Margaret Thatcher, o Oscar e o Brasil

LUIZ ALBERTO MACHADO*

Meryl_Streep_as_Margaret_Thatcher_(2011)Como milhares de brasileiros, fui dormir mais tarde na noite de domingo, a fim de acompanhar a entrega do Oscar. E fiquei particularmente feliz com a escolha de Meryl Streep como melhor atriz em razão de seu estupendo desempenho no papel de Margaret Thatcher. Confesso que o filme em si não me agradou tanto, mas a atuação de Meryl Streep fez com que muitas vezes fosse impossível imaginar que os espectadores não estivessem diante da própria “Dama de Ferro”.

Embora não tenha ficado tão impressionado com o filme, não há dúvida de que há momentos fantásticos nele, especialmente para se fazer uma comparação sobre o comportamento de figuras públicas dos dois países. A cena de Margaret Thatcher comentando o aumento do preço do leite e a cena da conversa dela com o filho – morando na época na África do Sul – quando ele afirma que não poderia ir à Inglaterra porque o custo da viagem comprometeria seu orçamento, mostram bem como são diferentes as atitudes das lideranças políticas dos dois países. Já imaginaram quantos políticos brasileiros têm noção do preço do leite? E já imaginaram o filho de algum integrante do primeiro escalão deixar de atender a um convite por causa do preço da passagem?

O filme me fez recordar a palestra proferida por Margaret Thatcher em São Paulo, pouco depois de ter deixado o cargo de primeira-ministra. Na ocasião, ela falou com absoluta convicção a respeito de sua experiência e das mudanças que havia promovido no Reino Unido, dando ênfase aos processos de privatização e de desregulamentação, ao enfrentamento dos sindicatos e ao temor quanto ao futuro da moeda única. Concluída a palestra, ela se dispôs a responder a algumas perguntas. A primeira delas, feita por um empresário de enorme prestígio, foi antecedida de um prolongado preâmbulo a respeito das diferenças entre o Reino Unido e o Brasil, um paísem desenvolvimento. Concluídoo preâmbulo, o empresário perguntou se em função de tamanhas diferenças ela não achava que seria necessário um Estado mais atuante no Brasil?

Sem esconder uma ponta de irritação, Margaret Thatcher respondeu que ele não devia ter entendido nada da palestra, pois ela jamais havia defendido a ideia de um Estado pouco atuante. Em lugar disso, afirmou: “defendo um Estado pequeno e forte e o que me parece é que o que vocês têm no Brasil é exatamente o inverso, ou seja, um Estado grande e fraco”.

Ao me lembrar dessa passagem, tenho a firme sensação de que se passaram muitos anos, mas a observação de Margaret Thatcher permanece mais atual do que nunca num país que possui 37 ministérios e despesas improdutivas sendo realizadas em larga escala pela máquina pública.**

* VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO LIBERAL

** Veja, 22 de fevereiro de 2012, pp. 56-57.

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