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Maranhão 66

* MATHEUS ASSAF

O quase-falecimento do ex-presidente José Sarney me fez lembrar um dos meus filmes favoritos; o curta-metragem do diretor Glauber Rocha, Maranhão 66. O filme foi encomendado em 1966 pelo próprio José Sarney, na época um político novo do Maranhão que estava assumindo pela primeira vez a vaga de governador do estado.

Maranhão 66

Enquanto Sarney destila um discurso digno da sua futura condição de Imortal da ABL, a câmera de Glauber Rocha filma a realidade maranhense, que não mudou muito desde então, e o filme é carregado por uma ironia deliciosa, apesar de triste. Mas se em 1966 este curta já era excelente, o tempo transformou o filme em uma das melhores aulas sobre política, história e arte que se pode obter em 10 minutos.

Antes de Sarney, o Maranhão era governado por uma oligarquia liderada por Vitorino Freire, e a eleição do jovem político representava a esperança de mudança para o estado. Todas as palavras ditas pelo governador no discurso hoje soam altamente hipócritas, mas em 66 eram consideradas autênticas, provavelmente pelo próprio Sarney inclusive. São apenas 10 minutos, mas existem muitos pontos altos no filme. Aqui eu vou destacar apenas um.

“O Maranhão não quer a desonestidade no Governo e a corrupção nas repartições e nos despachos!”. Anuncia Sarney seguido por muitos aplausos. Como sou um entusiasta da avaliação da política com o método da economia, acredito que políticos ofertam seus discursos de acordo com a demanda de seus eleitores. Isso quer dizer que o mesmo sentimento “fora corruptos” que hoje crucifica Sarney, foi um dos motivos que o levaram ao seu primeiro cargo de governador, quase 50 anos atrás.

Essa é uma das principais lições sobre política que esse curta oferece. No Brasil existe ainda uma cultura personalista da política; uma ideia de que se colocarmos as pessoas certas no poder as coisas irão dar certo. Foi esse sentimento que colocou Sarney no poder em 66, Collor em 90, Lula em 03, e provavelmente será o sentimento que irá eleger um sucessor do PT sabe-se lá quando. Certos políticos como Marina Silva, Marcelo Freixo, Fernando Gabeira – e antigamente Lula e os políticos do PT –  ganham muitos dos seus votos pela sua fama de “honestos”. O que esse vídeo pode ensinar é que o personalismo não funciona na política. Como Lord Acton ensinou, não existe poder sem corrupção. E corrupção sem poder é inofensiva.

* ECONOMISTA E VENCEDOR DO VIII PRÊMIO DONALD STEWART

Instituto Liberal

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