dia com um fugidio adeus dado detrás das montanhas de nossas insuficiências racionais.

Esta distância desesperadora na pintura de Michelangelo mostra duas coisas que a modernidade se nega a assumir: a inescapável incapacidade racional do homem de chegar ao perfeito, a falência como pré-requisito natural de sua carne. Tal falha anuncia ao homem: não lhe foi dada a capacidade tocar o imaculado e por isso mesmo a sua praia é o terreno do possível, do capaz, do necessário; seus planos podem até ser muito bons, suas ideias quase sublimes, mas ainda assim, no final, padecerá da incapacidade restritiva do ente, da corrosão da finitude.

A segunda coisa evidenciada na citada obra renascentista é o vão que há entre o piso terroso e os salões divinos, entre a física e a metafísica, entre o Ser e o ente, entre o barro e a graça, entre o dedo do homem e o dedo de Deus. Vão que berra à transcendência por socorro, que pede desesperadamente ao perfeito a completude para a cidade quebradiça, o membro que lhe foi amputado pela soberba de Adão. O hiato que separa a criatura e seu criador é o mesmíssimo que fende a Cidade dos Homens e a Cidade Eterna ― como mostra Santo Agostinho ―; o rombo entre Deus e o homem impossibilita o advento de uma sociedade perfeita e, por isso mesmo, anula na raiz as pretensões das ideologias modernas.

Destacar a insuficiência do homem não é pedir para que ele pare de tentar ir além em suas reflexões, nem para que ele pare de buscar novas respostas. A filosofia não se faz de estatismos, porém também não está alicerçada em entusiasmos infantis. Este justo meio é o que denominamos: “maturidade filosófica”. Dizer que o homem é limitado é antes situar a realidade como o seu Norte. Creio piamente que a melhor resposta quando não há o que dizer é simplesmente dizer o óbvio, pois não há outra via para a verdade que não a da realidade tal como ela é. A filosofia é, então, o eterno esforço de chegar à linha do horizonte, mesmo sabendo que quanto mais se avança, mais a linha proporcionalmente se distancia; porém, entendem os bons filósofos, não enxergar além do que o horizonte limitador nos permite não significa que não há nada lá a ser visto; e aqui é onde a fé e a razão se encontram.

Por fim, Adão não consegue esticar o dedo, tal como não conseguimos englobar racionalmente toda a perfeição da realidade; o homem não atravessa o vácuo ontológico, tal como nossas Urbs jamais serão ladrilhadas pelas pedras dos altares eternos da perfeição.

Cabe especialmente aos filósofos, a casta pensante que faz da reflexão profunda a sua vocação essente ― os designados guias da humanidade ―, a cansativa tentativa de enrijecer, de esticar ao máximo o dedo humano, aconchegando-o próximo à mão de Deus.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.