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O individualismo de Steve Jobs

Dentre todas as 13 obras lidas em 2020, no ciclo de formação do Instituto Líderes do Amanhã, a que certamente mais me marcou foi a biografia de Steve Jobs por Walter Isascson. Mesmo já conhecendo a história do lendário fundador da Apple e de suas criações, passar por ela dessa vez me proporcionou uma visão diferente de sua brilhante existência.

Jobs foi uma figura controversa. Ao mesmo tempo em que era amado por sua capacidade criativa e seu apurado entendimento sobre o desejo dos consumidores, era também duramente criticado por seu temperamento explosivo, total ausência de empatia e desprezo pelas práticas de boa conduta e vida em comunidade. Muitos dos que conviveram com ele, quer no trabalho, quer na vida particular, o qualificariam como um verdadeiro “babaca”, apesar de sua incontestável genialidade. Foram vários os episódios de humilhações públicas aos seus funcionários, de ataques de agressividade sem justificativa plausível e de decisões pessoais minimamente contestáveis.

Porém, foi esse homem de difícil convívio que pôde unir os esforços necessários para realizar várias das maiores criações dos tempos modernos. Sua paixão por seus produtos era tão contagiante que foi capaz de sobrepor qualquer traço de personalidade negativo que pudesse apresentar. Steve Jobs sabia o que queria fazer e sua motivação individual cativou um time de pessoas igualmente brilhantes a se unirem em projetos revolucionários. Ele não era movido pelo desejo de fazer o bem à humanidade e apenas queria criar dispositivos que gostaria de usar. Sabia que precisava de mais dinheiro para seguir aperfeiçoando-os e então resolveu vendê-los. Seus sócios e empregados também não tinham um objetivo coletivo. Muitos se uniram pelo dinheiro, outros pelo amor à tecnologia e alguns queriam deixar seus nomes nos registros históricos. Foi essa união de interesses individuais que transformou o mundo, tornando nosso dia a dia mais produtivo e várias de nossas tarefas diárias mais fáceis.

Steve Jobs introduziu ao mercado de larga escala os computadores com interface gráfica e mouse, os smartphones, os tablets, uma loja inovadora de músicas e diversas outras criações que provocaram enorme impacto em, pelo menos, sete diferentes indústrias. Seus negócios já empregaram centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo e seguem proporcionando ótimos retornos aos investidores. A Apple está entre as mais valiosas empresas do planeta e segue gerando milhares de empregos e fornecendo tecnologia de ponta a um custo acessível. Conduzido por uma motivação completamente egoísta, Jobs foi capaz de melhorar as vidas das pessoas de uma forma que nunca intencionou.

Em uma cultura em que se valoriza tanto o altruísmo, em que os heróis são aqueles que se sacrificam pelo bem dos outros, pode ser um desafio reconhecer a extensão do impacto positivo causado pelo trabalho de um indivíduo cujo objetivo jamais foi ajudar alguém além de si mesmo e de sua família. Entretanto, histórias como essa se repetem o tempo todo sem que percebamos. Cada pessoa perseguindo seus próprios objetivos, buscando realizar seus desejos pessoais, contribui involuntariamente para o bem da comunidade. Alguns criam comércios que geram empregos e trazem facilidades aos locais. Outros utilizam seus conhecimentos para prestar os mais diferentes tipos de serviços. Há quem revolucione nossas vidas com novas ideias e há também aqueles que escolhem investir parte de seu patrimônio para financiar o desenvolvimento dessas ideias. Todos, buscando a própria felicidade, colaboram espontaneamente de uma maneira nunca pensada para a melhoria das condições de vida geral.

Há quem acredite que o caminho do progresso passa por construir uma sociedade em que todos sejam responsáveis por todos, em um senso geral de coletividade. Nessa estrutura utópica, ninguém é proprietário das próprias conquistas, pois os geradores de valor entendem que seus talentos são vantagens competitivas obtidas por aleatoriedade e que estão a serviço da comunidade. Histórias como a de Steve Jobs nos mostram que somos mais produtivos quando buscamos nossa própria felicidade, com responsabilidade individual sobre nossas escolhas boas ou ruins e respeitando os direitos individuais dos outros.

Somos todos diferentes, temos projetos de vida distintos e não há quem seja capaz de coordenar todos os esforços para um objetivo comum. Contudo, teremos um ambiente de cooperação espontânea inimaginável se simplesmente permitirmos que as pessoas busquem a própria realização, de acordo com seus interesses individuais. Não foi necessário que esse grande empresário do Vale do Silício estivesse pensando no meu bem para que eu me beneficiasse do seu trabalho. Foi seu individualismo que tornou minha vida melhor.

*Gabriel Salvatti da Silva é Associado II do Instituto Líderes do Amanhã.

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