Lição de economia

NEY CARVALHO *

Os políticos brasileiros, sobretudo os de esquerda, têm aversão epidérmica à mais natural e espontânea das organizações econômicas da humanidade: o mercado. Mercados não foram engendrados por cientistas políticos ou surgiram de mórbidos cérebros gananciosos. Tanto quanto a agricultura, a pecuária, a indústria, o comércio, as cidades e seus prédios, mercados são criação das sociedades funcionando em liberdade econômica.

A ascensão do marxismo como ideologia internacional, de 1920 em diante, e a glorificação do Estado pelos regimes ditos socialistas, principalmente a União Soviética e satélites, geraram obsessão pelo planejamento estatal. O Brasil sucumbiu ao canto da sereia durante o governo João Goulart. Foi criado o ministério do Planejamento e nomeado seu titular um economista que de mercado não compreendia rigorosamente nada: Celso Furtado.

Os militares, que sucederam a Goulart e também não entendiam de economia, mas que pretendiam um Estado forte e controlador da sociedade, deram grande importância ao planejamento estatal. De tais elucubrações nasceram desastres nacionais, de triste memória, como Siderbrás, Portobrás, Sunaman, BNH, Interbrás, COBEC e quejandos, que deixaram como heranças prejuízos estratosféricos suportados pela Nação brasileira.

A mania de planejamento reproduziu-se pela pirâmide federativa e, hoje, não há estado ou município que, copiando o governo federal, deixe de ostentar em seu organograma, orgulhosamente, uma secretaria com essa denominação. Mas os resultados, quando não são pífios, são catastróficos. As operações planejadas por entidades governamentais sempre redundam em grandes fracassos. Sobretudo quando se tratam de emergências ou calamidades públicas. São verbas que não chegam, doações rapinadas, escolas desatendidas, hospitais desaparelhados, intermináveis filas de atendimento, almoxarifados saqueados, fraudes de toda ordem e assim por diante, num interminável rosário de desastres.

Entretanto, há uma área do setor privado em permanente estado de emergência, que atende o público consumidor, não é subordinado a planejamentos estatais e trabalha como relógio, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Falo dos supermercados, que constituem a mais primária das lições sobre funcionamento da economia.

A qualquer dia, num estabelecimento desses se encontram os mais variados produtos, industrializados, congelados ou in natura, de diversos tipos e provenientes dos mais variados rincões do país e do exterior. Evidentemente, os preços variam conforme a qualidade, ou a reputação das marcas, mas sempre existe diversidade para atender a todas as bolsas. Para seu preparo, embalagem e distribuição, de modo a estar na gôndola do mercado, foram necessárias as intervenções de milhares e milhares de pessoas e empresas agrícolas, industriais e comerciais, além de produtores de materiais intermediários, importadores, distribuidores, transportadores etc.etc. É lógico que em determinados momentos, por alguma razão econômica, ou sazonalidade, seja possível que não se encontre a marca ou produto desejado, mas sempre haverá um sucedâneo.

Notável, e impressionante, é que por trás da fantástica organização de um supermercado não existe qualquer planejamento estatal. Tudo é, rigorosamente, ação privada. O exemplo do supermercado é a mais expressiva constatação da existência da mão invisível, de que falava Adam Smith.

A única intervenção do governo em toda essa fabulosa operação logística é a cobrança de impostos incidentes sobre cada produto, ou etapa de sua elaboração. E isso nos custa entre 30 e 40% do que gastamos no supermercado. Nossa vida seria bem melhor, e mais barata, se tirássemos de nossas costas o Estado, seus tributos, governantes, políticos, funcionários e planejadores.

* HISTORIADOR E ESCRITOR

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