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O jornalismo no Brasil (parte V): Paulo Francis e “Um homem chamado porcaria”

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Em 1981, Paulo Francis foi convidado por Armando Nogueira, ex-colega do Diário Carioca, para trabalhar na TV Globo. Francis vivia seus melhores dias, até então, na profissão: reverenciado por tantos, odiado por alguns, mas lido por muitos. A emissora (Globo) tinha como objetivo dar mais ênfase política a seu jornalismo.

Havia um problema, porém, como lembra Nelson de Sá na belíssima apresentação do livro A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo, de Francis. Nosso personagem criticara em 1971 Roberto Campos e o poderoso Roberto Marinho – que eram amigos, -, em seu artigo intitulado “Um homem chamado porcaria”, veiculado no O Pasquim. Lembrando que naquela época em que escrevera o artigo, o Trotskismo ainda corria nas artérias de Francis. Aos poucos, a vida no centro dos Estados Unidos mudou o pensamento de Francis, que se dobrou à efetividade da máquina capitalista ianque. Francis admitiu, mais tarde, que deixara de acreditar na ideologia de Trótski, ficando apenas com resquícios de admiração intelectual ao inimigo mortal do bolchevique Stálin.

Eis que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, importante executivo da Globo, foi até Marinho para consultar sobre a possível contratação. Este, apenas indagou: “Ele aceita trabalhar com a gente?”. “Sim”, respondeu Bonifácio. “Se aceita, é porque mudou de opinião. Pode contratar”, disse Marinho.

Foi assim que o colunista de dicção peculiar – e uso aqui um eufemismo para fala esquisita –, naquele momento já um apologista do capitalismo, iniciou sua carreira na maior emissora do Brasil.

Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, de pseudônimo Paulo Francis, nascido em 2 de setembro de 1930, ficou 17 anos na emissora até falecer em 4 de fevereiro de 1997, em Nova Iorque, vítima de um infarto.

Francis entrou num colapso nervoso, pois três meses antes de sua morte, o colunista passou a responder a um processo milionário movido pelo então presidente da Petrobras, Joel Rennó, e outros diretos da companhia.

O motivo: Francis afirmou no programa Manhattan Connection que os diretores da Petrobras estavam colocando dinheiro em contas na Suíça, e disse (se referindo a eles) que se tratava da maior quadrilha da história brasileira.

Lembrando que Francis há tempo defendia a privatização da estatal. Duas décadas depois, os brasileiros se depararam com o escândalo do Petrolão.

O jornalista Nelson Sá relembra, contudo, que em 2005 Rennó e outros coleguinhas foram condenados a pagar (por ressarcimento e multa) mais de 141 milhões de dólares em um processo sobre a aquisição da plataforma P-40. Além disso, perderiam funções públicas e seus direitos políticos. Isso, se uma decisão em segunda instância não os absolvesse.

Francis não media palavras, é verdade, mas foi injustiçado – para não dizer assassinado pela brutalidade oriunda de uma empresa que décadas depois ficaria desnudada diante do país.

Fico a pensar: se Francis estivesse vivo durante o auge da Lava Jato e da vergonha do Petrolão, o que escreveria? O que falaria de seu algoz Lula? O que diria de Dilma? Para descrever os togados do Supremo Tribunal Federal em sua atual composição, quais adjetivos o mestre da crítica usaria?

Francis não foi apenas um jornalista, foi um intelectual completo: estudioso, amante de livros e de arte. Literatura, cinema, teatro, balé e pinturas estavam no radar de suas críticas – pois eram suas paixões.

Irreverente e politicamente nada correto, tinha um talento único para criticar; sem qualquer medo de cara feia.

Francis foi, não tenho dúvidas, “Um homem chamado espetacular”.

No próximo texto, falaremos mais sobre seu início e sua ligação com o comunismo, além de seus trabalhos para a Folha de S. Paulo e para O Estado de S. Paulo – entre outras histórias.

(Continua…)

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC - ambos veículos do Grupo Editorial Sinos. É colunista do Instituto Liberal, do site Opinião & Crítica e colabora com conteúdos ao Political Science (Fleekus - EUA). Também trabalha como assessor de imprensa e comunicação. Autor do livro "A Filosofia do Fracasso - ensaios antirrevolucionários".