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Defendendo a menor minoria: a vítima de crime

dylan roof“Os esquerdistas insistem muito sobre a doutrinação estatal dos jovens, e tendem a ver a violência como uma consequência necessária de pontos de vista não-esquerdistas.”

– James Calb

Se a concepção de justiça em voga no país hoje, como vimos, baseia-se numa justiça sempre “social”, que busca sempre encontrar desproporções de poder entre as pessoas, poderíamos tentar aplicar tal conceito para a menor minoria possível.

Ainda menor do que a categoria do “indivíduo”, como propõe Ayn Rand: a vítima de crime violento. Nenhum ser do tecido social está em posição mais passiva e sofredora do que tal vítima – nenhum ser em todo o Universo é mais desprezado pela “justiça social” do que tal vítima. Talvez os fetos.

Quando um crime ocorre, a mentalidade do reformismo social esforça-se para encontrar uma “culpa” da sociedade, ou um erro de planejamento social que precise ser corrigido – e, para tal, precisa de mais planejamento e mais concentração de poder sobre a sociedade para corrigi-la.

Crendo no determinismo de classes sociais (uma pessoa só pensa e age de acordo com sua faixa salarial, a falsa “classe social” a que pertence), um crime é ensejo para o reformismo progressista culpar aspectos da sociedade, mas não o autor de uma ação humana (nome não sem razão da maior obra liberal do mundo).

Se houve um crime, houve apenas uma falha do planejamento, que precisa ser corrigida com mais planejamento e uma concentração maior de poder para lográ-lo. A culpa do crime é da desigualdade. Da arma. Da faca. Da ostentação. Do racismo. Da intolerância. Da sociedade patriarcal e conservadora. Da exploração. Da bandeira dos Confederados, como está sendo o debate agora na América.

Sempre, quase que por mera coincidência, os inimigos da Revolução. Desde os bolcheviques até a esquerda de 140 caracteres, o método permanece rigorosamente idêntico, ainda que não ousem pronunciar a palavra C.

Não há espaço, em um pensamento de reformismo social, para a maldade humana. Para alguém fazer alguma coisa errada sem um motivo “social”.

Jeffrey T. Brown, no imprescindível American Thinker, pergunta por que num caso como do atirador pós-adolescente Dylann Roof, que abriu fogo numa igreja freqüentada por negros para “iniciar uma guerra racial” (lamentando que ninguém concorda com ele), a esquerda culpou tanto “o racismo” (mesmo de um antissocial pervertido sem amigos e ninguém para apoiar sua idéia estúpida), e não o fato de ele ser um doente antissocial malévolo, o tipo de pessoa que seria um pária em qualquer sociedade.

Resposta: porque a esquerda está cheia desse tipo de pessoas. São justamente eles que querem “reformar a sociedade” (como mostrou Andrzej Łobaczewski em Ponerologia: Psicopatas no poder). São estas pessoas que se consideram “livres pensadoras” (e não “frutos de sua classe”), e querem corrigir todo o tecido social pois julgam que ninguém mais é livre, apenas reagindo a estímulos do ambiente como disponibilidade de armas, pobreza e sensação de exclusão.

Contudo, uma visão mais clássica e mais profunda pode ser vista na companhia de Theodor Dalrymple: “A única causa inquestionável da violência, tanto política como criminosa, é a decisão pessoal de a cometer. (…). Deste modo, qualquer estudo sobre a violência que não leve em conta os estados de espírito é incompleto e, na minha opinião, seriamente insuficiente. É Hamlet sem o Príncipe.”

Em termos técnicos e sem a bela poética britânica, esta recusa a enxergar uma dialética interna no homem, sua liberdade interna de escolha com muito mais mecanismos do que o determinismo de faixa salarial e seus conflitos internos – a alma dividida dos românticos, em oposição ao pálido e raso determinismo plano dos naturalistas – acaba por gerar apenas uma visão de realidade que nega a realidade, escondendo-se nos próprios preconceitos.

É normal, para todas as sociedades humanas, haver um código de leis do que é certo e do que é errado, presumindo que os homens sejam livres para suas escolhas e, como faz Sócrates, sigam o mal apenas por ignorância ou, como faz a tradição cristã, que sigam o mal por tentação.

Não há registro de sociedade que tenha perdurado, senão como tirania e força absoluta sobre os indivíduos, negando a escolha e a ação humana, colocando em seu lugar um hino de autoglorificação e de satisfação imediata de desejos como se dá com o determinismo moderno.

O curioso é como esta recusa de enxergar a liberdade humana – incluindo, sempre, a liberdade de empreender, o que é tabu máximo para a esquerda – acaba por deixar justamente os mais indefesos e as maiores vítimas sociais em posição de descarte.

Buscando sempre corrigir a sociedade, não parece haver tempo, compaixão ou mínimo interesse para os intelectuais, jornalistas, acadêmicos e palpitantes se preocuparem com a vítima sob a mira da arma de um criminoso.

Fato ainda mais curioso, já que esquerda e direita, fossem Mao Zedong e Sartre ou Weber e Jouvenel, sabem que o poder verdadeiro vem de quem detém os meios de violência.

De todas as minorias que a esquerda busca defender, tentando encontrar disparidades de poder na sociedade (negros contra brancos, pobres contra ricos, mulheres contra homens, gays contra héteros), falta justamente a única disparidade de poder que é uma linguagem humana universal e absoluta: aquela entre quem segura uma arma e quem está na mira de uma.

Com 64 mil homicídios por ano, é passada a hora de os intelectuais terem um confronto sério entre suas teses sociológicas de “especialistas” com fórmulas prontas e a realidade.

Se queremos lutar pelos mais fracos, os mais fracos são as vítimas de crime. Je suis victime d’un crime.

Esta é uma causa com forte apelo popular, e que mostra à sociedade quem está com a verdade. Enquanto não tomarmos intelectual e praticamente o lado das maiores vítimas, não estaremos apenas perdendo um debate: estaremos perdendo vidas sagradas nas mãos de psicopatas.

E deixando os psicopatas tomarem o poder.

Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para o jornal Gazeta do Povo , além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Lançou seu primeiro pela editora Record Por trás da máscara, sobre os protestos de 2013.

Um comentário em “Defendendo a menor minoria: a vítima de crime

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    29/06/2015 em 3:53 pm
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    Os maus só se detém pela força. – Esopo, século VI a.C.

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