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“O liberalismo social em John Stuart Mill e Norberto Bobbio”: esclarecimentos oportunos

Recebemos do professor Luciano Caldas Camerino, graduado em Filosofia e Ciências Sociais e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, bem como doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, o seu novo livro, O liberalismo social em John Stuart Mill e Norberto Bobbio. O autor nos informou ter começado seus estudos em matéria de liberalismo e suas diversas vertentes no próprio Instituto Liberal, com duas de nossas referências históricas, o professor Og Leme e Roberto Fendt.

Apesar de reduzido em dimensões, o trabalho do professor Camerino é bastante denso, trazendo informações ricamente sistematizadas acerca da natureza e implicações dos dois autores abordados – e outros que se apresentam subsidiários às análises desenvolvidas. Em momento em que Stuart Mill vem sendo bastante mencionado nas discussões entre liberais e a temática do liberalismo social demanda esclarecimentos, este livro, apoiado em vasta bibliografia e disposto a expor os pensamentos mais que a tomar partidos, pode ajudar o interessado a desanuviar as confusões retóricas e terminológicas e entender melhor as ideias que estão em jogo.

São tantos os temas que não será possível incluir muitos deles neste ensaio sintético. Limito-me a tentar fazer uma descrição geral de alguns pontos matriciais da proposta do livro e algumas ligeiras considerações conclusivas de caráter pessoal.

Liberalismo e liberalismo social

Conforme o professor Camerino, o objetivo do livro é discutir as ideias dos dois autores, Stuart Mill (1806-1873) e Norberto Bobbio (1909-2004), que ele considera fundamentais ao liberalismo social, definido como “a vertente liberal que admite a influência reguladora do Estado sobre o mercado, em determinados casos, e a provisão de meios e recursos para as camadas mais desfavorecidas ou excluídas da sociedade”. Um século separa os dois pensadores, além de diferenças geográficas – um viveu na Inglaterra vitoriana, o outro na Itália do século XX. O primeiro é apontado pelo professor como um marco inaugural da proposta liberal social, enquanto Bobbio seria um dos mais significativos continuadores dessa tradição, dada a recepção ampla que sua obra encontrou junto à intelectualidade internacionalmente.

O propósito do professor não é militar pelas ideias dos autores estudados, mas apresentá-los para que as diferentes concepções e tensões internas ao liberalismo sejam esclarecidas – bem como, ele diz, realçar, aí sim, o que considera uma virtude dos seus personagens principais: destacarem-se “pela prática do diálogo e por não terem construído sistemas fechados de pensamento”, abrindo-se “a influências variadas” e não cultivando “o dogmatismo que costuma caracterizar muitas filosofias e ideologias políticas”.

Inspirando-se no grande professor Ubiratan Borges de Macedo, bem como em outras referências que nos acostumamos a empregar, como o professor Antonio Paim e José Guilherme Merquior – este último, o mais icônico representante autodeclarado do liberalismo social no Brasil -, Camerino conceitua o liberalismo como uma “práxis histórica” e uma doutrina construída ao longo da experiência histórica desenvolvida após a Reforma Protestante e que vai culminar na modernidade. Reconhece como características comuns aos liberais a defesa das liberdades negativas (ausência de restrições e impedimentos), aceitando, porém, alguns, certo nível variável de liberdades positivas (meios e recursos fornecidos aos indivíduos pelo Estado); a defesa do humanismo e do individualismo; a distinção entre público e privado; o constitucionalismo ou a confiança no mercado político e na democracia; e, por fim, o Estado laico e a tolerância.

Outra afirmação, recorrente ao longo do livro, é a da diferença entre o liberalismo vitoriano ao tempo de Stuart Mill, em geral crente “em uma possível harmonia e na convergência dos diferentes interesses segundo a crença no progresso”, e o liberalismo contemporâneo, designado “liberalismo agonístico”, posterior à obra de Max Weber (1864-1920), que veria na sociedade “um espaço de permanente disputa”, tendo, portanto, pretensões mais modestas e resignadas.

Antes de Stuart Mill, ele identifica na obra do francês Alexis de Tocqueville, que foi correspondente do célebre inglês, alguns primórdios do liberalismo social, mediante sua preocupação com a necessidade de oferecer “aos pobres o maior bem estar compatível com a existência do direito de propriedade” e sua abertura à discussão no Parlamento das propostas dos socialistas – à época, não os marxistas, mas os socialistas utópicos, como Charles Fourier (1768-1830), Robert Owen (1771-1858) e Saint-Simon (1760-1825) -, ainda que para rejeitá-las com firmeza. Tocqueville chegou a sustentar, no entanto, a gratuidade da educação aos pobres e sua oferta a eles pelo Estado, ainda que sem que o governo a administrasse diretamente, o que também foi defendido por Mill; sustentou o incentivo a que os proletários se tornassem proprietários, bem como intervenções do Estado para estimular a permanência do trabalhador rural no campo e evitar o êxodo rural, facilitando acesso à propriedade fundiária – sem, aponta Camerino, prever os efeitos da mecanização da agropecuária.

Citando Antonio Paim, Camerino explica que, “em virtude da revolução industrial, grandes populações se acumularam nas cidades inglesas, algumas das quais duplicaram ou triplicaram o número de seus habitantes em cinquenta anos, numa realidade em que não havia ainda saneamento básico e higiene pública, sendo frequente a ocorrência de epidemias violentas”. Apesar de não necessariamente discordarem do que diriam autores como Ludwig von Mises (1881-1973) futuramente, no sentido de que o desenvolvimento do capitalismo moderno dinamizou a produção de riqueza, muitos liberais ingleses, a partir de Stuart Mill e de modo similar às preocupações de Tocqueville, entenderam que o Estado precisaria desempenhar algumas funções imediatas para remediar esse quadro. Foi no próprio Partido Liberal que essas reformas encontraram abrigo, abrindo as portas à organização política dos trabalhadores.

Rechaçando a tese concebida pelos pensadores fisiocratas franceses do século XVIII, a do laissez-faire, esses liberais, com ênfase no começo do século XX com Leonard Hobhouse (1864-1929) e John Hobson (1858-1940), inspirados em Stuart Mill, consolidaram a tradição do “novo liberalismo” ou “liberalismo social”, “em prol de uma maior intervenção estatal na vida social”, apoiando-se “na concepção, que vem de Stuart Mill, da sociedade como uma associação cooperativa que busca o bem comum”. Em diversos aspectos, eles anteciparam ideias que seriam desenvolvidas e “radicalizadas” pela teoria econômica de John Maynard Keynes, que também provinha do Partido Liberal e não do movimento social-democrata.

Convém enfatizar, no entanto, como também faz o professor Camerino, que mesmo antes do liberalismo social, o liberalismo clássico não defendia, de forma generalizada ou mesmo majoritária, as propostas libertárias ou minarquistas que vieram a ser endossadas no século XX por figuras como o próprio Mises ou a filósofa Ayn Rand (1905-1982). Ao contrário, “desde Adam Smith, já se admitia a necessidade de intervenção estatal para suprir as falhas de mercado e, posteriormente, para a oferta de bens públicos e solução do problema das externalidades. (…) Os pensadores liberais ingleses do século XIX igualmente perceberam que o poder governamental precisaria atuar na regulação de serviços básicos como água e saneamento, organização das ruas e das atividades municipais e ainda oferecer aos cidadãos em geral uma cidade com praças e jardins, que melhorariam a convivência e fortaleceriam a civilidade”.

O pensamento de John Stuart Mill

Stuart Mill era um pensador, no contexto da Inglaterra vitoriana, influenciado pela ideia de um progresso inevitável que permitiria, em dado momento, a harmonização dos planos de vida dos indivíduos. O liberalismo vitoriano, diz-nos Camerino, adveio da ascensão das classes médias e trabalhadoras, com o declínio da ordem social aristocrática. Apesar de influenciado pelo positivista Augusto Comte, Mill “rompeu com o cientificismo daqueles que (…) pretendiam explicar a história segundo modelos fechados e definir a natureza humana de forma definitiva”. Mill acreditava que o ser humano tem a capacidade de se modificar.

Contrário ao dogmatismo, era também um pensador marcadamente secular e preocupado com a emancipação feminina. Defendia a democracia representativa com a participação das minorias, para evitar a tirania da maioria já temida por Tocqueville. Influenciado de forma significativa pelo Utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832), “que propugnava uma reorganização da sociedade segundo princípios racionais”, Mill, porém, de acordo com o autor, não defendeu o sistema benthamista de forma ortodoxa, elaborando considerações críticas também a seu respeito, questionando-o a partir das influências que recebeu do Romantismo, especialmente do filósofo liberal alemão Whilhelm von Humboldt (1767-1835).

De Humboldt, Mill extraía a noção de Bildung, também destacada por Merquior como um aspecto importante da teoria de liberdade alemã adotada pelos liberais sociais como ele próprio, entendida como “autoformação, florescimento pessoal, desenvolvimento autônomo das próprias possibilidades”. Esse florescimento, obtido idealmente de forma consciente e racional em relação com o meio ambiente, só seria possível se os indivíduos estivessem livres da tirania. “As regras do utilitarismo visam a felicidade de todos e não apenas a de quem a segue”, explica Camerino. “Mill valoriza a dimensão social da vida humana, ao defender que devemos sempre pensar na felicidade da maioria; a afirmação da individualidade se dá num contexto social, e uma sociedade onde a maior parte das pessoas não dispõe de condições mínimas de sobrevivência não oferece condições ao desenvolvimento da individualidade”. O vitoriano seria ainda um tipo específico e menos relativista de utilitarista, o “utilitarista das regras”, sustentando que é preciso avaliar se determinados comportamentos podem ou não aumentar a felicidade geral, mas estabelecendo com isso orientações de conduta moral gerais, não aplicadas a casos pontuais – por exemplo, quebrar uma promessa seria sempre algo indesejável do ponto de vista ético, nunca útil, por mais que um utilitarista convencional pensasse ao contrário.

Stuart Mill defendia a economia de mercado, mas acreditava que seu sucesso dependia dos valores dos seus integrantes e que o egoísmo deveria ser uma postura a ser desencorajada e combatida – entrando em choque direto, naturalmente, com a filosofia de Ayn Rand. Sua obra mais notória do ponto de vista do liberalismo é o clássico de 1859 Sobre a Liberdade, em que defendeu “um domínio individual que não pode ser constrangido nem pelo Estado e nem pela sociedade”. Ali, Mill estabeleceu o famoso “princípio do dano”, segundo o qual a liberdade individual nunca deve ser ameaçada a menos que as ações do indivíduo interfiram na liberdade e autonomia alheias – princípio do qual estaria excetuada apenas a liberdade de expressão, que seria, na visão dele, simplesmente absoluta. Ele também criticou duramente o paternalismo, deslegitimando intervenções estatais sob o pretexto de que é preciso corrigir os indivíduos ou melhorá-los através do poder, o que é típico na tradição social-democrata propriamente dita.

Mill defendeu ainda o sufrágio universal (exceto o voto dos analfabetos, dos falidos, dos devedores e dos indivíduos sustentados pelos fundos públicos, posto que a educação os deveria emancipar dessas situações antes de votarem), o fortalecimento do Poder Legislativo como fiscalizador e controlador dos impostos, o Estado de Direito e a educação pública (assim como Adam Smith, embora não necessariamente através de escolas geridas pelo Estado, porque Mill temia a submissão do ensino aos interesses dos governantes e burocratas).

Em sua obra Princípios de Economia Política, Mill afirmou que “a distribuição dos bens é relativamente independente dos meios técnicos e sociais de sua produção”, o que foi criticado por economistas liberais como Friedrich Hayek (1899-1992), citado por Camerino. “Para esse pensador austríaco, Stuart Mill é o fundador do Fabianismo (socialismo Fabiano, uma corrente britânica que pregava o atingimento do socialismo por vias graduais). Na opinião de Hayek, é possível distribuir livremente o resultado do trabalho, mas apenas uma vez, porque, uma vez alterada a regra da distribuição, nada garante que a produção continue sendo eficiente, já que os mecanismos de mercado não foram obedecidos ou teriam sido alterados”. Camerino também menciona a afirmação de Hayek de que Mill seria um dos responsáveis pela criação da expressão “justiça social”, tão combatida pelo pensador austríaco, para quem a justiça obviamente só se aplica a condutas individuais, não sendo os resultados das ações humanas qualificáveis apenas como justos ou injustos, por terem influência de diversos fatores – como o acaso. “No entanto, ele defende que todos tenham direito a uma renda mínima garantida, abaixo da qual ninguém precise descer, a ser garantida pelo Estado através de impostos e não a partir do mercado”, pontua o autor sobre Hayek.

Mill ainda acreditava na teoria do valor-trabalho e nas ideias de Thomas Malthus (1766-1834) sobre o crescimento populacional descontrolado. Considerou a intervenção estatal válida “quando não é feita de modo autoritário e tenha um sentido de orientação e não de imposição”. O Estado poderia manter hospitais públicos, mas não poderia impedir o surgimento de concorrentes; poderia ter um banco nacional, desde que não monopolista. Teria o dever de facultar o acesso dos pobres ao ensino, o que beneficiaria toda a sociedade; Mill, inclusive, chegava a defender intervenção do Estado em favor dos animais contra excessos de crueldade de que seriam vítimas. Mill também era a favor da existência de leis trabalhistas, como a redução da jornada de trabalho, “por decisão e reivindicação coletiva dos trabalhadores”, do socorro do Estado a deficientes físicos, incapacitados e miseráveis – tal como Hayek também defendia – e do financiamento estatal de pesquisas científicas. Além disso, era crítico ao direito ilimitado à herança, entendendo que ela deve ser destinada apenas à subsistência dos filhos.

O aspecto mais polêmico levantado no livro, porém, está em seu diálogo com os socialistas utópicos. Conforme bem explica Camerino, Mill nunca abdicou dos compromissos teóricos que assumiu com suas afirmações feitas no livro Sobre a Liberdade, mas ele defendeu que experiências sustentadas pelos socialistas utópicos como Fourier, Owen e o anarquista Proudhon (1809-1865), como o cooperativismo – em que, sem trabalhadores assalariados, os indivíduos se associariam para desenvolver seus negócios, repartindo os lucros –, seriam tentativas bem-vindas de elevação do patamar dos trabalhadores. Na verdade, Mill admitia a possibilidade de que o sistema econômico capitalista fosse transformado ao longo do tempo, se as alternativas socialistas, cooperativistas ou mutualistas se provassem superiores. No entanto, ele sustentava que essas alternativas fossem experimentadas dentro do sistema de mercado, competindo com as demais, inclusive admitindo a hipótese de grandes capitalistas contratarem serviços de cooperativas em paralelo.

Influenciado pelo empirismo inglês, ele, em vez de rechaçar as teses socialistas completamente, até demonstrava certa simpatia por algumas delas (as pacíficas) e queria ver para crer. É sempre bom enfatizar que esses pensadores socialistas utópicos não pregavam revoluções violentas, mas a formação de comunidades ou organizações econômicas alternativas que, justamente, em sua concepção, se provariam superiores e pacificamente substituiriam o estado de coisas. Não se trata de dizer que Mill tivesse pactuado com revoluções comunistas ou com a convencional luta de classes marxista.

O pensamento de Norberto Bobbio

O segundo pensador central da obra se desenvolveu no pitoresco contexto do liberalismo italiano, que emergiu dos proprietários de terra e não da burguesia industrial como na Inglaterra (o contexto italiano, aliás, nesse aspecto, é mais semelhante ao do liberalismo brasileiro do século XIX). O movimento liberal italiano, centrado na figura de Piero Gobetti (1901-1926), acreditem se quiserem, nasceu acreditando que “tanto o liberalismo clássico quanto o socialismo deveriam manter um frutífero diálogo” e serem “considerados e harmonizados”, o que se fortaleceu quando, já diante da ascensão do fascismo, liberais, católicos, socialistas e comunistas se uniram na resistência.

Para Camerino, o fracionamento da Itália em rivalidades regionais seculares e o peso da tradição católica, “que impediu o desenvolvimento do indivíduo autônomo e de uma consciência e sociedade laicas” – à diferença da sociedade inglesa, onde deu-se uma competição religiosa que impulsionou as reflexões liberais sobre a tolerância no campo da fé desde o pensamento de John Locke (1632-1704) -, comprometeram o desenvolvimento vicejante do liberalismo italiano. Com isso, construindo seu Estado nacional ainda sob a dominação de formas de poder tradicionais e conjugando a industrialização com a emergência operária, a Itália levou seu liberalismo a se afastar rapidamente da defesa mais sólida e autônoma do liberalismo econômico – ou, conforme o italiano Benedetto Croce (1866-1952), “liberismo”, expressão empregada por Merquior no Brasil.

Gobetti, curiosamente, chegou a ser amigo e colaborador do famigerado marxista italiano Antônio Gramsci (1891-1937), sustentando que era necessário “difundir no liberalismo os valores igualitários da tradição socialista”. Assim, em especial na década de 30, vinculando-se ao Partido d’Azione, os liberais italianos vão considerar que a pulsão socialista por mais igualdade precisa, de alguma forma, ser absorvida pelo liberalismo, mas o socialismo real era despótico. Mais do que “liberalismo social”, os italianos criaram a tradição, para nós algo bizarra, de identificarem seu movimento como “liberal socialismo” ou “socialismo liberal”. Esse espírito sincrético inspirou o próprio Partido Comunista Italiano, cujo líder Palmiro Togliatti “aceitava e propunha inclusive o pluralismo político, necessário a uma democracia progressiva”.

Para os ditos “liberais socialistas”, o liberalismo é um método, um conjunto de regras, um processo pelo qual a humanidade avança por tentativa e erro. Já o socialismo é “uma proposta que traduz os sonhos e aspirações da humanidade”, a “democratização plena das relações sociais”, o que só poderia ser buscado em liberdade, com o fortalecimento dos operários na vida pública.

Norberto Bobbio se inscreve nessa tradição, afirmando que o liberalismo social deve se basear “no reconhecimento dos direitos sociais, exigidos pela tradição do movimento socialista, como condição prévia ao exercício dos direitos de liberdade, exigidos pela tradição liberal. Socialismo e liberalismo não são incompatíveis, segundo ele, mas as formas e modos de sua possível síntese são discutíveis”. Influenciado pelo que Camerino apresentou como sendo um liberalismo agonístico, reconhecendo a tensão entre interesses e visões distintas no jogo político, e pelo conceito de sociedade aberta de Karl Popper (1902-1994), Bobbio se ocupou mais de questões político-institucionais que de questões econômicas.

Avesso a extremos, ele admitia que liberdade e igualdade eram valores em tensão, que nunca se poderiam realizar em termos absolutos sem se excluírem mutuamente. Defendia a democracia, a liberdade e os direitos humanos como valores liberais inegociáveis, mas dialogava constantemente com os comunistas. Para ele, classificava-se na esquerda, em direção à tradição socialista, o pensar político que valorizasse a igualdade e, à direita, o que valorizasse um pensamento inigualitário; ele próprio se considerava à esquerda, alegando seu desconforto com os abismos sociais e econômicos. Destacava “que Mill tem consciência de que, além dos valores liberais, uma sociedade precisa ser organizada segundo princípios equitativos que seriam princípios de justiça distributiva. Assim, em Stuart Mill, na opinião de Bobbio, temos a passagem do estado liberal para o estado social, ou liberal social, onde o direito, além de ter função repressiva e protetora, tem também uma dimensão de promoção, ou positiva. Em resumo, uma sociedade que pretende permanecer reunida necessita de critérios de redistribuição de riqueza”.

Bobbio, “estudando os direitos humanos, defende a sua universalização e a sua particularização, quando se tornam específicos e passam a defender os direitos dos idosos, das crianças, das mulheres, das comunidades LGBT e, finalmente, do meio ambiente e dos animais, e ainda o direito a uma morte digna. (…) Embora sem defender a estatização dos meios de produção, em entrevista a Bresser Pereira, considerou que o liberalismo social é equivalente à social-democracia e, nele, o Estado deve atuar para corrigir os defeitos do mercado”.

Ao final, Camerino reserva um espaço para sintetizar o pensamento de outros filósofos inscritos na constelação do liberalismo social, John Rawls (1921-2002) e Richard Rorty (1931-2007). Como esta síntese já se estende, deixo a consulta direta aos leitores interessados.

Considerações finais

É fato que, ao contrário do que preconiza um mito largamente difundido, o capitalismo laissez-faire nunca foi uma unanimidade, sequer uma postura majoritária na história do liberalismo. Inclusive os membros da chamada Liga de Manchester de 1838, que estimularam a atribuição do famoso rótulo de “manchesterianismo” aos defensores do laissez-faire, admitiram, por exemplo, limitações estatais ao trabalho infantil. Figuras como Mises, Ayn Rand e seus discípulos sem dúvida o defendem, ainda que a segunda, ao contrário do primeiro, sustente que ele só se configuraria, de fato, quando não houvesse mais impostos e sim um Estado mantido de forma voluntária. Hayek, no entanto, foi claro em sua condenação do laissez-faire, visto como um obstáculo ao desenvolvimento do liberalismo em seu clássico O Caminho da Servidão.

Hayek e muitos de seus discípulos, como o brasileiro Donald Stewart Jr., também defendem medidas como a ajuda estatal aos mais pobres, oferecendo uma renda mínima de proteção, mediante um sistema como o de vouchers, apreciado pelo economista da escola de Chicago, Milton Friedman (1912-2006), “pelo simples fato”, diria Stewart, “de pertencerem à mesma comunidade”, pois isso seria do interesse de todos os cidadãos, já que é destrutivo e danoso à liberdade e à vida de todos coexistir com a miséria, além de prejudicial a todo o sistema de mercado, que perde em consumidores e mão-de-obra.

Nenhum desses autores, no entanto, está inscrito na tradição liberal social, sendo antes considerados seus adversários, tratados como “neoliberais” ou liberais conservadores. Pode-se argumentar que a pressão do liberalismo social “forçou” a aceitação de uma atuação maior do Estado por parte deles, mas, como o próprio professor Camerino admite, sua postura não é realmente uma ruptura com o liberalismo clássico, já que o próprio Adam Smith admitia, por exemplo, a educação pública e certas intervenções estatais.

Sendo assim, não considero necessário ou desejável o relacionamento que os primeiros liberais sociais empreenderam com a tradição socialista e que Bobbio e seus pares continuaram a empreender. A tolerância e o respeito não devem ser confundidos com o sincretismo. Tudo, é claro, deve ser julgado de acordo com a circunstância histórica; ao tempo de Stuart Mill, as experiências socialistas utópicas ainda tinham o frescor da novidade e o socialismo marxista sequer se tinha assentado e “dado o ar de sua graça” no chamado socialismo real. Seu interesse intelectual na possibilidade de oferecerem contribuições úteis é perfeitamente compreensível, em minha opinião. Nada disso o retira da condição de personagem da história do liberalismo, de vez que permanecem de relevância central suas reflexões sobre liberdade, justiça, democracia, sistema representativo, Estado de Direito e outros princípios nucleares da tradição liberal.

No entanto, os falanstérios de Fourier, as comunidades imaginadas de Owen, o regime industrial de Saint-Simon ou a ditadura do proletariado que se suicida a posteriori de Marx são todos sistemas, uns pacíficos, outros violentos, que se provaram, ou completamente fracassados, ou insuficientes para se impor a sociedades complexas. Pessoalmente, não reconheço valor em uma pitoresca síntese “liberal socialista” no século XXI.

Mais do que Mill, porém, Bobbio e seus companheiros fizeram algo que considero ainda pior: trazer para o “time” figuras como Antônio Gramsci e assumir explicitamente a identificação com o ideário social-democrata, como o famoso pensador italiano acabou fazendo, conforme Camerino explicita ao final de sua obra. Se o liberalismo se fundir à social-democracia, ele já não tem qualquer proposta diferenciada a apresentar. Em ponto extremo, no contexto brasileiro, estaríamos nos rendendo ao consenso social-democrata na Nova República se enfatizássemos essa linha de pensamento. Os que proclamam essa equiparação parecem sofrer de um problema que acomete muitos intelectuais contemporâneos: o fetiche por soar interessados nas boas causas, por demonstrarem compadecimento da dor alheia, o desejo de ser “socialista” apenas porque o termo tem boa reputação e supostamente monopoliza as aspirações virtuosas.

As ideias keynesianas, uma consequência mais robusta e tardia da tradição liberal social, acabaram sendo, de fato, apropriadas e sofisticadas pelas correntes sociais-democratas e por outros grupos estatizantes. As apreciações finais de Camerino a respeito de Bobbio exibem outro problema de seu pensamento, em minha visão: a brecha aberta para que o liberalismo absorva, sob o pretexto da defesa nobre das minorias, a agenda das políticas identitárias, que pouco ou nada têm a ver com o liberalismo e, nos tempos atuais, representam, antes, uma grave ameaça de corrosão. Parece-me, pelo exposto, que o liberalismo social é mais permeável a esses gêneros indesejáveis de desnaturação que outras vertentes do liberalismo.

Tendo a me identificar, portanto, mais com a tradição liberal conservadora que com a tradição liberal social, ressalvando que aquela, como observei, não significa necessariamente o estrito capitalismo laissez-faire, que, de Adam Smith a Hayek, não foi a bandeira – sem que os pensadores socialistas precisassem ser agregados à constituição de suas ideias.

De todo modo, o trabalho do professor Camerino é uma oportuna fonte de esclarecimentos, que permite confrontar nossas ideias com o que realmente pensavam os referidos autores e colocar todas as peças em seus devidos lugares no grande debate teórico dos liberais. A despeito de nossas discordâncias, o liberalismo social é um capítulo da história do liberalismo e uma de suas vertentes, com a qual precisamos dialogar.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).