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As estatísticas, a medicina e a cloroquina

“Existem mentiras, mentiras malditas e as estatísticas”, foi o que disse Mark Twain. Apesar disso, boa parte da ciência médica é baseada em estudos e depende amplamente desses números.

A medicina do século XXI lembra muito pouco a medicina dos descendentes de Hipócrates. Não que o conforto aos enfermos e aos familiares dos moribundos tenha sido alterado, mas o avanço tecnológico e a rápida comunicação têm mudado a prática da medicina dos últimos 50 anos. Não mais são aceitas prescrições de emplastos e elixires, mas de medicações testadas e retestadas ao extremo, em inúmeras pesquisas, comparando medicações e condutas em um infinito número de pacientes, de regiões, idades e contextos diferentes. Tudo isso está impregnado no pensamento do médico atual.

Então chega 2020, trazendo do ano anterior a peste do mundo globalizado que se alastra por todos os cantos do globo, tal qual as informações e colocando à prova tudo o que as pessoas tinham como certezas. Uma doença que se espalha rapidamente, não só de uma pessoa para outra, mas de um continente para outro. O mundo ficou sem tempo de descobrir quais os fatores que diferenciam os enfermos que sofrem de um “resfriadinho” dos que perecem, tampouco quais as possíveis opções de tratamento à disposição dos médicos. 

A busca desesperada por opções dispara uma força tarefa mundial de hipóteses e testes, até que, na França, lembrando de um antigo estudo contra um vírus parente do até há pouco desconhecido COVID-19, surge uma droga antiga com um provável efeito benéfico… A hidroxicloroquina. 

Considerada uma possível salvação, a medicação, derivada da cloroquina, tão usada nos trópicos para o tratamento e até profilaxia de malária, poderia ter um efeito benéfico. Logo após essa revelação, o chefe de estado da maior potência mundial declara a possível cura, e junto com ela, a corrida para a confecção da droga. Entretanto, esquecem-se de avisar aos políticos que de nada adianta uma medicação sem os devidos testes comparativos.

Para ser considerada uma opção segura, precisamos comparar em um grupo suficiente de pacientes, com aproximadamente o mesmo risco, para a estatística ter o poder de discernir o real efeito da pura sorte. Além disso, estudos precisam ser comparados entre si, a “metanálise” que o estudioso sempre busca para consentir no uso da medicação. Os estudos disponíveis até o momento não a comparavam com outra droga, nem mesmo com placebo (aquele comprimido sem efeito algum). Mais estudos eram necessários. 

Mas o que fazer enquanto isso? O mundo padecendo, enclausurado, precisava de uma solução e precisava agora, não poderia esperar. Centenas de pesquisadores entraram na corrida para testar a droga, testar contra outras drogas antigas e modernas, buscando o efeito real no organismo doente. Após os primeiros estudos, nota-se pouco ou nenhum efeito em pacientes severamente afetados pela doença. 

Talvez seja um engano administrar apenas nas fases terminais da doença, talvez iniciar o tratamento no início dos sintomas seja a solução. Essa hipótese cria um problema para a pesquisa. Para diferenciar o efeito em um paciente gravemente doente, poucos indivíduos já são suficientes; entretanto em uma doença cuja maior parte dos afetados não desenvolve um quadro grave, a mudança de efeito necessita de um gigantesco número de pacientes. Então aguardamos ainda mais…

O que o terapeuta pode fazer enquanto os estudos estão em curso com o paciente à sua frente? Até o presidente está falando que qualquer um pode tomar, é seguro, “é usado há anos”. 

Desanimadoramente, os estudos maiores vão sendo liberados, cada vez mostrando mais pífio o efeito e cada vez mais mostrando os sérios efeitos adversos.

“Tem risco doutor?”, é o que pergunta todo paciente assustado com seu quadro e que busca no seu médico um simples “não, tudo vai dar certo” – mas não para esse profissional munido de tudo o que a ciência tem para dizer, que sempre diz “segundo estudos, essa medicação traz um risco de X, mas tem uma probabilidade de Y de funcionar, podemos tentar”. Mas quando o risco começa a superar o benefício? Não fazer nada pode ser uma opção? Esperar outras drogas chegarem, quem tem esse tempo?

Após a liberação da portaria do conturbado ministério da saúde contendo no texto todos os “poréns” do uso da hidroxicloroquina, ao mesmo tempo demonstrando as dosagens como guia para a prescrição para o brasileiro em todo o país, os especialistas se dividem. De um lado ficam os que condenam o documento publicado, do outro os que agradecem a liberação do tratamento para o sistema público. Surge a angústia do profissional de saúde na ponta. Mesmo não tendo outra opção, deve ele abster-se de entregar essa dose de esperança ao enfermo, mesmo sabendo dos riscos? 

Eis que o médico mantém em mente seu juramento, com a frase atribuída ao próprio Hipócrates “não administrarei veneno a quem quer que me peça, nem tomarei a iniciativa de sugerir seu uso”, mas a pressão social e a insegurança dos dados disponíveis não deixam clara qual a conduta a seguir.

A medicina é uma atividade de meio e não pode prometer como resultado a cura, mas sim os meios comprovados pela ciência como a melhor forma de agir. No momento, não temos certeza do benefício do uso. Ele pode ser feito apenas de forma individualizada, preferencialmente junto a algum estudo para aprimorar o conhecimento científico e sempre com o consentimento do paciente, por se tratar não só de uso “off-label” mas também de medicação experimental. 

O risco surge quando o médico incorre em imperícia ou em imprudência, ou seja, por seu ímpeto de tentar a cura, deixa de lembrar do método científico que contribuiu para a evolução dessa apaixonante profissão. 

Diante disso aconselho, caso o leitor necessite de atenção médica devido a esse flagelo, a conversar com seu médico, expondo seus sintomas, assim como seus medos. Lembre-se de que do outro lado existe um ser humano que, em sua medida, também está angustiado pelo desconhecido. Escute suas recomendações, baseadas no melhor que a ciência tem a dizer até o momento – essa é mesma ciência que há séculos vem melhorando o mundo. Não escute a recomendação de desconhecidos no Twitter, Facebook ou mesmo de presidente de qualquer país. Esse à sua frente também está esperando alguma droga milagrosa para ajudar, mas essa droga infelizmente não parece ser a cloroquina, tampouco a hidroxicloroquina.

*Guilherme Peterson é médico.

Instituto Liberal

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