Breve reflexão sobre a gorjeta

MARIO GUERREIRO *

Saiu no Portal de Notícias do Senado, o resultado de uma pesquisa feita pelo próprio Senado:

INTERNAUTA DISCORDA DE GORJETA NO VALOR DE 20% PARA GARÇONS

“A maioria dos internautas, quase 87%, votou contra a proposta do projeto que autoriza a cobrança de gorjeta no valor de 20% sobre a conta, para garçons, entre as 23h e as 6h do dia seguinte. O DataSenado realizou a enquete entre os dias 01 e 15 de agosto, no site do Senado.”

* * *

Antes de tecer qualquer comentário sobre essa notinha, quero dizer duas coisas:

Primeira: apesar de ter crescido muito, o número de internautas no Brasil ainda é muito pequeno, e menor ainda o dos internautas que acessam sites do governo, como o do Senado.

Daí que essa maioria de 87% deve ser vista com ressalvas quando não dispomos de pesquisas de opinião pública mais abrangentes, como as do IBGE, de modo a fazer uma comparação, para chegar a uma conclusão mais segura.

Segunda: pelo que sabemos, a gorjeta fixada em 10%, embora prática bastante disseminada em restaurantes de todo o Brasil, não é uma obrigação imposta por nenhuma lei. Quando muito, é uma portaria decretada por algum burocrata, coisa que costuma assumir ares de lei neste país.

De qualquer forma, concordo inteiramente com os 87% de internautas: sou radicalmente contra gorjeta de 20%!

Sem entrar em outras considerações, caso esse projeto se transforme em lei, pode ter um efeito bastante desejável para a categoria dos garçons, mas extremamente indesejável para os donos de restaurantes e seus clientes.

Em épocas de crise, em que muita gente costuma fazer cortes de despesas, os primeiros cortes são justamente os de freqüentar restaurantes e de outras despesas com o lazer.

Tendo que dar gorjetas de 20% – coisa bastante salgada para muita gente – os cortes tendem a ser em muito maior número, criando assim o risco de deixar muitos restaurantes às moscas.

Será que é isto mesmo que o autor do projeto deseja ou uma conseqüência não-pretendida, porém decorrente de sua medida?

Diante dessa afirmação, já posso imaginar o que alguns dos leitores açodados devem estar pensando: “Que sujeito reacionário! Como pode alguém ser contra os garçons, que ganham tão pouco, receberem mais pelos serviços prestados aos clientes!”

Se isto é ser reacionário, eu poderia responder com aquela famosa passagem do saudoso Nelson Rodrigues: “Subo em cima da mesa e digo para quem quiser e quem não quiser ouvir: sou o maior reacionário do Brasil”.

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Mas não digo isso. Digo que sou contra a gorjeta de 20% por uma simples e singela razão: sou contra qualquer valor de gorjeta obrigado por lei.

Há coisas que a legislação faria melhor, se não metesse o bedelho intervindo na ordem espontânea dos costumes.

Embora seja algo essencialmente distinto de um ato de caridade ou de filantropia – duas coisas extremamente louváveis – a gorjeta deve ser como uma doação feita a uma instituição caritativa ou como a doação que um fiel deposita na caixinha após uma missa. Se for católico, é claro.

Cada um deve dar ou não dar, conforme sua consciência manda. Se der, que dê o que pode e deseja sinceramente dar.

E ainda que esteja em jogo uma quantia fixada por mês, como o dízimo das igrejas evangélicas – 10% do que cada crente ganha com o suor de seu rosto – continua sendo coisa que se passa na esfera privada e continua sendo um ato livre e espontâneo do fiel.

Nenhum pastor sério obriga suas ovelhas a pagar o dízimo e, se as obriga, é por que não é sério. Se o pagamento for obrigatório, o dízimo passa a ser mensalidade de clube ou tributo. Mas templo não é clube e tributo só pode ser cobrado pelo Estado.

Imposto – não devemos nunca esquecer – é o particípio passado do verbo “impor” e, por isso mesmo, não é coisa facultativa e sim compulsória. É o preço que todos nós pagamos pelo custo do Estado, um mal necessário.

Mas, cada macaco no seu galho. Se cabe ao Estado, e somente ao Estado, cobrar impostos – coisa aceita pelo próprio Cristo no episódio bíblico: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, cabe à esfera privada fazer tais coisas facultativas como praticar ou não caridade, pagar ou não dízimo, dar ou não gorjeta.

É um ledo engano pensar que a gorjeta é um pagamento pelo serviço prestado pelo garçom, pois ele já recebe um salário pago pelo dono do restaurante em que trabalha.

A gorjeta é um adicional que alguns restaurantes obrigam, mediante um ato autoritário, seus clientes a pagar. Mas só tem sentido se for como uma forma de agradecimento pelo bom serviço prestado pelo garçom.

Mas quem disse que os garçons prestam sempre bons serviços; sempre atendem com prontidão e cordialmente o cliente?

Ora, sabemos que tais coisas nem sempre ocorrem. E se não ocorrem, por que raios o cliente tem que ser obrigado a pagar pelo atendimento, seja ele excelente ou péssimo?

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Não conheço nenhuma história da gorjeta, mas não é difícil acionar a imaginação e imaginar como ela poderia ter surgido e se enraizado na sociedade.

Em quaisquer restaurantes, em quaisquer países, alguns clientes muito satisfeitos com o atendimento prestado por positivos e operantes garçons – mesmo sabendo que eles eram pagos para prestá-los – resolveram dar a eles uma gratificação: atos espontâneos despontando na interação social.

É claro que tudo dependia do grau de generosidade e do poder aquisitivo de cada cliente. Desse modo, alguns davam uma merrequinha, outros davam uma boa grana e outros ainda não davam nada.

Não era de estranhar que alguns dessem muito e outros dessem pouco ou nada e, em contrapartida, alguns garçons ficassem muito satisfeitos e outros bastante insatisfeitos.

Para diminuir tanto a insatisfação de uns como a satisfação de outros, em alguns restaurantes os garçons se reuniram e resolveram criar “a caixinha única”.

Polpudas ou minguadas, todas as gorjetas eram depositadas numa caixa e, ao final da noite, o total era dividido igualmente por todos os garçons.

Até aí, um costume gerado pela decisão de um grupo de profissionais com todo o direito de fazer tal coisa.

Um desses garçons trabalhava de dia para pagar a universidade em que estudava à noite, exatamente como Milton Friedman, filho de imigrantes judeus-russos, que trabalhou como garçom no Brooklyn (NY).

Formou-se em Economia, foi professor da Universidade de Chicago, escreveu Capitalismo e Liberdade e acabou recebendo o Prêmio Nobel em 1976 – um autêntico self-made man digno de todos os elogios!

Esse garçom perspicaz foi reclamar com o dono do restaurante.

Não achava justo que ele – que recebia boas gorjetas dos clientes por exercer bem seu ofício – tivesse que dividir seu dinheiro com outros garçons que recebiam pouco, justamente por não prestarem bons serviços ou, por uma questão de má sorte, atenderem muito mais clientes sovinas do que generosos.

O dono do restaurante acabou encontrando uma solução “democrática”, capaz de agradar a maioria: os garçons não podiam receber mais gorjetas.

Ficaria fixada uma taxa de 10% do preço da refeição, a ser cobrada dos clientes e o montante seria distribuído igualmente por todos os garçons.

Isso, caso o dono do restaurante não decidisse se apropriar do dinheiro das gorjetas, uma vez que ele ia diretamente para a caixa e era repassado para os garçons.

É preciso frisar que se alguns restaurantes adotaram essa prática, outros a rejeitaram, mantendo a gorjeta um procedimento facultativo a ser dada conforme a quantia desejada pelo cliente ou simplesmente não dada.

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Mas é justamente aí que o autor do projeto de lei de 20% quer meter o nariz onde não é chamado, transformando o costume de alguns restaurantes em lei a ser seguida por todos.

E desse modo, uma medida igualitarista acaba com uma prática meritocrática!

Que motivo teriam os garçons para desempenharem um bom atendimento aos clientes se, atendendo bem ou atendendo mal, eles ganhariam a mesma coisa?

Na finada União Soviética, todos os táxis em Moscou e em outras cidades soviéticas eram do Estado. Os taxistas, embora cobrassem pelo taxímetro, não recebiam pelo taxímetro nem pela corrida. Ganhavam todos o mesmo salário estabelecido pelo Estado.

Um amigo meu me contou a dificuldade de conseguir parar um táxi em Moscou. Ele fazia sinal, mas nenhum táxi parava.

Pegando muitos ou poucos passageiros, o salário do taxista era o mesmo. Sendo assim, os taxistas ficavam passeando pela cidade e só paravam para pegar um passageiro quando era uma mulher. E, mesmo assim, se não fosse muito feia…

Comentando sua dificuldade com um russo conhecido dele, este lhe mostrou o caminho das pedras. Bastava que ele fizesse sinal para o táxi com dois ou três maços de cigarro americano na mão.

Ainda que o taxista fosse um antitabagista convicto, ele pararia imediatamente o carro. Com maços de cigarro americano, ele podia se dirigir à Praça do Escambo e trocar por roupa, comida ou qualquer outra coisa que lhe agradasse e o outro oferecesse a ser trocada.

Generalize-se isto a todas as profissões em que os profissionais podem trabalhar bem e muito ou mal e pouco, mas devem receber conforme sua produtividade.

No pain, no gain, so said Sir Gwain. E até as profissionais do sexo adotaram lema semelhante: No pay, no play, so said Susan May.

* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.

 

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REF. IMAGENS: WIKIPÉDIA; RELEITURAS.COM [NELSON RODRIGUES]

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