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O risco de americanização do liberalismo brasileiro (Final)

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Termina aqui a minha série de artigos sobre o risco de americanização do liberalismo brasileiro. Entre um artigo e outro, obtive muitas reações – tanto positivas quanto negativas – e gostaria de comentá-las mais a fundo. Além disso, quero tecer alguns comentários sobre o propósito da série e relembrar o que me motivou a fazê-la.

O liberalismo brasileiro é essencialmente um liberalismo com ênfase na redução do poder estatal avassalador. Caracteriza-se pela defesa do Estado de direito e da liberdade econômica, encontrando morada na direita política. Sempre foi assim. Do Partido Liberal no regime monárquico ao Democratas dos dias atuais – com muitas reservas quanto ao último –, o nosso liberalismo apresenta tons particulares que o colocam muitas vezes no mesmo balaio de políticos e intelectuais conservadores. Existem raríssimas exceções, mas a regra geral é essa.

Já o liberalismo americano é o liberalismo derivado dos jacobinos franceses, dos revolucionários enragés. Como tal, admite os mesmos dogmas de qualquer revolução cultural: há uma situação presente injusta e é preciso mudá-la para trazer o paraíso terrestre. Como toda mudança necessita de meios para ser colocada em prática, o meio utilizado para isso é o Estado, pois ele abrange toda a sociedade. Isso explica o porquê de o liberalismo americano ser sinônimo de esquerdismo e trazer em seu bojo as pautas progressistas com maior controle estatal.

Essas duas definições são essenciais para um bom entendimento dessa série de artigos. Compreendê-las é condição sine qua non para não achar, por exemplo, que a dita americanização do nosso liberalismo é algo positivo – como se essa metamorfose fosse responsável por trazer a prosperidade capitalista e as liberdades fundamentais típicas da formação política americana. Em enésimas oportunidades vi comentários com esse sentido nas postagens dos artigos desta série. Foram equivocados e muitos deles presunçosos. Não custa nada ter um pouquinho de boa vontade e aprender os conceitos corretos para depois opinar.

Algumas pessoas mais exaltadas viram nos meus artigos um ataque a certos grupos ou lideranças políticas liberais. É o típico modus operandi brasileiro de achar que alguém só faz tal coisa com algum interesse obscuro. O que fiz não passou de descrever a realidade tal como ela é. Apontei fatos e citei processos históricos que corroboram com a minha tese. Se algum liberal que pensa liberalismo de uma forma diferente da minha não gostou dos artigos e daí julgou o mensageiro e não a mensagem, nada posso fazer.

Existem liberais e liberais. Alguns morrem de amores pelo sr. João Amoêdo e pelo Partido Novo. Outros – aqui me incluo – não têm simpatia por eles. É normal e saudável. O debate respeitoso entre pessoas que pensam diferente deve acontecer e é sempre bem-vindo. Porém, tachar quem não diz amém aos seus pensamentos de reacionário – como se isso fosse realmente um xingamento ofensivo e desabonador – e logo em seguida arrotar uma superioridade moral inexistente não é postura de um debate honesto. É coisa de esquerdista insano.

Além de descrever a realidade tal como ela é, fiz um alerta para o processo descrito por mim, em uma tentativa sincera de ver os liberais honestos e preocupados com o próprio liberalismo enxergarem o que eu estava apontando. Escuto inúmeras piadas com o liberalismo advindas de todos os lados possíveis do espectro político, até mesmo de gente que até outro dia se dizia amiga de primeira ordem dos seus adeptos. Refiro-me principalmente aos conservadores. Eles defendem muitas pautas liberais – principalmente na economia e na relação Estado e povo – e podem estabelecer alianças eleitorais com os liberais, mas a partir do momento em que o liberalismo brasileiro caminha para virar uma grande “calourada” de DCE, há um afastamento notório. Além de tentar refazer essa ponte, a preocupação com essa metamorfose deve ser com o próprio desvirtuamento do que até então se entendia como liberalismo.

No mais, espero que esta série de artigos contribua para um debate maduro e honesto a respeito do que nela foi levantado. Se isso for atingido, dou-me por satisfeito. Em um país de trogloditas incomunicáveis de ambos os lados, conseguir debater de forma serena é uma façanha e tanto. E é isto que me proponho a fazer desde a minha chegada no Instituto Liberal: contribuir intelectualmente com o debate. Espero ter conseguido novamente.

Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.

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