Bolsonaro: um caso de renúncia?

Não há possibilidades de se comparar Jair Bolsonaro com nada do PT. O grau de desonestidade, irresponsabilidade, de amor ao ódio, de propagação do mesmo, de apoio a ideologias odiosas, é totalmente discrepante.

Enquanto Bolsonaro realmente abaixa a cabeça para a Constituição, o PT não apenas comprava o judiciário e o parlamento como também tentava passar coisas como o terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, que basicamente destruía a liberdade religiosa e de imprensa.

Mas não há possibilidades de se apoiar a total falta de bom senso e responsabilidade que o presidente possui. Não apenas no destrato (embora muitas vezes merecido) com os meios de comunicação, sua falta de tato, jogo de cintura, como também em sua forma jocosa e indecorosa de lidar com certos problemas reais do país.

O caso de Flávio, seu filho e senador, parece ser claro: ele vota contra o próprio pai, se alia com a esquerda no Senado, porém nem assim recebe algum freio parental ou presidencial – nenhum contato entre Jair e Flávio parece ter ocorrido, isso para não falar da aprovação estranha do Juiz de Garantias (pauta do PSOL!) e outras bizarrices que apenas o parlamento brasileiro consegue conceber e aprovar.

Talvez o que aconteceu neste último domingo seja a última gota d’água. Incentivar a população que o apoia a ser vulnerável durante um cenário de pandemia é tudo, menos o que um presidente da República poderia fazer. A atitude se transforma não em uma piada, mas em um crime. Não serão os manifestantes jovens que irão sofrer com a inevitável disseminação da doença, mas sim os idosos e, pior ainda, os parentes e familiares mais velhos desses mesmos manifestantes. Ao apoiar o ato, Bolsonaro assinou contra a saúde de milhares de brasileiros – ironicamente, os que correrão risco serão justamente aqueles que mais votaram nele: os anciãos.

Com isso vem uma questão: seria isso um caso para justificar a renúncia do presidente? Sabemos que, comparado ao PT, Bolsonaro é menos do que uma criança arteira, porém essa irresponsabilidade não pode ser ignorada. A segurança e o bem-estar da população foram ameaçados pelo seu presidente e este é o fato incontestável. O que fazer?

A renúncia, infelizmente, me parece a opção mais moral. Argumentar contra esse fato só porque seus antecessores políticos foram o que houve de pior no país desde a redemocratização é um atestado de infantilidade crônica. É irrelevante para o caso atual se o PT acredita que a Venezuela é um ideal democrático; é não apenas uma idiotice, mas também uma burrice crer que devemos ignorar um ato dantesco só porque existem outros piores no passado recente.

Mas talvez a própria ironia trabalhe para que isso ocorra. Ao apertar várias mãos, o nosso competente presidente fez algo que pode levá-lo a uma renúncia forçada: ele pode ter contraído a doença e, estando no grupo de risco, não poderá exercer o cargo doente. Se a Ironia fosse uma deidade atuante na História, diria que ela trabalha nos detalhes.

Longe de minha pessoa querer que qualquer um seja infectado e, sendo honesto, melhor para o governo, para a direita e para o país que zero pessoas sejam atingidas por essa nova moléstia nas manifestações… mas infelizmente esse cenário não parece ser plausível. Com um vírus letal e novo sendo espalhado pelo próprio guardião da nação, só há um único caminho a se seguir, e ele não será menos que amargo.

Mas ainda existe uma pergunta final: o que a direita mais fanática e burra alegará quando a consequência de seus atos bater em suas portas? Quando os hospitais públicos ficarem abarrotados de idosos moribundos e todas as câmeras da mídia malvada forem apontadas? Irão alegar que isso é uma manipulação da velha mídia? Vão espernear dizendo que, se apontarem a realidade, “o PT vai voltar”? Ou – e isso é mais improvável do que o Coelho da Páscoa passar aqui em casa – retornarão às suas raízes espirituais e intelectuais para encarar as consequências de peito aberto e admitir o erro? Irão voltar às palavras de Jesus, Sócrates, Sto. Tomás, Kirk, Chesterton, Lewis, Burke, Scruton, ou quem sabe… o antigo Olavo de Carvalho? Afinal, são as fontes mais preciosas para um conservador.

Mas como disse… é mais fácil o caso do Coelho da Páscoa.

Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduado e Mestrando em História pela Universidade Federal Fluminense.