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Cancelamento: uma ferramenta da liberdade

Quando pensamos na cultura do cancelamento, o que vem à mente é quão chato o mundo está se tornando. Entretanto, esse pensamento é raso demais para a profundidade do tema. Primeiramente, precisamos entender o que são esses cancelamentos, por que eles estão se tornando cada vez mais frequentes, seu impacto no nosso cotidiano e qual seria um provável futuro deste dito movimento.

O cancelamento pode ser descrito de forma bem simples: a associação voluntária de indivíduos com o objetivo de suprimir, de forma não coercitiva, o trabalho ou a opinião de outra pessoa. Um caso prático seria o do jornalista e autor Leandro Narloch que, após citar um dado, não uma opinião, ao vivo no canal CNN, sofreu uma forte corrente de críticas que levaram a emissora a rescindir o contrato com o jornalista.

Apesar do absurdo de se criticar quem profere um dado objetivo, a livre associação e expressão que são a base de uma sociedade livre foram exercidas de forma legítima pelos “canceladores”. O resultado incomoda qualquer um que faça uso de sua capacidade cognitiva, porém as premissas de liberdade não foram violadas. Nas palavras do próprio Ludwig von Mises, um indivíduo deve ser livre até para ser idiota.

Partindo da compreensão de que não há nada fundamentalmente errado em “cancelar” alguém, é um exercício interessante procurar entender a origem deste protocolo de manifestação. Na realidade, cancelamentos não são novidade, emissoras sempre fecharam suas portas às pessoas que não compartilhavam de suas ideias, movimentos estudantis nunca concederam o púlpito a quem pensasse diferente. Por que apenas recentemente passamos a nos incomodar tanto com os cancelamentos?

A chegada das redes sociais abalou as estruturas de como ideias e informações podem chegar às pessoas. Passou a ser possível que qualquer um atingisse, sem consentimento das emissoras ou membros mais proeminentes dos diretórios estudantis, um número considerável de outros indivíduos.

Com a perda do domínio de poucos atores sobre a informação disponível, houve um hiato de cancelamentos; durante 5 ou 10 anos, ficou difícil para a dita intelligentsia dominar a difusão de ideias. Durante esse curto espaço de tempo, vivemos talvez o período com a maior divulgação de ideias divergentes já visto. Isso não foi exclusividade do Brasil; em todo o mundo, nações como Egito, Tunísia, Ucrânia e até mesmo os Estados Unidos viram o establishment ser transformado ou pelo menos abalado devido à maior difusão de ideias divergentes.

Como reação natural, um movimento contrário que busca restabelecer o antigo paradigma começa a tomar forma. Contudo, como quem tenta revidar a um forte golpe, o movimento atual de cancelamentos é mais violento e cruel. Não se esconde atrás de justificativas como o traço de audiência, é feito de forma explícita com inimigos bem definidos e, apesar de contraditório, o grande foco dos cancelamentos são os defensores das ideias da liberdade. O que acaba por criar uma grande armadilha.

Criticar os cancelamentos é 100% legítimo, mas, de forma alguma, um defensor da livre associação e expressão deveria enxergá-los como um ataque à liberdade. Ser foco do contraditório ataque da intelligentsia é na verdade um indicador de que a liberdade está funcionando e que ainda existe a possibilidade de se expressar abertamente.

Claro, quem defende a liberdade deve estar em eterna vigilância. Muitas vezes, déspotas embalados pelo ímpeto de um cancelamento legítimo rompem com a letra da Constituição e atacam a liberdade. Casos emblemáticos como o do comediante Danilo Gentili, que foi condenado à prisão por fazer uma piada com a deputada Maria do Rosário, deixam bem claro o risco de se confundir livre associação e expressão com a coerção e intimidação.

Como um otimista, eu particularmente acredito que este tipo de coerção seja uma exceção, e que, ao fim do longo trâmite processual, a Constituição e a liberdade de expressão irão prevalecer. Assim como acredito que essa onda de cancelamentos irá se autoajustar. Afinal, os cancelamentos são formas muito efetivas de se expurgarem pensamentos racistas, xenófobos, homofóbicos e tantos outros de nossa sociedade, depurando-a em direção à liberdade e à prosperidade.

Portanto, não vejo motivo para se lutar contra o cancelamento, muito pelo contrário. O cancelamento é uma maneira legítima, a par do estado, para evoluir a moral sobre a qual construímos nossos valores.

*Giulliano Silva Siviero é Associado III do Instituto Líderes do Amanhã.

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