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A narrativa anti-imprensa é antiliberal e autoritária

Neste domingo, dia 23 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro estampou as manchetes do dia. Em uma visita a ambulantes da Catedral de Brasília, o presidente foi questionado por um jornalista do jornal O Globo sobre os motivos para o antigo assessor do atual senador Flávio Bolsonaro (filho do presidente) ter repassado 89 mil reais para a primeira dama Michelle Bolsonaro. O presidente inicialmente tentou fugir pela tangente perguntando sobre os supostos repasses que o doleiro Dario Messer teria feito à família Marinho (como se um suposto erro justificasse o outro). O repórter insistiu e Bolsonaro terminou proferindo a frase “Minha vontade é encher tua boca de porrada, tá?”. Uma ameaça explícita contra o jornalista.

Atitudes como essa infelizmente não surpreendem mais e esse que vos escreve já havia alertado a respeito em outro artigo publicado aqui no Instituto Liberal. Há uma origem muito clara para tais atitudes e ela se encontra na famosa narrativa anti-imprensa. Em que consiste tal narrativa?

Desde o início da formação dessa direita bolsonarista, construiu-se uma postura antagônica aos veículos de mídia, principalmente jornais como Folha de SP, Estadão, Globo e outros. No começo eles justificavam seus ataques à imprensa devido aos vieses dos veículos e ao que eles classificavam como notícias falsas. No entanto, o que inicialmente era uma crítica legítima a vieses tornou-se uma narrativa contra o próprio exercício do jornalismo.

Quando o presidente se recusa a dar entrevista para um determinado jornal, tenta ocultar dados da pandemia para que não sejam noticiados no Jornal Nacional, ameaça jornalista por ele fazer uma pergunta ou quando militantes decidem agredir fisicamente repórteres que estavam apenas fazendo seu trabalho, o que está sendo atacado aqui não é o viés, não é um trabalho ruim, mas sim o mero exercício da profissão. Os jornalistas estão sendo atacados meramente por noticiarem fatos que contradizem de alguma forma a narrativa bolsonarista, sendo na prática uma tentativa de desumanizar o profissional e deslegitimar o jornalismo como um todo.

Isso ficou ainda mais evidente durante a pandemia do Covid-19, quando diversos jornalistas chegaram a ser agredidos fisicamente em manifestações bolsonaristas e quando o próprio presidente decidiu mudar o horário de divulgação dos números oficiais da pandemia para impedir que fossem noticiados pela Rede Globo.

O intuito disso é claro: restringir o acesso à informação e impedir que fatos acerca do seu governo sejam expostos. Paralelamente a isso, o governo também incentiva os famosos veículos “chapa branca”, como é o caso da Rede Record, chefiada pelo pastor Edir Macedo, e dos blogs bolsonaristas como Jornal da Cidade Online, Conexão Política e Terça Livre, que se notabilizaram nos últimos anos pela ampla difusão de fake news. Ao privilegiar determinados veículos enquanto demoniza a mídia tradicional, Bolsonaro se aproxima muito do que Maduro fez na Venezuela, combatendo a mídia tradicional (até fechar os jornais) e fortalecendo a imprensa estatal, controlada pelo partido socialista. É uma tentativa clara de controlar a informação, um desejo de determinar por quais mídias o cidadão deverá se informar, com a mídia “chapa branca” sendo a responsável pela “informação oficial” enquanto todos os outros jornais que de alguma forma contestam o presidente são inimigos da nação – nada muito diferente de uma política do pensamento orwelliana.

Muitos liberais acabam caindo nessa narrativa bolsonarista e também abraçam uma retórica anti-imprensa. Motivados por críticas legítimas ao viés da mídia e a erros cometidos pela imprensa tradicional, liberais terminam sendo usados como massa de manobra e abraçando uma narrativa que não tem tais bandeiras como reais intenções, mas sim um combate contra o exercício do jornalismo e a liberdade de expressão. Muitos liberais, por exemplo, comemoraram o anúncio recente de que Bolsonaro cortou 60% das verbas publicitárias da Rede Globo, achando que havia alguma motivação liberal nesse corte. Eles só ignoram que, paralelamente a isso, o governo ampliou drasticamente a verba de publicidade destinada às emissoras SBT e Record, deixando claro que o que motiva os cortes não é nenhum princípio liberal, mas sim enfraquecer um inimigo político que noticia coisas que são inconvenientes para os governistas e beneficiar veículos que o acobertem ou sejam defensores do seu governo. Como liberal eu obviamente defendo o fim das verbas de publicidade; acredito que cada jornal deva se financiar por meio dos seus próprios doadores, sempre com dinheiro privado. No entanto, o que vemos aqui não é uma luta liberal contra o financiamento público, mas um governo corporativista e patrimonialista beneficiando aliados políticos e enfraquecendo adversários.

Para esses liberais que se iludiram, devemos ressaltar que obviamente vieses podem e devem ser criticados. Por uma razão ideológica, é normal que não nos identifiquemos com esses veículos tradicionais (que possuem um viés mais progressista) ou que critiquemos duramente quando cometem erros ou produzem uma notícia falsa. A diferença é que atacamos o viés político, jamais o exercício da profissão, jamais o ato de um jornalista fazer perguntas ou noticiar um ocorrido. Os bolsonaristas quando agridem um jornalista que está cobrindo uma manifestação, ou o presidente quando ameaça um jornalista que lhe fez uma pergunta ou oculta dados para impedir que o Jornal Nacional noticie, não estão em momento algum atacando o viés da imprensa, mas sim o jornalismo como um todo, o exercício da profissão (que consiste em entrevistar, questionar e noticiar). Isso se torna mais perceptível quando nem mesmo veículos conservadores passam batido por essa turma. Veículos de direita como o Antagonista, Crusoé e a Gazeta do Povo estão entre os principais alvos dessa turma, com a Revista Crusoé tendo recentemente sido alvo de uma censura a pedido da deputada federal bolsonarista Bia Kicis.

Como liberais devemos sim apontar vieses e criticar erros, devemos sim incentivar a mídia alternativa, podemos nos opor a jornal x ou y até de forma incisiva, mas jamais aderir a uma narrativa que visa a restringir a liberdade de expressão e ocultar informações. Atos de violência e autoritarismo como o que o presidente Bolsonaro protagonizou nesse domingo, só mostram as consequências práticas dessa narrativa e o fato de o caso receber pouco destaque e pouco repúdio só mostra como casos assim estão sendo normalizados. É dever de todos aqueles que dizem defender a liberdade se opor com veemência contra tudo isso.

Como dizia o saudoso Millôr Fernandes: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

Lucas Sampaio

Lucas Sampaio

É um liberal radicalmente pragmático, defensor da polarização e adepto dos métodos da Guerra Política de David Horowitz e Saul Alinsky. Estudante de Direito e Presidente da Juventude Libertária de Sergipe, membro da Rede Liberdade. Faz análises políticas sob um viés liberal/libertário e escreve sobre realpolitik, Guerra Política, Guerra de Narrativas, táticas de persuasão, como debater e como difundir as ideias de liberdade de maneira prática e sem ideologismos.