A arrogância fatal dos eruditos e dos populistas

Martin Heidegger foi filósofo, escritor, professor universitário, reitor, tem um livro chamado Ser e Tempo que acadêmicos do mundo inteiro discutem até hoje. Não sou versado na sua filosofia e tenho até dificuldade de acompanhar seus textos que, nas versões em português, estão sempre repletos de palavras separadas por hífens para representar as ressignificações que operava nos termos alemães. Não obstante tudo isso, esse senhor apoiou o nazismo.

Você pode ter lido muito mais livros do que eu, pode falar dezenas de idiomas, pode ser eruditíssimo, e ainda assim você pode estar, quanto a certo aspecto da política ou da moral, do lado errado. O oposto também é verdadeiro: o “povão”, o “senso comum”, não é o dono da razão.

Boa parte da sociedade estava com Lula nos anos 2000 enquanto alguns economistas ou vozes isoladas tinham audácia de prenunciar o descalabro econômico – talvez nem tanto os escândalos judiciais. Às vezes, um círculo restrito de pessoas mais intelectualizadas e especialistas está, sim senhor, com a razão, sem que necessariamente reconhecer isso implique assumir o cacoete positivista e cientificista da cultura política brasileira. Outras vezes, a razão está com o senso comum, com a maioria menos esclarecida, mas cuja sensibilidade moral pode em muitas oportunidades se provar mais sensata que a de uma elite intelectual “progressista”.

Não há regra absoluta sobre isso; lamentavelmente, mesmo lidando com exemplos do quanto essa lição é verdadeira a todo instante, certos setores do ativismo e da militância liberal e conservadora insistem em submergir em um desses dois terríveis erros – ou ambos ao mesmo tempo, o que é ainda mais paradoxal. Afirmam, ao mesmo tempo, que seus intelectuais públicos de preferência estão pregando essa ou aquela visão a respeito de um problema, apoiando esse ou aquele líder político, defendendo essa ou aquela bandeira, o que automaticamente significa que suas afirmações são corretas e quem as questiona é um indigno, uma aberração moral. Outra hipótese: eles mesmos se jactam de suas profundas leituras como se fossem argumento suficiente para prestigiar líderes messiânicos ou devaneios sem fundamento.

Por outro lado, dizem também, as mesmas vozes, que compreendem melhor os sentimentos do “povo” – essa massa amorfa de indivíduos que, numa espécie de emulação da “vontade geral” rousseauniana, passam a representar uma coisa só. Dizem que falam em nome de suas necessidades, de seus reclames. Dizem que o “povo” os apoia, empunham pesquisas de opinião como troféus. Peço a licença do grande Friedrich Hayek para empregar sua expressão “arrogância fatal” um pouco fora de contexto diante das “carteiradas” e da presunção dos gurus de plantão. São arrogantes – eruditos, populistas e demagógicos ou tudo isso ao mesmo tempo.

O pensamento respeitável do liberalismo e do conservadorismo não é assim. É cético, humilde por natureza, reconhece as limitações do indivíduo – ao mesmo tempo em que contempla a sua dignidade e seus direitos. Alegar que leu mais do que os outros ou dizer que o “povo” está com você não são argumentos isoladamente satisfatórios. Se alguns dos que incorrem nesses delírios de grandeza estiverem lendo, reflitamos juntos a respeito. Talvez possamos todos fazer melhor do que isso. Talvez.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.