Mais um caso de transferência de monopólio com nome de privatização

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BERNARDO SANTORO*

Não é a primeira vez, e certamente não será a última, que venho falar das concessões de exploração de bem público travestido do nome de “privatização”. Dessa vez vamos voltar a falar das estradas do Rio de Janeiro, onde o jornal O Globo acabou por servir de fonte de má informação.

Segundo reportagem do jornal, “para evitar aumento da cobrança em estradas privatizadas do Rio, governo pagará R$ 2 bilhões por obras“. O que ocorreu com essas estradas não é privatização, é transferência de gestão de monopólio público. Explico a seguir o conceito.

O normal, de acordo com nossa legislação, é que o governo federal fique responsável por estradas interestaduais (as famosas BR-“um número qualquer”) e os governos estaduais pelas estradas intermunicipais (no caso do Rio de Janeiro, RJ-“um número qualquer”).

O governo FHC promoveu, sob o nome de privatização, a transferência, por tempo limitado (20, 30 ou 35 anos), da gestão de várias estradas federais. É uma transferência de gestão, e não uma transferência de propriedade, porque a propriedade continua sendo do governo. A empresa concessionária apenas gere a estrada, cobrando pedágio e reformando a estrada para o governo, em troca de um lucro estipulado pelo próprio concedente.

E também é uma transferência de monopólio, pois garante que não será dada autorização para outra pessoa ou empresa fazer uma estrada ao lado.

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Recomendo que se leia esse artigo para se ter ideia da similaridade de procedimento nessas concessões.

Especificamente quanto ao caso em tela, o pagamento de R$ 2 bilhões do nosso dinheiro público para pagar a reforma dessas estradas é um escárnio.

Primeiro porque os custos da maioria das reformas estão embutidas em contrato, dentro do valor do pedágio pago.

Segundo porque, na hipótese de a empresa realmente não ter dinheiro para arcar com as reformas (o que não é o caso), faz muito mais sentido que então se aumente a tarifa do que pôr dinheiro de todos lá.

Dinheiro público federal na Rio-Petrópolis é obrigar o acreano ou o gaúcho a pagar por uma estrada que ele provavelmente nunca vai usar. Esse é um exemplo grosseiro da necessidade de repartição tributária e desconcentração de poder da União para Estados e Municípios.

Mas para o poder público, é politicamente mais vantajoso deslocar dinheiro federal para lá, que ninguém vai dar falta, pois é um dinheiro já coletado via impostos, do que aumentar uma tarifa que toda a população que usa a estrada vê que está pagando.

O desgaste político da verba insidiosa é mínimo. O desgaste político da tarifa pública e notória é máximo.

E assim vão lucrando empreiteiras (que fazem as reformas), concessionárias (que gerem o monopólio), empreiteiras-concessionárias (como no caso da CCR, que é composta por empreiteiras que lucram nos dois pólos), e políticos, sempre em prejuízo do pagador de impostos.

Precisamos de uma real privatização no setor, com a venda das estradas e facilitação na burocracia para a criação de estradas e outros meios de transporte concorrentes. Somente assim teremos vias de transporte decentes e baratas.

Não deixe um político gerenciar a estrada que você usa. Essa é uma fórmula certa para o prejuízo social.

*DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

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