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Hayek, tecnologia e transformação digital

Um dos mais conceituados economistas do século XX, Friedrich Hayek, traz uma interessante discussão sobre tecnologia e monopólios em seu livro O caminho da servidão. O autor comenta que um dos argumentos empregados para demonstrar a inevitabilidade da planificação da economia, defendida por socialistas, é que as transformações tecnológicas foram tornando impossível a concorrência em campos cada vez mais numerosos, só nos restando escolher entre o controle da produção por monopólios privados ou o controle pelo governo. Porém, esse argumento é facilmente derrubado quando vemos que os monopólios são resultado muitas vezes de conluios e políticas governamentais mal dirigidas. Portanto, lutar contra o avanço tecnológico é de uma insensatez gigantesca, pois esse avanço traz ganhos em produtividade, redução de custos, gera uma infinidade de soluções para os diversos desejos individuais e aumenta nossa liberdade de escolha.

Atualmente, quando falamos de tecnologia, logo mentalizamos a expressão “transformação digital”. Provavelmente, Hayek, se ainda estivesse vivo, complementaria suas discussões em torno do dilema quanto a se essa transformação digital nos limita ou nos liberta enquanto indivíduos em um mesmo nível da discussão sobre tecnologia.

Essa transformação digital empodera as pessoas a usarem a tecnologia de forma descomplicada, inteligente e ágil, fato que potencializa os seus efeitos positivos – vide o acesso ao mundo digital que as redes sociais e smartphones proporcionam à grande parte da população mundial. Porém, essa transformação digital em negócios não é sobre tecnologia. Ela é muito mais sobre cultura, pessoas e processos. O digital é um movimento para disseminar uma nova forma de pensar, uma cultura de uso de dados na tomada de decisão, de colaboração, de adequação ao uso, de experimentação para a inovação de forma descentralizada, autônoma e ágil.

Há quatro vertentes na transformação de processos para o mundo digital: como tratar dados para virar informação e conhecimento; como criar inovação colaborativamente; como adequar usos ao cliente e como acelerar o processo de transformação.

No primeiro tópico, sabemos que o mundo digital gera uma enorme massa de dados que precisam ser tratados para virar conhecimento. Para isso, são utilizadas ferramentas de ciência e engenharia de dados, machine learning e otimização. A consequência é o acesso à informação muito mais fácil, intensificação do poder de transformação pela informação e maior liberdade de escolha pelos clientes. Um exemplo são as pequenas empresas que aumentam significativamente o potencial de seu negócio utilizando redes sociais para engajamento de clientes.

O segundo tópico trata sobre a criação colaborativa e inovação aberta, nas quais os desafios dos negócios são abertos a startups e centros de tecnologia para que soluções em rede sejam criadas. A criação colaborativa traz aceleração de novas soluções, negócios inovadores e abre espaço para novos unicórnios que fomentam empreendedores e aumentam a concorrência de mercado.

A terceira frente de modificação da cultura de transformação digital trata dos processos de adequação ao uso com foco no cliente. Ferramentas como design thinking são utilizadas para gerar empatia e, assim, entender e atender a demandas especificas, criando nichos de mercado e soluções customizadas, o que amplia a concorrência nos mercados. Um exemplo são empresas de plano de saúde focadas em atendimento a idosos. Empreendedores que encontraram um nicho, adequaram a experiência do cliente e geraram produtos e serviços diferenciados em relação à média do mercado, descentralizando poder.

A última frente de transformação trata do ambiente de experimentação que acelera essas mudanças. O conceito de agilidade, no qual há a máxima de fazer rápido, errar rápido e corrigir rápido, cria um ambiente fluido onde há espaço para criatividade e inovação. Como vivemos em um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo, ter soluções e times que sejam  flexíveis e tenham essa cultura de agilidade faz uma enorme diferença. Um exemplo recente é a demanda por implantação de programas de home office devido à pandemia. As empresas que já possuíam a cultura de agilidade se adaptaram muito rapidamente, gerando diferencial competitivo.

Por fim, Hayek afirma que “quanto mais complexo o todo, mais dependemos da divisão de conhecimentos entre indivíduos cujos esforços separados são coordenados pelo mecanismo impessoal, transmissor dessas importantes informações, que denominamos sistema de preços.” Sabemos que economia de mercado, juntamente com avanços tecnológicos e a transformação digital, tornam possível a concorrência em campos cada vez mais numerosos pelo sistema de mercado. Portanto, a transformação digital não nos limita; ela nos liberta a novos caminhos, pois aumenta a liberdade das escolhas individuais, fomenta novos empreendedores, descentraliza poder e gera desenvolvimento ágil e flexível aos diferentes desafios que temos e que estão por vir.

*Alberto Souza Vieira é Associado II do Instituto Líderes do Amanhã. 

Instituto Liberal

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