O Facebook e a formação do novo idiota: o pseudointelectual moderno

MAURÍCIO SÁ *

Tenho observado, sobremaneira, um fenômeno curioso nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, que é a formação dos novos idiotas, ou pseudointelectuais, em nossa sociedade dita “pós-moderna” (com a devida vênia utilizando a expressão do Pondé).

Em uma época não muito distante o acesso ao conhecimento era algo restrito, apenas destinado a algumas camadas privilegiadas de uma determinada sociedade. Hoje em dia, mesmo no pobre Brasil, o acesso tornou-se fácil, simples e, praticamente, universalizado. Por conseguinte, trouxe também uma torrente de (des)informação e idiotas catedráticos a vácuo. Explico, exemplificando.

As novas discussões que têm sido travadas no mundo virtual são dignas de tristeza e algumas outras chegam a ser ultrajantes. Os memes (aquilo que é copiado ou imitado e que se espalha com rapidez entre as pessoas) tornaram-se “bibliografia recomendada” de conteúdo irrefragável – acredite, tem gente que acha que aquilo é informação credível. Continuando. Os argumentos, as refutações, as ideias cortadas de artigos, o copiador de frases de efeito, o analfabetismo funcional – onde você fala que o PT vai mal e precisamos diminuir o tamanho do Estado e alguém (sempre) para te refutar diz que FHC privatizou e roubou. A falta de entendimento é esquizofrênica. Um simples corte epistemológico é impossível. A falta de compreensão e interpretação do que está sendo dito é chocante, aquilo que se chama exegese é impraticável. É o império do analfabetismo funcional onde sabe-se juntar letras e sílabas, apenas. Interpretá-las, jamais!

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Além disso, um outro agravante é o de muitos acharem que consegue-se profundo conhecimento de um determinado autor, um assunto, uma ideia complexa, uma teoria apenas lendo artigos de internet, e não mais (como há pouco tempo) debruçar-se em uma obra inteira e densa com um caderninho ao lado fazendo anotações pertinentes e grifando pontos fulcrais para retirar suas próprias ilações, a posteriori. É nesse sentido que ressalto a necessidade de chamar atenção para formação dos novos idiotas e/ ou pseudointelectuais. O pior de tudo é ter que ler determinados posicionamentos fragmentados (sempre, pois não leem a obra inteira) e ainda me deparar, de forma recorrente, com atos de petulância e arrogância desses energúmenos travestidos de sábios. Sinceramente, é preciso de muito Engov.

Outrossim, não custa lembrar que articulistas com maior pedigree e afoiteza que percorrem campos mais lúcidos têm conclamado reiteradas vezes, como é o caso do Rodrigo Constantino, que, em admoestação aos seus seguidores, pediu que os mesmos não se limitassem a ler apenas artigos de um determinado instituto – que leva o nome de um grande pensador da Escola Austríaca – e começassem a ler a própria obra em si, a fim de terem uma noção mais alargada, minimalista e não de miudeza e simplista sobre o tema.  Acredito que não tenha surtido grande efeito. Um outro alerta foi feito pelo economista Adolfo Sachsida, após receber duras críticas dessa gentalha, perguntou (e bem!) qual era a contribuição e que trabalhos científicos esses “novos idiotas” haviam produzido. A resposta já podemos imaginar: um silêncio sepulcral, apenas com ruídos de besouros ao fundo como trilha sonora e alguns xingamentos avulsos, como de praxe. Eles não leem, não produzem absolutamente nada e, ainda assim, criticam veementemente e tentam ridicularizar (sem fundamentos) o trabalho alheio.

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Para concluir, eu diria – em tom de alerta – aos pseudointelectuais complexados que acham que é simpático falar aberrações na internet para parecer “inteligentinho”, soltar sempre as mesmas frases de efeito do Nelson Rodrigues ou Ayn Rand -“Quem é Jhon Galt?” (que está na moda) não vai fazê-lo mais “cool” nem interessante num verdadeiro mundo de debate de ideias ou numa roda de intelectuais e pensadores de boa estirpe. Fora desse mundo de fantasia do “cola-cola virtual” ou do “recorta artigos” a coisa fica mais complicada e séria. Externar e defender de forma consistente uma ideia requer leitura de muitos livros e não apenas de retalhos virtuais. Necessita diariamente estar absorvendo e ativando recursos mnemônicos para que, na hora da necessidade, esses construtos sejam utilizados de forma primorosa e assim, de modo dinâmico, poder jogar com suas ideias de diversas formas.

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Não adianta, não há atalhos para o conhecimento. O segredo é ler, ler e ler – livros inteiros e grandes obras; artigos são bons sim, mas servem, apenas, de complemento.  O que vocês fazem não é outra coisa senão babaquice, pseudointelectuais moderninhos.

* Mestrando em Ciência Política na Universidade Nova de Lisboa

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