Cegueira obrigatória

Os meus leitores mais atentos deste Instituto Liberal irão recordar de um texto que fiz no fim do ano passado sobre o impeachment de Donald Trump. Coloquei as obviedades temíveis a Guga Chacra e tutti quanti da grande mídia brasileira: é um processo eleitoreiro sem base legal ou evidências factuais, com o único objetivo de manchar a imagem do presidente Trump e render dividendos eleitorais ao Partido Democrata. Falei também que o feitiço iria virar contra o feiticeiro e aprovação de Trump iria aumentar, em contraste com a aceitação de seu processo de destituição.

E não é que a coisa realmente aconteceu? Donald Trump tem uma aprovação de 47% segundo uma pesquisa da ABC News/ The Washington Post. Dois detalhes importantes desse índice: os dois veículos de comunicação são insuspeitos de qualquer direitismo possível – ambos são esquerdistas até a medula. Outro detalhe é que aprovação de Trump está mais alta do que nunca segundo a tal pesquisa – a marca só foi atingida apenas uma vez durante o seu mandato.

Como um presidente consegue aumentar sua popularidade ao mesmo tempo em que está a encarar uma tentativa de destituição?

Simples: o povo americano não é tão idiota quanto alguns esquerdistas presunçosos acreditam. Ele tem a plena consciência da natureza do debate político, sendo ele nada mais que subproduto da disputa intelectual entre progressistas e conservadores. Enquanto o Partido Democrata quer a submissão total da soberania americana aos organismos supranacionais como a ONU, a subversão do sentido original da Constituição americana, a destruição dos valores cristãos fundantes da nação americana com o progressismo moral e a crescente estatização da economia, o Partido Republicano defende a soberania dos EUA frente ao globalismo, a interpretação original da Constituição, o combate ao multiculturalismo daninho com a defesa da cultura cristã e o livre mercado como modelo econômico. Todos os embates no Legislativo, na mídia e nos campos culturais estão primeiro nos livros e refletem o quadro geral das plataformas políticas defendidas pelos dois grandes partidos.

Isso acarreta a completa desmoralização da mídia americana no debate político. Quem se informa apenas pelo beautiful people midiático e tira conclusões a partir disso é completamente ridicularizado nos EUA. Todos conhecem a desonestidade da imprensa e a superficialidade na divulgação de informações, conteúdos e narrativas. Não é por acaso que portais de mídia independentes como o RealClearPolitics e radialistas como Rush Limbaugh dão de dez a zero em audiência e qualidade.

Mas para a classe jornalística e os ditos formadores de opinião brasileiros, a coisa é diferente. O que sai no The New York Times ou no The Washington Post é tido como verdade absoluta e incontestável. Qualquer coisa dita contra as informações dos dois jornais é logo classificada como ‘’fake news’’. A simples contestação da banda esquerdista da imprensa é tratada com deboche e puro desdém na grande mídia brasileira. Não se pode contrariar as opiniões iluminadas dos donos da verdade, pois isso é a negação da realidade. E quem define o que é realidade? Bingo! Os próprios jornalistas.

Com esse quadro mental, é totalmente explicável o porquê do espanto de algumas pessoas com o aumento da aprovação do presidente Trump. No Brasil as pessoas só conhecem a TV e os portais da grande mídia como fontes de informação e toda e qualquer fonte diferente é tratada com preconceito e falta de credibilidade. Conhecer os EUA pelo que sai na Globo ou na Folha de S. Paulo é pedir para ser feito de trouxa. O abismo entre os EUA da mídia e os EUA da vida real é gigantesco.

A coisa era previsível: o processo de impeachment contra Trump é mais uma tentativa de tirá-lo da Casa Branca no supetão, a passar por cima da Constituição. O Russiagate durou quase dois anos e a conclusão foi de que Trump não cometeu nenhum crime – quando os engraçadinhos progressistas davam o conluio de sua campanha com a ditadura russa como coisa certa. Ficou bastante claro ao país o desrespeito pela ética e pelas leis americanas do Partido Democrata quando o ocupante da Casa Branca não é um dos seus. As narrativas jurídicas de possíveis crimes do presidente Trump não passam de vãs tentativas de colocá-lo contra a população.

Óbvio que a sua base eleitoral não iria ficar de braços cruzados frente à incriminação fajuta de seu líder. Com o advento do impeachment, o Partido Republicano se uniu de forma coesa. O eleitorado independente não comprou a ideia, pois, além de achá-la fraca e oportunista, sabia do risco para o crescimento da economia americana e das conquistas do mandato de Trump. A pesquisa da ABC simboliza em números a consequência óbvia notada por quem acompanha a política americana de fato.

Não para os iluminados da grande mídia brasileira. Demétrio Magnoli, por exemplo, disse que a democracia americana sai manchada pelo partidarismo no julgamento de Trump no Senado e ilustrou isso usando uma declaração do líder da maioria republicana, Mitch McConnell, de que ele não seria imparcial. Ora, Demétrio acredita mesmo que os democratas na Câmara foram justos e equilibrados ao votarem contra o presidente? Ou o Partido Democrata tem o monopólio da ação motivada pelo partidarismo?

Se você quiser continuar acreditando em tudo que vê na imprensa brasileira, é um direito seu. Todo mundo tem direito de ser idiota – nem que seja só um pouquinho. Em um país onde uma jornalista diz que Gilberto Gil foi um bom ministro da Cultura, nada mais me causa espanto. Nem a cegueira obrigatória.

Referências:

1.https://www.institutoliberal.org.br/blog/a-estupidez-democrata-comeca-a-cobrar-seu-alto-preco/

2.https://www.realclearpolitics.com/epolls/other/president_trump_job_approval-6179.html

3.https://www.aa.com.tr/en/americas/impeachment-inquiry-surges-trumps-approval-ratings/1708520

Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.