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“O que o governo fez com nosso dinheiro?”, de Murray Rothbard

Entramos em anos nos quais o papel moeda está um tanto fora de pauta: eu mesma não me lembro a última vez em que saquei dinheiro em caixa e muito menos das cores e desenhos das notas. Entretanto, de fato, o “dinheiro” vai muito além do papel. Ele se caracteriza como um facilitador de trocas entre pessoas desde a época em que as primeiras cidades se formavam: a vida em sociedade se configurava e junto dela o surgimento da vida econômica era inevitável.

Antes de colocar o governo no assunto, vamos entender quem foi o autor desse livro tão didático, pequeno e ao mesmo tempo cheio de conteúdo. Murray Rothbard é um norte-americano de família judia, doutor em filosofia e economia, que, durante boa parte dos seus 68 anos, foi um incansável defensor do libertarianismo, criando até mesmo sua própria vertente, o anarcocapitalismo.

Embora tenha vivido em um ambiente social comunista, Rothbard idealizou um libertarianismo muito menos utilitarista que muitos outros economistas e autores liberais, até mesmo os de sua própria escola de economia, a Escola Austríaca. Para ele, o Estado é “a organização do roubo sistematizado e em larga escala” e todos os serviços prestados por ele poderiam ser igualmente prestados pela iniciativa privada. O autor também é contra a existência de bancos centrais e de intervencionismos militares, políticos e econômicos, principalmente de uma nação sobre outra.

Em O que o governo fez com o nosso dinheiro?, Rothbard inicia explicando o surgimento do dinheiro, criado para facilitar o que até então era feito por meio de escambo. Os primeiros materiais universalmente aceitos como dinheiro foram o ouro e a prata, que contribuíram com o desenvolvimento do comércio e da economia como um todo, já que o escambo apresentava inúmeras dificuldades de comercialização.

Para o autor, o dinheiro é “simplesmente uma mercadoria como qualquer outra”. A diferença para as demais é que ele é aceito como moeda de troca entre todos. O dinheiro no formato de papel-moeda começou como uma ideia de “recibo”, que identifica a compra de ouro e prata. Sobre o que, realmente, nos torna pessoas ricas, Rothbard defende que não é a emissão de mais e mais papel moeda e sim a “abundância de bens produzidos, e o que limita tal abundância é a escassez de recursos para produzi-los: a saber, terra, trabalho e capital. Multiplicar a quantidade de dinheiro não faz com que tais recursos deixem de ser escassos e se materializem milagrosamente”.

O aumento da oferta de dinheiro diminuirá o poder de compra de cada unidade monetária, o que beneficia apenas um grupo de pessoas, em detrimento de toda a sociedade. Além disso, por mais que essa relação passe despercebida e mal compreendida por muitos, a verdade é que o governo é a única empresa que obtém seus recursos não pela oferta de bens ou serviços, mas pela “expropriação de bens de outros sem o consentimento de seus proprietários”.

Uma das formas de expropriar bens de outros pelo governo é por meio da tributação; porém, por ser um meio impopular, o governo buscou e busca maneiras de realizar a espoliação de uma forma menos aparente. Uma dessas formas é imprimindo mais dinheiro, como se estivesse falsificando notas.

Esse novo dinheiro chega primeiro aos bancos e seus clientes, que são beneficiados, pois conseguem consumir esse dinheiro comprando bens e serviços a preços ainda inalterados. Com o tempo, os preços de bens e serviços começam a subir, devido à maior circulação de dinheiro no mercado, o que faz com que os últimos a receberem o dinheiro novo não consigam comprar com ele o mesmo que os bancos e seus clientes conseguiram naquele primeiro momento.

Essa interferência do governo na economia, por meio da impressão de papel-moeda, distorce o sistema monetário, cria bolhas na economia e privilegia aqueles que receberam primeiro o novo dinheiro impresso. Para que o governo consiga realizar tudo isso, sem que a população se revolte, ele criou, desde muito tempo, todo um aparato “legal” de espoliação. Ele se tornou um monopólio de emissão de dinheiro, com uma legislação que obriga os cidadãos do país a aceitarem a moeda do Estado.

Porém, por muitos anos, o dinheiro em papel-moeda só servia para comprar o dinheiro em ouro e prata, e por isso era mais difícil cunhar moedas de forma deliberada. Aos poucos, os governos foram eliminando essa obrigatoriedade de o dinheiro ser apenas o ouro ou a prata e foram permitindo que o papel fosse usado como dinheiro-fim, o que também fomentou a necessidade do governo de criar alguma instituição para controle desses papeis, o que veio a originar os bancos centrais.

A convertibilidade obrigatória de papel-dinheiro em ouro e prata só veio a chegar ao fim de forma definitiva em 1971 e, a partir daí, o governo não mais possuía amarras que o impossibilitassem de imprimir dinheiro, ocasionando toda aquela cadeia de privilégios já mencionados, gerando o que chamamos de inflação.

Entende-se que o governo é formado de pessoas, as quais tomam as decisões, inclusive de impressão de dinheiro, em nome de todo o restante da sociedade, e não é de se admirar que esses tomadores de decisão sejam também alguns dos privilegiados, obtendo primeiro o novo dinheiro gerado no processo inflacionário. Para Rothbard, “os inflacionistas sonham com um tipo de papel-moeda mundial, manipulado por um governo e por um Banco Central mundial, inflacionando a oferta monetária de todos os países a uma taxa comum”.

Este livro foi escrito por Rothbard em 1963, e é impressionante que suas previsões estejam realmente se firmando. O autor esclarece uma das tentativas dos Estados Unidos (EUA) de controlar o papel-moeda de forma global, na época em que o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi criado com o objetivo de estimular o câmbio e o capital mundial. Os EUA fizeram grande pressão para que uma moeda mundial se consolidasse em substituição definitiva ao ouro e outros papéis-moedas. Essa moeda tinha por nome “Direitos Especiais de Saque” (DES) e seria controlada por um futuro banco central mundial.

Os DESs acabaram ficando apenas como um pequeno suprimento de reserva para os EUA e outros países, e não vingaram globalmente, porém essas iniciativas fomentaram o surgimento de inúmeros blocos monetários, taxas e guerras cambiais, aumentando o protecionismo e instaurando não a ordem, mas o caos.

Na última parte do livro, o autor cita os sistemas monetários dos últimos 200 anos, e destaca que a saída do “padrão-ouro” para o dinheiro em papel-moeda culminou no maior processo inflacionário que nossa civilização já viveu. O dinheiro “sem lastro” escancara ao governo a possibilidade da inflação, e ele, por se beneficiar dela, a utiliza.

Rothbard finaliza o livro com uma reflexão que assusta e me preocupa profundamente. Ele indica que o “padrão-ouro” foi esquecido e que permanece o sonho “keynesiano” de um padrão monetário mundial. “Olhando para o futuro, o diagnóstico que podemos fazer para o dólar e para o sistema monetário internacional é de fato sombrio. A menos que retornemos ao padrão-ouro clássico a um preço realista (…), os prospectos para o futuro são de acelerada inflação monetária nos Estados Unidos, seguida de um colapso monetário internacional”.

O que Rothbard certamente não previa era o surgimento de moedas digitais, como criptomoedas e códigos de valor de propriedade individual. Ao mesmo tempo em que as previsões de Rothbard, de fato, parecem reais, o mundo caminha para algo antes nunca visto em relação ao uso da inteligência artificial e os sistemas monetários. Para alguns, isso é preocupante; para outros: liberdade.

*Jessica Andrade Prata é Associada II do Instituto Líderes do Amanhã.

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