O peixe morre pela boca

 

MARIO GUERREIRO *

Publicado na Folha de São Paulo em 2/11/2011, justamente no Dia de Finados, o artigo de Elio Gaspari: “Lula, o câncer, o SUS e o Sírio” é um desses que eu sentiria orgulho de ter escrito.

Gaspari começa nos lembrando que Lula foi, tempos atrás, um dos milhares de brasileiros vitimados pela incúria e precariedade da rede pública de saúde. Em 1971, ele perdeu sua primeira mulher e o filho num hospital público.

Quando era candidato a Presidente em1998, ele bateu firme na saúde pública: “Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar”.

Acrescenta Gaspari que nessa época Lula desancava FHC por este estar estimulando a migração para os planos privados. Assim como tudo que era estatal era bom, tudo que era privado era ruim, maléfico para o povo. Assim funcionava na época o bestunto de Lula.

Mas quando ele chegou finalmente ao poder, após ter perdido três eleições, como os “companheiros” Allende e Mitterand, confirmou a idéia de Goebbels: “Uma mentira dita mil vezes acaba se tornando verdade”. E havia 31,2 milhões de brasileiros no mercado de planos privados.

Ao deixar o poder, esse número já estava em 45,6 milhões, mas Lula não voltou a falar sobre o assunto…

Contudo, em 2010, quando da inauguração de uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS em Recife, Lula declarou: “Ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá vontade de ficar doente para ser atendido”.

[Essa é como a do sujeito que ficou tão maravilhado com pernas eletrônicas que teve vontade de tirar as suas para implantá-las…].

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Porém, algumas horas posteriormente, Lula teve uma crise de hipertensão e foi diretamente para um hospital privado.

Gaspari não menciona, mas eu me lembro muito bem, que quando Lula era deputado federal em Brasília e teve que fazer uma intervenção cirúrgica, não se internou no Hospital de Base onde Tancredo Neves morreu por causa de uma infecção hospitalar. Tomou o primeiro avião e foi ser operado em São Paulo num hospital privado.

Com a própria saúde não se brinca! Só com a dos outros.

Desse modo, diz Gaspari que Lula passou de vítima do sistema público de saúde – quando da perda de sua primeira mulher – à denunciante deste mesmo quando era oposição a FHC e de denunciante a marqueteiro oficial quando estava no poder.

O poder opera transformações milagrosas!

Mas mesmo assim, apesar de sua enfática declaração de que o SUS estava atingindo a perfeição e de ter até recomendado o SUS como modelo a Barack Obama, quando foi diagnosticado um câncer na laringe, ele não foi se tratar num hospital da rede pública, mas sim num dos melhores e mais caros do Brasil: o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo.

Vale aqui o velho dito popular: “A Bahia é boa terra, ela lá e e eu aqui”. Ou então outro ainda mais cáustico: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”.

Mas Gaspari prefere observar que no ritmo do SUS “uma pessoa que teve dor de ouvido e sentia algo esquisito na garganta leva 30 dias para ser examinada corretamente [quando é corretamente examinada, dizemos nós].

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Outros 76, na média, para começar um tratamento quimioterápico, 113 dias se precisar de radioterapia. No andar de Lula, é possível chegar ao diagnóstico numa sexta e à químio, na segunda”.

Para a maioria dos brasileiros – muitos dos quais eleitores de Lula e dos postes indicados por ele – só há um pequeno inconveniente: a conta fica perto de R$ 50.000,00.

E assim como quem não tem cão caça com gato, quem não tem toda essa bufunfa, vai mesmo para o SUS! Mas quem tem e mesmo assim não vai, só pode ser completamente pirado, um sério caso de psiquiatria.

Mistério do aquém! Não se sabe por que Lula, Dilma, José Alencar e outros mandarins da República, apesar de tecerem loas ao SUS, insistem em jamais se tratarem nele e têm uma estranha preferência por hospitais como o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, ambos em São Paulo.

Como diz Gaspari: “Os companheiros descobriram as virtudes da medicina privada, mas em nove anos de poder pouco fizeram pelos pacientes da rede pública. Melhoraram o acesso aos diagnósticos, mas os tratamentos continuaram arruinados”.

De fato, com a saúde não se brinca! E Lula nunca brinca com a dele: só brinca com a saúde do povão.

Como explicar o descadeirante fato estatístico de que 95% dos eleitores brasileiros acharam os dois governos Lula ótimos, bons ou regulares, ao passo que uma minoria ínfima de 5% os acharam ruins ou péssimos?! Nem Freud explica essa!

Recentemente diagnosticado, o câncer na laringe de Lula deixou-nos diante de uma sinuca de bico: Se o homem morrer, vai virar mártir; se não morrer vai virar herói que venceu a morte. E ainda corre o risco de vestir o fardão dos imortais da ABL.

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Mas aplicando a lógica do menos ruim, é preferível um herói vivo e saudável do que um mártir do socialismo morto, como o suicida Allende…

Rezemos, pois, para que a saúde de Lula se restabeleça prontamente.

Mas, se possível, após as eleições para a prefeitura de São Paulo. Se ocorrer antes disso, ele vai eleger mais um poste. Sua preferida Martaxa Suplício Em Si? Não, seu preferido Ministro da (des)Educação: Fernando Haddad.

ENEM que a vaca tussa!

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* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.

Este artigo integra a Série COLABORADORES, do site do IL.

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