Nasce um novo clássico da oratória: parabéns, Dilma!

dilma_rousseff_448

Senhoras e senhores, Cícero, Demóstenes, Churchill, se curvaram. O famoso “I have a dream”, de Martin Luther King, ficou para trás; “A Time for Choosing”, de Ronald Reagan, se apequenou. A excelentíssima senhora presidente da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff, fez no dia 8 de março, domingo, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, um dos discursos mais memoráveis da história do Brasil e, creio poder dizer sem exagero, da humanidade. Nasce um verdadeiro clássico da oratória! É para aplaudir de pé – ou gritar e promover panelaços Brasil afora. Pois foi deste último modo que boa parte dos brasileiros preferiu recepcionar as palavras de sua líder, a quem não mais reconhecem – se um dia reconheceram – a legitimidade e dignidade de sua liderança.

Preferiram, porque esse clássico tem uma particularidade absolutamente original: será memorável não por sua genialidade, por seu impacto filosófico, por provocar emoções elevadas. Nada disso; será lembrado, isto sim, por sua completa falta de senso, por sua deficiência profunda de concatenação, pela confusão de ideias lançadas ao mesmo tempo, mas, sobretudo, pela prodigiosa quantidade de mentiras desavergonhadas e hipócritas reunidas em apenas 15 minutos. Sem nenhuma dúvida, Dilma fez história. Se era essa a sua intenção, merece ser louvada.

Dilma nada aprendeu com as críticas sobre a campanha imunda que promoveu na corrida eleitoral. Triunfou à base de mentiras deslavadas, e agora deseja apagar o desmentido que lhe foi imposto pela realidade à base de mais e mais mentiras. Sentimos muito, Dilma, mas dessa vez “não vai colar”.

Apreciemos alguns detalhes do clássico recém-nascido. Dilma começa, previsivelmente, apelando para o tom emocional em relação à homenagem ao sexo feminino, ressaltando o fato de ser, ela própria, uma mulher – como se isso lhe desse o salvo-conduto para se fazer de vítima e “passar a borracha” sobre o desastre com as contas públicas e o escândalo de proporções épicas que se desenrolou debaixo de seu (des)governo.  No entanto, faz isso para, logo depois, vejam só, subestimar a inteligência, não só da mulher, como do povo brasileiro que quer convencer!

“Ninguém melhor do que uma mãe, uma dona de casa, uma trabalhadora, uma empresária é capaz de sentir, em profundidade, o momento que um país vive. Mas todos sabemos que há um longo caminho entre sentir e entender plenamente.” Traduzindo: os gastos de cada dia que estão mais pesados, os impostos abusivos que estão batendo à porta, a insegurança alarmante nas ruas, todas essas “sensações” estão longe de dar a você um entendimento adequado do que está acontecendo no país. Naturalmente que ela, a Mamãe Dilma, sabe muito melhor do que você o que é melhor para o Brasil.

“Os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes nos confundem até mais do que esclarecem.” Peço licença para completar esse pensamento, Dilma: “portanto, acreditem em mim, e não nos noticiários. A verdade é o que EU digo. Aproveito para defender o controle da mídia e mandar um abraço para meus amiguinhos da Argentina e da Venezuela, que estão mais avançados do que eu NO QUE SE REFERE a erradicar esse grande incômodo para a tranquilidade do nosso projeto de pod… Digo, de nossa nação”. Isso é o que ela gostaria de dizer – mas usou de muita sutileza, isso não se pode negar.

Dilma admite que o Brasil passa por um “momento diferente”, de maiores dificuldades, “mas nem de longe está vivendo uma crise nas dimensões que dizem alguns. Passamos por problemas conjunturais, mas nossos fundamentos continuam sólidos. Muito diferente daquelas crises do passado que quebravam e paralisavam o país. Nosso povo está protegido naquilo que é mais importante: sua capacidade de produzir, ganhar sua renda e de proteger sua família”. O cinismo é impagável. Em primeiro lugar: os “fundamentos” macroeconômicos que permitiram que o Brasil obtivesse avanços foram estabelecidos por qual governo mesmo? Pois é, Dilma: “foi culpa do FHC”. Agradeça a ele. Agora, quem está sentindo protegida sua capacidade de produzir e de ganhar renda, em um governo tão profundamente hostil à liberdade e à eficiência?

Dilma insiste em que os governos petistas protegeram o país da “crise econômica internacional” desde 2008, com os métodos que, ora sabemos – e muitos já o sabiam àquela época -, foram ilusórios e apenas postergaram a agonia. Agora, a conta está sendo cobrada, e é isso que Dilma chama de “segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929”. Muito feio; em vez de se corrigir, ela insiste na mesma desculpa que usou nos debates da corrida eleitoral, imaginando uma crise gigante que estaria sujeitando os países europeus e as potências econômicas a níveis alarmantes, com “demissões em massa”. Isso simplesmente NÃO ESTÁ ACONTECENDO! Ufana-se de ter mantido o emprego e o salário – o que manchetes de noticiários tranquilamente à disposição já desmentem, mas não poderia encontrar desmentido maior do que no sentimento e no dia-a-dia do próprio trabalhador brasileiro. Uma simples comparação de indicadores socioeconômicos mostraria o equívoco, encaixando o Brasil na rabeira do crescimento econômico mundial. Pelo menos, Dilma parou de apenas culpar FHC; voltou-se, num gesto de total originalidade (sic), contra o “mercado mundial”. Haverá algum outro culpado fantasioso no repertório da presidente? Se houver, fatalmente ela lançará mão dele; afinal, a culpa é dela e do PT, portanto, eles colocam em quem quiserem, não é mesmo?

“Na tentativa correta de defender a população, o governo absorveu, até o ano passado, todos os efeitos negativos da crise. Ou seja: usou o seu orçamento para proteger integralmente o crescimento, o emprego e a renda das pessoas. (…) Absorvemos a carga negativa até onde podíamos e agora temos que dividir parte deste esforço com todos os setores da sociedade”. Em outras palavras: nossos truquezinhos heterodoxos na economia chegaram ao seu limite e a farra de desvios da Petrobras e sabe-se lá de onde mais está cobrando seu preço. Contamos com o sacrifício do povo para bancar essa ignomínia! Como o altruísmo petista me comove…

”Às vezes temos que controlar mais os gastos para evitar que nosso orçamento saia do controle.” Puxa, presidente, demorou para aprender isso, hein? Será que isso significa que não fecharemos mais as contas no vermelho e não se recorrerá mais ao expediente de alterar a Lei de Diretrizes Orçamentárias aos 45 do segundo tempo? Que avanço!

Dilma ainda fala em “serviços públicos de melhor qualidade”, em “construir um novo Brasil”. Um novo Brasil que, aliás, precisa de uma construção não só física, mas também “espiritual”. Dilma comandará uma sessão nacional de exorcismo? A estratégia paradoxal de ser “a situação” e defender “profundas mudanças” não saiu de Dilma. Ou será de João Santana? Ela não entendeu ainda que o que deve ser exorcizado é o seu governo.

Há tempo para muitas outras asneiras, como dizer que a seca, de que ela já havia desdenhado, é um dos graves problemas que dificultam a nossa situação; elencar a classe média como um de seus alvos – para indignação da filósofa petista Marilena Chauí, que aponta a classe como fascista -, e declarar com orgulho que sancionará a lei do “feminicídio” – um conceito absurdo que define um determinado tipo de homicídio como mais grave que outro em função do sexo de quem é morto, como se a vida da mulher mais valesse que a do homem. A cereja do bolo é garantir que a situação é passageira. É passageira, como nossas vidas são passageiras, como cem, duzentos, mil anos são passageiros! Os venezuelanos e argentinos, mais uma vez eles, governados por aliados do partido de Dilma, com inspirações ideológicas semelhantes e que são dos poucos no continente a conseguir estar em situação pior que a nossa, ainda aguardam o fim das tormentas “passageiras” em seus países.

Às vésperas de uma manifestação contra seu governo, Dilma decidiu se expor. E expôs amplamente: sua incompetência, sua hipocrisia, a grande mentira que têm sido a sua campanha eleitoral – que pelo visto, não terminou – e a sua gestão. Seu discurso foi uma grande mentira, do início ao fim. Coerente. Tudo que Dilma Rousseff representa é mesmo uma grande mentira. Entretanto, a crise? Essa é de verdade. A inflação? Também. Os investigados da lista de Janot, o Petrolão? Verdades. 88 bilhões desviados? Verdade. Eletrolão, BNDES? Vêm aí. O panelaço nos apartamentos de várias cidades durante o discurso? Verdade – e que não se dê atenção à afirmativa patética de que PSDB, FHC, a CIA, o Mossad, os Illuminatti ou os “reptilianos” financiaram um panelaço. 15 de março? Será verdade! A verdade é um inimigo poderoso, que Dilma, fragilizada e obtusa, não pode vencer. Especialmente quando essa verdade grita, como está fazendo hoje; silenciosa, ela ainda podia ser mascarada e enfraquecida. Sua transparência insuportável, porém, hoje grita nas contas bancárias, no suor e na alma de milhões de brasileiros, reduzindo o PT a exibir o espetáculo pífio de uma governante em desespero, incapaz de se reinventar e superar o desastre. O pior ainda está por vir – para ela ou para nós.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.

3 comentários em “Nasce um novo clássico da oratória: parabéns, Dilma!

  • Avatar
    10/03/2015 em 10:11 am
    Permalink

    Parabéns pela matéria. Expressa toda a realidade.

  • Avatar
    10/03/2015 em 12:31 am
    Permalink

    Recomenda-se, como diz Constantino, 1 engov (pelo menos) antes de ler.

    “O panelaço da barriga cheia e do ódio”, por Juca Kfouri.
    http://blogdojuca.uol.com.br/2015/03/o-panelaco-da-barriga-cheia-e-do-odio/

    Coloquem o cursor do mouse sobre o logotipo do Facebook e vejam o nº de curtidas/compartilhamento do texto do cientista social uspiano. São assustadores a ignorância e/ou desonestidade das pessoas. Nem digo da de Kfouri; dele é esperado. Bem que Mauad lembrou sobre a questão da moralidade recentemente.

    • Avatar
      10/03/2015 em 12:57 am
      Permalink

      ve c devolvi um pouco do roubo, raça de politicos ladroes

Fechado para comentários.