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O último dos redutos

Um assunto intocável em nosso país é a discussão sobre a real representatividade dos sindicatos dos professores, seja nas esferas municipais, estaduais ou federais. Dá-se muita voz para essas instituições de representação, mas não se valida efetivamente esse “poder”. Não se têm instrumentos para confirmar se as entidades de fato representam a opinião da maioria dos docentes; mas será que poderíamos ter? A quantidade de docentes associados pode ser um parâmetro confiável para essa representação de opinião generalizada? Os líderes sindicais dos professores irão berrar aos quatro ventos que sim, mas há muito mais a ser discutido. Estar associado ou não pode não significar que o associado esteja 100% de acordo com a pregação sindical.

Cuidado! Discutir sobre a possibilidade real da não representatividade efetiva dos sindicatos dos professores em relação à opinião da MAIORIA dos professores é um tema específico. Esta discussão não tem absolutamente nada a ver com a importância dos docentes, do trabalho magnífico e necessário do professor. Sou professor também. Amo minha profissão de docente, amo minha pesquisa. Sou plenamente realizado com a carreira que escolhi. Agora, chega um ponto de nossa vida docente que não podemos nos calar ou deixar de se posicionar.

Muitos dos sindicatos de professores no Brasil possuem exclusividade com relação a, por exemplo, um acordo comercial com planos de saúde. Uma prática comum no mercado é gerar acordos entre entidades, empresas, associações, das mais variadas possíveis, com empresas de plano de saúde. Esse acordo vai oferecer descontos ou vantagens financeiras caso um associado escolha este ou aquele plano. Muitas vezes, de forma exclusiva para o sindicato ou associação. Todos saem ganhando: a associação, os associados e os planos de saúde. Usando a mais simples forma de liberdade econômica entre duas entidades sociais. Sem problema nenhum.

Dessa forma, essa oportunidade exclusiva oferecida pelos sindicatos dos professores (citei apenas um exemplo) gera uma oportunidade para o professor que no mercado teria que pagar valores maiores para o mesmo serviço contratado. Principalmente quando esse professor tem filhos pequenos; mas, a partir do momento em que o professor queira usar esse acordo comercial, ele, naturalmente, torna-se associado ao sindicato. Nada mais normal, é claro.

E aí vem a minha inquietação. O fato de que um professor esteja associado a uma entidade, para usufruir de seus benefícios (salão de festas, clubes, piscinas, planos de saúde, entre outros), não significa necessariamente que ele concorde com ideologias políticas defendidas pelos sindicatos. Os representantes sindicais dos docentes tomam por direto a palavra de TODOS os professores por meio da palavra de 20 ou 30 diretores do sindicato; mas e o direito ao contraditório? As discussões são abertas, as votações nem tanto. Se você não pode aparecer na votação ou não tem interesse na greve ou na reclamação sobre esse ou aquele presidente, reitor ou qualquer outro, então você deverá aceitar que a opinião do sindicato é a sua opinião. Nada mais democrático, certo?

Mas onde está a pegadinha? E os professores liberais? Espera ai, existem professores liberais? Não são todos comunistas, esquerdistas e/ou socialistas? Por incrível que pareça, não! Há muitos professores liberais nos corredores das escolas e das universidades. Há muitos professores que não concordam em ir até uma assembleia legislativa ou na frente de um prédio governamental e ficar gritando palavras de ordem socialistas ou promover invasões em prédios públicos ou impedir alunos de terem aulas e/ou professores de ministrarem suas aulas. Se isso é verdade, surgem três perguntas: 1) Onde estão estes professores liberais que não se expõem? 2) Por que estes professores liberais estão atrelados ou filiados a esses sindicatos? E, principalmente, 3) Eles não votam nas deliberações dos sindicatos? Vamos tentar entender isso melhor.

Moramos em um país (talvez seja um fenômeno no mundo todo) que considera intensamente o fato de que ser professor significa, além da real definição de levar o conhecimento ao estudante, ser de ideologia de esquerda, socialista e, no Brasil, ser fã incondicional de Paulo Freire (só que não!). Então a resposta para o 1) é: Estão acuados, nos laboratórios, nas coordenações, nas pesquisas, mas principalmente nas prisões de julgamentos e olhares tortos ideológicos pelos pares. Não é fácil defender e levantar a bandeira liberal dentro de um ensino público no Brasil. Se um professor defender uma parceria de uma universidade pública com o mercado, o que pode gerar transferência tecnológica, empregos, verbas de financiamentos de bolsas, etc., muitos docentes, principalmente os representantes sindicais, o taxarão de defensor do capital, do explorador, do rico e maléfico empresário que usurpa seus empregados (sic). Então, para não gerar conflitos, porque esse docente liberal gosta de ministrar aula, de fazer pesquisa, de exercer essa honrosa profissão, ele se esconde, se encolhe na sua “insignificância” de pensamentos.

Para responder à questão 2) não preciso nem gastar meu limitado conhecimento gramatical. Em geral, esse professor tem filhos, dependentes. Estar ou não filiado a um sindicato, devido à exclusividade dos acordos comerciais, significa pagar 600,00 reais por um plano de saúde completo ou 1800,00 reais pelo mesmo plano se fosse adquirir isoladamente (valores hipotéticos). Num país em que o professor de ensino superior ganha relativamente bem (em relação à média salarial brasileira; consultar o portal da transparência e verificar quanto ganham os seus professores de universidades públicas com dedicação exclusiva) e os professores de ensino pré-escolar, fundamental e médio ganham pouquíssimo, qualquer vintém economizado para cuidar dos seus é uma oportunidade de colocar algo a mais na mesa de casa. Então, infelizmente, mesmo que não queiram, a necessidade financeira torna essa associação uma oportunidade de melhoria das finanças domésticas. Muito mais do que pelo interesse ideológico, obviamente. Dessa forma, ligar o “não estou nem aí pelas decisões do sindicato” acontecem constantemente. Um erro de cidadania, mas de hábito.

A questão 3 é a principal inquietação. Por que então esses professores liberais não interferem nessas votações? Afirmo para vocês: a quantidade de greves diminui ultimamente, talvez ainda não tanto quanto desejamos, isto é, zero! No primeiro momento porque a esquerda estava no poder. Mesmo assim, quando estávamos livres para ir e vir (antes da pandemia), existia uma força mínima que, por meio de troca de mensagens, e-mails ou telefonemas, se articulava quase amadoramente e emergencialmente de forma a tentar garantir uma votação pela “não greve”, por exemplo. Isso aconteceu diversas vezes pelo Brasil afora. Escutei uma vez em uma dessas assembleias de um professor liberal, que não concordava com greve, gritando no fundo da sala: “Vamos votar de uma vez que preciso ir dar aula daqui a 15 minutos!” Porque até isso é pensado. Fazer votação de greve em momentos de aula leva à participação na assembleia dos que não querem dar aula. Simples assim, não parece? Já repararam onde ocorrem essas assembleias? Quais os horários? Enfim, seria muita inocência acreditar que foi “sem querer querendo”.

Vemos nas assembleias sindicais de professores um percentual baixo de associados. Nas de nível universitário, menos ainda. Opa! Não estamos no tempo da informatização? Da indústria 4.0? do voto eletrônico? Estamos! Mas se for para colocar uma faixa de “ele não” ou “Vacina é ciência, vacina é vida” ou “Fora, escola sem partido” ou qualquer outro slogan “politicamente correto” ou, ainda, pela “greve sanitária”, então o voto é presencial. “Lascou!!!!”. Não seria lindo se os sindicatos dos professores, cada vez que fosse produzir uma faixa ou fosse deliberar sobre uma ação na justiça ou qualquer decisão REPRESENTATIVA, consultasse seus afiliados? Já pensou se os sindicatos dos professores mandassem um e-mail a todos os seus filiados com a pauta a ser discutida, um prazo para posicionamentos, um encaminhamento com TODAS as propostas recebidas e, finalmente, depois um prazo de uma semana para votação por internet para deliberação. Inviável, muitos diriam (pare de sonhar!!!), porém democrático e representativo com certeza. Ainda digo mais: caso essa votação não atingisse a 50% + 1 dos afiliados, a pauta não poderia seguir. Proponho uma alternativa mais fácil ainda. Os sindicatos propõem sua ação e cada associado assina eletronicamente sua concordância. Assim, aquela ação teria exatamente a dimensão de quantos docentes concordam realmente com aquilo; mas assim quase nunca teríamos ações dos sindicatos. Pois é! Agora fechamos meu raciocínio.

Os professores são realmente representados pelos sindicatos dos professores? Na minha opinião, não. A minoria que esbraveja palavras de ordem socialistas domina os sindicatos, domina as ações e, falsamente, representa toda uma classe. Até quando os docentes liberais ficarão na sombra, aceitando passivamente essas opiniões, quebra-quebras, faixas absurdas, slogans socialistas, radicalismos tanto quanto controversos dos sindicatos? Se a universidade e as escolas devem ser lugares de discussão plural, para todas as opiniões democráticas, os sindicatos dos professores, tomados pela esquerda, não estão nem um pouco alinhadas a esse conceito. Infelizmente. Sem muitas dúvidas, o sindicato dos professores é o último reduto da esquerda no país e, se assim continuarem, que cada vez mais falem ao vento. Uma boa parte dos docentes não querem ser representados pelos sindicatos, apenas gostariam de transformar os sindicatos em associações/clubes como toda e qualquer outra profissão ou classe tem. Já temos maneiras mais democráticas para expressão de nossas opiniões. Não precisam falar por todos os professores, falem por vocês como indivíduos, não como representantes da classe, porque isso não é verdadeiro. Já pensaram que uma maneira de calar os contrários é assumir a voz deles? Nisso, a esquerda e o seu último reduto são especialistas.

*Este artigo foi enviado por um professor. 

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