Barão do Serro Azul – O homem que construiu um império sem pedir licença
Há uma provocação que todo capitalista já ouviu, formulada de infinitas maneiras diferentes, mas sempre com o mesmo veneno implícito: “e essa riqueza toda, de onde veio?” A pressuposição é quase sempre a mesma: se alguém enriqueceu, foi porque roubou, herdou berço de ouro ou se aproveitou da mão de obra alheia. É uma narrativa confortável para quem não aceita discutir trabalho duro, mérito e risco. O tipo de narrativa que a vida e obra de um homem nascido no Paraná, há quase duzentos anos, faz cair por terra.
Ildefonso Pereira Correia — que entraria para a história como o Barão do Serro Azul — não nasceu barão. Seu destino, porém, não seria limitado àquilo que não possuía.
Este é o primeiro de uma série de artigos escritos especialmente para este Instituto Liberal sobre a vida do Barão do Serro Azul, paranaense, empreendedor, abolicionista, liberal e Herói da Pátria.
Um começo que não tinha nada de garantido
Nascido em 1845 na cidade litorânea de Paranagua, Ildefonso tinha apenas 12 anos quando perdeu o pai, o comendador Manuel Francisco Correia. Não havia fortuna esperando por ele, tampouco posição social hereditária. O que havia, isso sim, era uma educação sólida, obtida na cidade do Rio de Janeiro — à época a capital do Império — e uma disposição para o trabalho que se revelaria, décadas depois, a verdadeira base de tudo o que ele construiria. Foi com essa bagagem — instrução, ambição e nenhuma garantia de sucesso — que Ildefonso se lançou à vida adulta.
Aos 27 anos, instalou seu primeiro engenho de erva-mate na cidade de Antonina, também no litoral do Paraná. Uma escolha ousada, mas ainda modesta: um jovem sem fortuna familiar investindo em um negócio regional, num mercado de que ele precisaria criar boa parte. Não havia atalho ou decreto que lhe entregasse fábricas prontas. Havia, porém, a convicção de que, com muito trabalho e boas doses de inovação, seria possível transformar a folha da erva-mate — até então uma cultura de exploração relativamente rudimentar no Paraná — em um negócio próspero e escalável.
E foi exatamente isso que ele fez!
A inovação — e não a sorte — como motor
Ildefonso enxergou oportunidade na construção da Estrada da Graciosa, ligando o litoral ao planalto curitibano, e mudou sua operação para Curitiba. Na capital, adquiriu e modernizou o Engenho Iguaçu e, ao lado do engenheiro mecânico Francisco Camargo Pinto, ergueu o Engenho Tibagy. O detalhe que costuma ser “esquecido” em relatos apressados/enviesados sobre “os barões do mate” é justamente este: Ildefonso não apenas comprou engenhos — ele os modernizou, integrando máquinas a vapor a um processo produtivo que, até então, era básica e majoritariamente artesanal. No setor madeireiro, foi além: acoplou locomotivas a serrarias, multiplicando a capacidade produtiva a ponto de produzir 500 peças de pinho por dia — um volume que, para os padrões da época, beirava o inimaginável.
O resultado não é opinião, mas história e estatística: entre 1870 e 1890, o Barão do Serro Azul tornou-se o maior exportador de erva-mate do Paraná e — atenção ao tamanho disso — o maior produtor de erva-mate do mundo inteiro. Não do Sul. Não do país. O maior produtor do planeta. Um homem que começara com pouquíssimos recursos, num estado periférico do Brasil Império, sob uma economia ainda organizada em torno da mão de obra escrava e de estruturas produtivas limitadas, chegou ao topo absoluto de sua cadeia produtiva por meio de inovação, visão de mercado e capacidade empresarial.
Essa é a definição mais pura de criação de valor: pegar algo que existia de forma dispersa e ineficiente — folhas de erva-mate colhidas de modo rudimentar; madeira extraída sem escala — e, através de capital, tecnologia e organização, transformá-lo em riqueza que antes não existia. Ninguém perdeu para que Ildefonso ganhasse — ainda hoje, um século e meio depois, nós, liberais, precisamos repetir exaustivamente a obviedade: o capitalismo não é uma conta de soma zero!
Curitiba, o Paraná e o Brasil ganharam junto com ele: empregos, exportação, infraestrutura, capital circulando, uma economia regional inteira sendo puxada para cima pela ambição produtiva de um único homem.
O que essa história desmonta
Analisada sob essa ótica, a biografia do Barão deixa de ser apenas a bonita história de um grande paranaense e se torna também um case no debate político-ideológico. A narrativa hoje em voga — replicada em salas de aula, em discursos de campanha, em roteiros de televisão — insiste em tratar quase toda grande fortuna (excetuadas aquelas dos companheiros ideológicos) como fruto de exploração, de proximidade com o poder ou de sorte de berço. É uma narrativa que serve a um propósito claro: deslegitimar o mérito para justificar a expropriação, porcamente disfarçada de “justiça social”.
Ildefonso Pereira Correia não nasceu barão — o título só viria décadas mais tarde, como reconhecimento por sua trajetória, não como ponto de partida. Não herdou fábricas. Construiu-as. Não recebeu concessão estatal para monopolizar a erva-mate — disputou o mercado, inovou no processo produtivo e venceu a concorrência pela superioridade de seus produtos. Se existe exemplo mais didático de que a propriedade privada bem administrada e a liberdade de empreender podem gerar prosperidade real, não apenas para o empreendedor, mas para toda a cadeia ao seu redor, será difícil encontrar um mais claro do que este, bem aqui, na rica história do nosso Paraná (perdoem as loas; este articulista tem muito orgulho de sua terra natal).
Não deixa de ser irônico que tantos que hoje protestam contra o “capitalismo predatório” mal saibam que o maior produtor de erva-mate do mundo, há menos de dois séculos, foi um paranaense que começou como tantos milhões de nossos valentes empreendedores brasileiros — estes, cada vez mais extorquidos por burocracias e impostos de toda ordem.
A história de Ildefonso não é uma exceção que confirma a tese da exploração. Antes, ela demonstra a regra: liberdade de empreender, somada a trabalho e inovação, produz riqueza real — riqueza essa que gera empregos, exportação, infraestrutura e orgulho regional, não miséria alheia.
O empresário que não parou no balanço
Haveria tanto mais a dizer sobre os feitos empresariais do Barão… Seria, porém, um erro — e desperdício — reduzir sua história apenas a esse quesito. Porque Ildefonso Pereira Correia, tendo construído seu império, fez algo que muitos empreendedores bem-sucedidos compreensivelmente evitam: decidiu que sua responsabilidade não se limitaria ao fechamento do balanço anual. Voltou-se, também, para a vida pública; não como quem busca poder para garantir privilégio, mas como quem, tendo prosperado, sente o dever de servir à comunidade que o viu e ajudou a crescer.
É essa decisão — a de um homem rico que escolhe a arena pública movido por convicção, não por interesse — que exploraremos no próximo artigo desta série. Ela vai nos levar a uma das facetas mais admiráveis e, para muitos, menos conhecidas da vida do Barão do Serro Azul: seu papel na luta pela abolição da escravidão em Curitiba, anos antes de o Brasil inteiro ser forçado a lidar com esse capitulo terrível e vergonhoso da historia nacional.
*Marlon Reguelin é empreendedor.



