A saga brasileira vista por Bruno Garschagen

Tamanho sucesso está fazendo o best seller nacional Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado que muitas resenhas excelentes já foram escritas a respeito. Decidi fazer eu mesmo também a minha referência, não por acreditar que tenha algo substantivo a acrescentar, mas porque, provavelmente mais […]

pare de acreditar no governoTamanho sucesso está fazendo o best seller nacional Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado que muitas resenhas excelentes já foram escritas a respeito. Decidi fazer eu mesmo também a minha referência, não por acreditar que tenha algo substantivo a acrescentar, mas porque, provavelmente mais do que muitos outros leitores que se dispuseram a escrever sobre suas impressões, tenho um agradecimento especial a fazer ao autor.

Bruno Garschagen é um cientista político, integrante distinto da equipe do Instituto Mises Brasil, que se notabilizou por seus estudos em política na Inglaterra, com destaque para o conservadorismo britânico. Apesar de nascido brasileiro, ele mesmo confessa que sua formação intelectual e sua vinculação de aspirações e referências simbólicas sempre foram marcadamente estrangeiras, dado o seu foco de interesse. Foi durante a realização deste livro que ele conseguiu construir uma identificação com sua pátria de origem, sobretudo a partir do conhecimento da elite política do Segundo Reinado. Ele teria sido, apesar de já o acompanhar entre todos os articulistas e estudiosos de vertentes políticas avessas ao utopismo de esquerda reinante (ou ao que ele e Michael Oakeshott chamam de “política da fé”), um dos últimos que eu imaginaria produzindo um trabalho como esse que ele acaba de lançar pela Record. Minha posição, embora eu não seja mais do que um sujeito de convicções que procura escrever sobre elas neste modesto espaço, é bem oposta na linha cronológica. Quase todas as minhas afinidades e simpatias sempre foram tipicamente brasileiras – e de que outra maneira se poderia dar com um “sambista carioca”? Gosto de torcer para o meu clube de futebol – assunto que, aliás, motiva instigante crítica ao começo da obra de Garschagen -, gosto da minha bandeira – talvez minha única ressalva ao ótimo livro, diga-se de passagem; apesar de entender sua crítica à influência positivista sobre o lema Ordem e Progresso, não consigo chamá-la de “medonha”, mereça ou não -, gosto do nosso clima tropical e do sambinha no fim de semana. Foi a partir do Brasil e do meu vínculo com a nossa realidade que eu parti para qualquer referencial teórico estrangeiro que me viesse a interessar, ajudando a distinguir nossas misérias e nossas necessidades. Para tudo, porém, não deixo de dirigir um olhar de alguma sorte embebido da atmosfera tupiniquim. Para o bem ou para o mal, seja a trajetória brasileira um épico ou uma ópera bufa, sou um microscópico personagem dela. Atravessam-me seus ditames, seus elementos, suas conquistas e tragédias. Apaixona-me entendê-la, por ser isso imperioso para que eu entenda a mim mesmo.

Falta na literatura e nas reflexões liberais e conservadoras, tão em voga nestes últimos tempos no país – para felicidade da nação! -, conteúdo que se debruce sobre a alma brasileira. Que se debruce com senso crítico, com a intenção de detectar, na esfera cultural do país, as raízes de suas robustas dificuldades e das mazelas a serem combatidas – especialmente essa predileção irracional pelo agigantamento do Estado e o desprestígio ao livre empreendimento e ao capitalista bem-sucedido, ao mesmo tempo em que se repudiam e atacam todos os políticos como “agentes de corrupção ímpar no mundo”.  Entretanto, que, ao mesmo tempo, se debruce sobre isso com respeito; que se debruce entendendo que fala a um público heterogêneo sobre política, e que precisa fazê-lo com clareza, com objetividade (Garschagen acrescenta ainda uma fina ironia, que diverte o leitor), mas, para além disso, que compreenda que precisa fazê-lo sem devastar o moral do seu público. Precisa despertar nele o interesse pela mudança, que, na minha visão, só virá a partir da identificação emocional e simbólica com o objeto que se quer melhorar.

Esse objeto é o Brasil. Jamais entendi como lutar e se engajar por algo sem amá-lo. Apenas espezinhá-lo e tratá-lo como um desastre irrecuperável, com um povo irremediavelmente desgraçado – dizendo tudo isso a esse mesmo povo e querendo atingí-lo com isso -, seria e é um suicídio político. Traçando a trajetória cultural e política do país, Garschagen mostra não apenas o que precisa ser combatido, mas também faz menção a figuras e referenciais em que podemos nos espelhar; nomes como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Rio Branco, Visconde de Cairu, Carlos Lacerda, passeiam pelas páginas de sua obra, com seus erros e acertos, mas, sobretudo, com seu brilho. Sempre acreditei que parte da nossa solução passa por resgatarmos esses referenciais do passado para reconstruirmos com eles as bases de um ideário de nação, que congregue o espírito cívico dos brasileiros, instigando-os à própria emancipação mediante a defesa dos valores individuais e de liberdade e, por consequência, para o encalço do sucesso da pátria. Garschagen parece ter entendido isso, e seu livro não se resume a um retrato, a um registro descritivo; é um chamamento à ação.

Partindo das influências do “despotismo esclarecido” do Marquês de Pombal e do pensamento centralizador de poder do Iluminismo e da Maçonaria franceses, Garschagen parte da história de formação, ainda no Brasil colonial, de uma conformação tradicionalmente autoritária e desencorajadora da livre iniciativa. Ainda que pairando, restrita à dimensão da política formal, sobre uma realidade marcada pela estrutura patrimonialista, ele verifica, porém, uma interessantíssima elite política no país durante a monarquia constitucional, especialmente aquela que no governo de D. Pedro II se dividia entre os Partidos Conservador e Liberal, os saquaremas e os luzias. Uma elite que oscilava entre centralização e descentralização, moderação e exaltação, mas que era relativamente homogênea – ambos os partidos eram monarquistas, e tinham referências que faziam algum diálogo com os elementos liberais no século XIX, como o conservador Visconde de Cairu, que lia Burke, ou o liberal Rui Barbosa, que defendia um federalismo aos moldes americanos. Dois partidos cujos membros se deslocavam entre eles – como o visconde de Itaboraí, do Liberal para o Conservador, e Nabuco, do Conservador para o Liberal -, dois partidos que tinham membros com posições que podem surpreender os incautos de hoje – como o fato de que foi um gabinete conservador que permitiu que se abolisse a escravidão, enquanto havia presença real de escravocratas entre os liberais. Em comum, uma sofisticação intelectual e retórica e uma identificação com o projeto de construir um país e aperfeiçoar um sistema político, de dar profunda inveja aos brasileiros atuais, quando se deparam com a “elite republicana”moderna.

Essa elite resulta de um processo, como bem demonstra Garschagen, que começa com o golpe militar de 1889, em que, sob inspiração ideológica positivista, tem início a República Velha, com seu coronelismo, seus estados de sítio, sua política do Café-com-Leite – apesar de algumas figuras com inspirações mais liberais, em sua maioria formadas na própria elite do Império, como indica o próprio autor. Daí para a frente, com a Revolução de 30, o golpe de 37 e a ditadura Vargas, com materiais ideológicos cada vez mais estatizantes e autoritários – tais como o “castilhismo”, que brota do Sul para se associar ao “autoritarismo instrumental” de Oliveira Viana, retomado mais tarde para analisar o regime militar -, a coisa apenas degringola, com presidentes populistas, governos de exceção e, hoje, o petismo, com um elevado grau de expertise no aproveitamento do legado de estruturas autoritárias em um cenário contemporâneo.

Com originalidade, finalmente, Bruno Garschagen conta toda essa história vivendo um dos seus momentos mais dolorosos, mas que também conserva algo de esperançoso – que ele não deixa de estampar em suas páginas. Muitos estão despertando. Dialogando quase totalmente com autores e figuras nacionais, Pare de acreditar no governo é um convite a que esses muitos mergulhem em sua própria história, conheçam a doença e encontrem no próprio doente o remédio para extirpá-la. Uma iniciativa nobre que eu, tendo-a aguardado com ansiedade e ainda esperando por novos desdobramentos que ela possa apresentar, aplaudo efusivamente.

 

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