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Individualismo vs. Coletivismo

JOÃO LUIZ MAUAD *

Meu amigo Joaquim Neto, um dos mais nobres e eruditos liberais que conheço, enviou recentemente este curto vídeo, que apresenta de forma bastante sucinta e didática os dez principais princípios do liberalismo clássico.  Na minha visão particular, o mais importante dos dez é o individualismo.  É a visão individualista que nos difere de forma marcante da maioria das filosofias políticas coletivistas que nos são (foram) opostas.  Infelizmente, entretanto, este é um conceito muito pouco compreendido e facilmente mal interpretado.

Como escrevi alhures, a palavra “individualismo” pode ser empregada de duas maneiras distintas. A primeira não tem sinonímia e é geralmente utilizada em oposição a “coletivismo”. De acordo com o Dicionário Houaiss, individualismo é a “doutrina moral, econômica ou política que valoriza a autonomia individual, em detrimento da hegemonia da coletividade despersonalizada, na busca da liberdade e satisfação das inclinações naturais”. O outro significado é meramente lexical, sem qualquer conotação filosófica, política ou econômica, e diz respeito a certa “tendência, atitude de quem revela pouca ou nenhuma solidariedade e busca viver exclusivamente para si; egoísmo”.

A simples existência desta segunda acepção é suficiente para provocar inúmeras confusões terminológicas e dificultar o correto entendimento filosófico do individualismo, além de fornecer aos coletivistas material precioso para seus ataques e sofismas, invariavelmente calcados num suposto dualismo entre “individualismo” e “altruísmo”, o que, como veremos, é um completo disparate.

É notória a falta de parcimônia com que muitos coletivistas costumam deturpar as teorias e doutrinas que lhes são opostas, o que já não causa nem mais espanto. Infelizmente, no entanto, os próprios adeptos dos princípios individualistas costumam, às vezes, “jogar contra o patrimônio”. Seja por necessidade retórica, falta de cuidado na escolha das palavras ou mero desconhecimento, alguns de nós, liberais, freqüentemente caímos na armadilha de utilizar a palavra “egoísmo” como sinônimo daquilo que Smith chamava de “own interest”“own care” ou “own convenience”.

Outro equívoco bastante comum quando se fala em individualismo é o de vinculá-lo a “isolamento”. Nada poderia ser tão evidentemente estúpido para qualquer ser pensante e, mesmo assim, tenho visto muitos coletivistas dispostos a atacar o liberalismo sob o argumento banal de que o homem é um ser eminentemente cooperativo. Esse é um daqueles tipos de argumentação que chega a ser patético, pois ninguém, muito menos um liberal em sã consciência, poderia negar que a cooperação entre os homens e a vida em sociedade produzem tremendos benefícios para os indivíduos. Nenhum liberal jamais questionaria as enormes vantagens da divisão do trabalho, da associação humana, do comércio voluntário ou qualquer outra interação cooperativa.

A benéfica cooperação entre pessoas, utilizada como um meio para a consecução dos objetivos individuais todavia, não pode ser confundida com o infame ideal coletivista que pretende transformar as sociedades humanas em algo semelhante a uma colmeia ou formigueiro.

Como muito bem colocou o saudoso professor Og Francisco Leme, um dos fundadores deste IL, no magnífico ensaio “Entre os cupins e os homens”, enquanto a abelha, a formiga ou o cupim são insetos cujo comportamento é previsível, estando sempre dispostos à permanente renúncia individual em favor da comunidade, bastando-lhes a programação genética sob cujos auspícios nasceram, o homem, ao contrário, é um animal muito mais complexo. Para este, a vida em sociedade significa coexistir com outros indivíduos, todos diferentes entre si, com propósitos pessoais específicos, interesses diversos e, acima de tudo, com a necessidade de compartilhar valores, princípios e objetivos distintos. O drama de qualquer sociedade, portanto, está no fato de indivíduos, biológica e eticamente diferenciados, possuidores de interesses pessoais muitas vezes conflitantes, terem de ajustar-se a uma coexistência pacífica, em seus próprios benefícios.

Constitui imensa agressão à condição humana a submissão do indivíduo aos propósitos do grupo, seja ele uma raça, uma classe, o Estado, a polis ou mesmo esta fantasia que se convencionou chamar de “bem comum”. São os homens, individualmente, que têm valores, sentimentos, ideais, desejos, ambições, enfim, VIDA. Eis porque a base de toda a filosofia individualista está na crença de que o ser humano é um fim em si mesmo, e não um meio a ser utilizado para fins “maiores”. Os coletivos, ao contrário, não são a personificação do bem, pairando acima dos homens, mas meros agrupamentos de indivíduos para facilitar a consecução dos seus projetos, e, no caso dos estados, zelar pelas suas vidas, liberdades e propriedades.

São diversos os exemplos de experiências (ou tentativas) coletivistas ao longo da história.  Na Era Moderna, as mais famosas são, à esquerda, o comunismo e o anarquismo; à direita, temos o fascismo, o nazismo e, mais recentemente, o neoconservadorismo.  É sobre esta última filosofia, ainda pouco conhecida, mas que já conta com muitos adeptos mundo afora, que pretendo falar no próximo comentário.

* ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Instituto Liberal

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