A moeda que não nos pertence: o que Murray Rothbard ensina sobre a inflação, o Estado e a liberdade

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Introdução

Poucos temas têm tanto impacto sobre a vida cotidiana e, ao mesmo tempo, são tão pouco compreendidos quanto a moeda. Usamos dinheiro diariamente, mas raramente perguntamos de onde ele vem, quem determina sua quantidade e por que seu poder de compra diminui. A explicação habitual apresenta a inflação como um fenômeno natural, quase como o clima: algo que acontece, que se mede e com o qual se convive.

Murray N. Rothbard, economista nascido em Nova York em 1926 e morto em 1995, recusou essa explicação. Discípulo de Ludwig von Mises, publicou em 1963 um ensaio curto e deliberadamente acessível, cujo título já anuncia a tese: o problema da moeda não é apenas técnico, mas também político. Na formulação rothbardiana, a inflação, entendida como expansão da oferta monetária, não acontece por acaso: é produzida por quem detém o poder de emitir (ROTHBARD, 2013).

A obra se divide em três partes. Na primeira, Rothbard descreve como a moeda surge e funciona em uma sociedade livre. Na segunda, examina as formas pelas quais os governos passaram a interferir nela, da desvalorização das moedas metálicas à criação dos bancos centrais. Na terceira, narra o colapso progressivo do sistema monetário ocidental, do padrão-ouro clássico ao abandono de qualquer lastro, em 1971.

À primeira vista, o livro poderia ser lido apenas como uma introdução didática à teoria monetária da Escola Austríaca. Essa leitura, porém, me parece insuficiente. O que o governo fez com o nosso dinheiro? oferece algo mais exigente: a demonstração de que a moeda é uma questão de propriedade e de que o poder de criá-la sem limites constitui uma das formas mais eficazes, e menos visíveis, de transferir renda da sociedade para o Estado.

Este artigo apresenta as principais teses da obra, na sequência adotada por Rothbard, e avalia sua contribuição à luz da experiência brasileira. Defendo a hipótese de que o mérito central do livro está em devolver a moeda ao debate sobre liberdade e limitação do poder, ainda que algumas de suas propostas de reforma sejam discutíveis.

É importante estabelecer, desde o início, uma distinção que orienta todo o texto. Uma coisa é expor o que Rothbard afirma sobre a moeda e sua história; outra é avaliar o alcance dessas afirmações e a viabilidade das soluções que ele propõe. O artigo trata dos dois planos, mas procura mantê-los separados: quando descreve as teses do livro, apoia-se no texto da obra; quando emite juízos sobre elas, assume abertamente que se trata da leitura do autor.

A origem da moeda: do escambo à mercadoria mais aceita

Rothbard parte da origem das trocas. Antes da moeda, as trocas ocorriam por escambo: quem produzia trigo e desejava sapatos precisava encontrar alguém que produzisse sapatos e, ao mesmo tempo, desejasse trigo. Essa dupla coincidência de desejos tornava as trocas raras e limitava a divisão do trabalho a um nível rudimentar (ROTHBARD, 2013).

A solução surgiu gradualmente. Os indivíduos perceberam que algumas mercadorias eram aceitas com mais facilidade do que outras e passaram a adquiri-las não para consumi-las, mas para trocá-las depois. Com o tempo, uma ou duas mercadorias se destacaram como meio de troca geralmente aceito. Na maior parte da história, essas mercadorias foram o ouro e a prata, escolhidos por serem duráveis, divisíveis, transportáveis e escassos.

Carl Menger, fundador da Escola Austríaca, demonstrou que a moeda não foi inventada por nenhum governo nem estabelecida por nenhum decreto (MENGER, 1892). Surgiu da ação de milhares de pessoas que buscavam facilitar as próprias trocas, sem que nenhuma delas tivesse a intenção de criar uma instituição. A moeda é, nesse sentido, um dos exemplos mais claros daquilo que Friedrich Hayek chamaria de ordem espontânea.

Essa reconstrução tem uma consequência decisiva para o argumento do livro. Se a moeda pode emergir das trocas sem depender de decreto, o controle estatal sobre ela não é um dado da natureza, mas o resultado de escolhas institucionais. Rothbard lembra que nomes de unidades monetárias, como a libra esterlina, designavam originalmente pesos de metal. O dinheiro era uma quantidade definida de uma mercadoria e não um papel cujo valor dependesse da palavra de alguém.

Convém, contudo, não confundir essa tese com uma afirmação cronológica. A teoria da origem espontânea da moeda não demonstra que ela tenha precedido, em todos os lugares e épocas, as organizações políticas. O que ela sustenta é algo mais preciso: a moeda não precisa ser criada pelo Estado para existir. Na reconstrução de Menger e Rothbard, ela emerge das trocas e só posteriormente é submetida a monopólios e controles estatais.

Moeda em uma sociedade livre

A partir dessa origem, Rothbard descreve como funcionaria a moeda em um ambiente de liberdade. A cunhagem, observa, poderia ser realizada por empresas privadas, como qualquer outro serviço. O cunhador apenas certificaria o peso e a pureza do metal, e sua reputação dependeria da exatidão dessa certificação (ROTHBARD, 2013).

A tese mais surpreendente do capítulo trata da quantidade de moeda. Economistas e governantes costumam perguntar qual seria a oferta adequada de dinheiro para uma economia. Rothbard responde que a pergunta está mal formulada. Diferentemente dos demais bens, cuja maior quantidade amplia o bem-estar, a moeda presta seus serviços por meio de seu poder de compra. Qualquer quantidade de moeda é suficiente, porque os preços se ajustam a ela. Um aumento da oferta monetária não torna a sociedade mais rica. Apenas reduz o valor de cada unidade.

Ludwig von Mises havia demonstrado que o valor da moeda está ligado ao seu valor como mercadoria antes de se tornar meio de troca, e que a demanda por dinheiro decorre das decisões dos indivíduos sobre quanto desejam manter em caixa (MISES, 2010). Rothbard retoma essa contribuição para responder a um temor recorrente: o de que o entesouramento, isto é, a decisão de guardar dinheiro, prejudicaria a economia. Para o autor, guardar moeda é uma escolha legítima, que apenas eleva o poder de compra do dinheiro restante e redistribui a riqueza a favor de quem poupou.

O capítulo também trata dos armazéns de moeda, origem histórica dos bancos. Quem guardava ouro em um depósito recebia um recibo, e esses recibos passaram a circular como dinheiro. Enquanto cada recibo correspondesse a uma quantidade efetiva de metal guardado, nada havia de problemático no sistema. A dificuldade, como se verá adiante, começa quando os recibos passam a superar o metal existente.

É preciso, porém, evitar a suposição de que Rothbard descreve uma economia sem regras. O que o autor defende é que a moeda esteja submetida às mesmas regras que valem para qualquer outra propriedade: contratos devem ser cumpridos, fraudes devem ser punidas e ninguém pode criar, do nada, títulos sobre bens que não existem.

A tentação da emissão: o governo e sua receita

A segunda parte do livro parte de uma pergunta direta: por que os governos se interessam tanto pela moeda? Rothbard observa que o Estado obtém seus recursos por meio de tributos, e que tributos são impopulares. Existe, porém, uma forma de obter recursos sem aprovar novos impostos: criar dinheiro novo e gastá-lo (ROTHBARD, 2013).

Antes de prosseguir, é necessária uma precisão terminológica. Rothbard, seguindo Mises, emprega o termo inflação para designar a expansão da oferta monetária e não a elevação do nível geral de preços, que seria sua consequência mais visível. A distinção importa. A inflação medida pelos índices de preços pode ser afetada também por choques de oferta, pelo comportamento dos preços internacionais, pelo câmbio e pelas expectativas dos agentes. Neste artigo, quando se fala em inflação no sentido do livro, refere-se à expansão monetária; quando se fala em alta de preços, refere-se ao fenômeno medido pelos índices.

Para explicar esse mecanismo, Rothbard recorre à figura do falsificador. Quem imprime dinheiro falso e o gasta adquire bens reais sem ter produzido nada em troca. Os primeiros a receber o dinheiro novo se beneficiam, porque compram aos preços antigos. À medida que o dinheiro circula, os preços sobem, e os últimos a recebê-lo, em geral assalariados, aposentados e pessoas de renda fixa, acabam pagando mais caro sem que sua renda tenha aumentado. A expressão não constitui definição técnica da política monetária, mas analogia que traduz sua consequência distributiva: quando o próprio governo emite moeda para financiar seus gastos, os efeitos sobre a renda das pessoas são semelhantes aos da falsificação, com a diferença de que ela é legal.

Esse efeito redistributivo, associado na literatura econômica a Richard Cantillon, ocupa o centro do argumento. A expansão monetária não eleva todos os preços ao mesmo tempo nem na mesma proporção. Ela tende a transferir renda de quem recebe o dinheiro novo por último para quem o recebe primeiro. Na leitura de Rothbard, os primeiros recebedores são o próprio Estado e os setores mais próximos dele.

É importante reconhecer que, nas economias contemporâneas, os canais de criação de moeda e de crédito são mais complexos do que uma transferência direta do emissor estatal aos primeiros recebedores. Parte relevante da moeda é criada pelo sistema bancário por meio do crédito, e a política monetária atua sobretudo pelos juros e pelas expectativas. A tese distributiva permanece válida, mas deve ser compreendida como um mecanismo cujos ganhadores e perdedores dependem do canal de transmissão em cada caso.

Rothbard acrescenta outros efeitos. A perda persistente de poder de compra desestimula a poupança, porque o dinheiro guardado perde valor. Distorce o cálculo empresarial, porque os lucros aparentes podem refletir apenas a elevação dos preços nominais, e incentiva o endividamento, porque quem deve é beneficiado pela desvalorização da moeda em que a dívida foi contraída.

James Buchanan e Richard Wagner mostraram que a democracia tende a produzir déficits persistentes, porque os benefícios do gasto público são concentrados e visíveis, enquanto seus custos são difusos e adiados (BUCHANAN; WAGNER, 1977). A emissão de moeda é a forma mais acabada desse adiamento. Permite ao governante entregar benefícios hoje e transferir a conta para um momento em que ninguém mais consegue identificar quem a contraiu.

A emissão de moeda para financiar o gasto público funciona, nesse sentido, como um imposto que nenhum parlamento precisou votar.

Do monopólio da cunhagem à desvalorização

Rothbard descreve em seguida as etapas pelas quais os governos assumiram o controle da moeda. A primeira foi o monopólio da cunhagem. Ao proibir a cunhagem privada, os soberanos passaram a gravar suas efígies nas moedas e a cobrar por esse serviço uma taxa superior ao custo, conhecida como senhoriagem (ROTHBARD, 2013).

A segunda etapa foi a desvalorização. Uma vez detentores do monopólio, os governos passaram a reduzir discretamente a quantidade de metal precioso contida em cada moeda, mantendo o mesmo nome e o mesmo valor de face. Com o metal economizado, cunhavam mais moedas e as gastavam. Rothbard recorda que esse expediente foi utilizado de forma recorrente por governantes da Antiguidade e da Idade Média, sempre com o mesmo resultado: elevação dos preços e perda de confiança na moeda.

O capítulo dedica atenção especial à lei de Gresham, segundo a qual a moeda má expulsa a boa. Rothbard insiste em uma precisão frequentemente esquecida: o fenômeno só ocorre quando o governo fixa por lei uma taxa de troca artificial entre duas moedas. Se a lei obriga que uma moeda desvalorizada seja aceita pelo mesmo valor de uma moeda íntegra, as pessoas passam a gastar a moeda ruim e a guardar a boa, que desaparece de circulação. Sem a imposição legal, as duas moedas circulariam livremente, cada uma pelo seu valor real.

A observação ultrapassa o caso das moedas metálicas. Leis de curso forçado, que obrigam a aceitação de determinada moeda pelo valor que o governo lhe atribui, são o instrumento que permite a qualquer Estado impor à sociedade uma moeda em que ela deixou de confiar.

Bancos, reservas fracionárias e o banco central

A parte mais polêmica do livro trata dos bancos. Rothbard sustenta que, quando um banco emite recibos de depósito em quantidade superior às reservas que efetivamente possui, cria moeda nova a partir do nada. Esse sistema, conhecido como reserva fracionária, é tratado pelo autor como fraude, porque os depositantes possuem títulos sobre um ouro que, em parte, não existe (ROTHBARD, 2013).

Em um mercado livre, argumenta Rothbard, esse comportamento seria limitado pelo próprio funcionamento da concorrência. Bancos que expandissem excessivamente seus recibos enfrentariam corridas de depositantes e pedidos de resgate por parte de bancos concorrentes. A fragilidade seria punida pela falência.

O problema surge quando o governo intervém para proteger os bancos dessa disciplina. A primeira forma de proteção, segundo o autor, foi permitir que os bancos suspendessem os pagamentos em períodos de crise, sem perder a licença para operar. A segunda, mais duradoura, foi a criação dos bancos centrais. Ao centralizar as reservas e funcionar como emprestador de última instância, o banco central eliminou o principal limite à expansão do crédito: o risco de que um banco imprudente fosse levado à falência por seus concorrentes.

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Douglass North demonstrou que o desempenho das economias depende das instituições, isto é, das regras do jogo e dos mecanismos que as fazem valer (NORTH, 1990). A análise de Rothbard pode ser lida como um estudo sobre a transformação de uma instituição: a moeda deixa de ser regulada por regras de propriedade e passa a ser regulada pela discricionariedade de uma autoridade.

Essa leitura, contudo, não é consensual, nem mesmo entre os autores da Escola Austríaca. A caracterização da reserva fracionária como fraude é contestada por economistas liberais que sustentam que depositantes podem consentir, de forma consciente, com contratos em que o banco empresta parte dos recursos recebidos. Para essa corrente, conhecida como defesa do sistema bancário livre, o problema não está na reserva fracionária em si, mas nos privilégios concedidos pelo Estado aos bancos. Trata-se de uma divergência relevante, e o leitor de Rothbard faz bem em conhecê-la antes de adotar integralmente sua posição.

Permanece válida, todavia, a crítica de fundo. Um sistema em que os ganhos da expansão do crédito são privados e os prejuízos das crises são socializados cria incentivos para a imprudência.

O colapso monetário do Ocidente

A terceira parte do livro é histórica. A Grã-Bretanha operava sob padrão-ouro desde o início do século XIX, mas o padrão-ouro clássico como sistema internacional consolidou-se na década de 1870 e vigorou até a Primeira Guerra Mundial. Rothbard descreve esse período como uma fase de relativa estabilidade monetária, em que as moedas nacionais eram definidas como pesos de ouro e podiam ser convertidas livremente. O comércio internacional se expandiu, e os preços apresentaram notável estabilidade no longo prazo (ROTHBARD, 2013). Convém registrar, porém, que a estabilidade cambial do período não o livrou de crises financeiras e bancárias.

A Primeira Guerra Mundial interrompeu esse sistema. Para financiar o esforço de guerra, os governos europeus suspenderam a conversibilidade e emitiram moeda em grande escala. A hiperinflação alemã do início dos anos 1920 tornou-se o exemplo mais extremo das consequências dessa escolha.

O retorno ao ouro, segundo Rothbard, nunca foi completo. Nos anos 1920, adotou-se o padrão ouro-câmbio, em que moedas nacionais eram lastreadas em outras moedas e não diretamente em metal. Nos anos 1930, durante a Grande Depressão, os países abandonaram sucessivamente a conversibilidade. Nos Estados Unidos, o governo chegou a obrigar os cidadãos a entregar o ouro que possuíam.

Em 1944, o acordo de Bretton Woods estabeleceu um sistema em que o dólar seria conversível em ouro apenas para governos estrangeiros, e as demais moedas seriam vinculadas ao dólar. Rothbard descreve esse arranjo como uma pirâmide instável, que permitiu aos Estados Unidos exportar inflação para o resto do mundo. Em 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro. A partir de então, nenhuma grande moeda do mundo permaneceu vinculada a qualquer mercadoria.

Milton Friedman, embora divergisse de Rothbard quanto ao padrão-ouro, chegou a uma conclusão semelhante sobre o caráter inédito desse momento. Observou que, pela primeira vez na história, nenhuma moeda relevante possuía vínculo com uma mercadoria e que o mundo passara a viver um experimento monetário sem precedentes (FRIEDMAN, 1994). A diferença entre os dois é instrutiva: Friedman propunha disciplinar a moeda fiduciária por meio de regras rígidas de crescimento da oferta monetária; Rothbard considerava que nenhuma regra resistiria aos incentivos dos governantes.

A história narrada no livro não é a de um acidente. É a de um processo em que, a cada crise, o limite anterior foi removido.

O Brasil e a memória da inflação

Poucos países oferecem ilustração tão nítida das teses de Rothbard quanto o Brasil. Ao longo da segunda metade do século XX, o país conviveu com inflação crônica, recorreu a sucessivos mecanismos de correção monetária e trocou de padrão monetário diversas vezes, do cruzeiro ao cruzado, do cruzado novo ao cruzeiro real. Em 1993, a inflação anual superou 2.000%.

O efeito redistributivo descrito por Rothbard foi experimentado por milhões de brasileiros. Quem tinha acesso a aplicações financeiras indexadas conseguia proteger parte de seu patrimônio. O trabalhador que recebia o salário no início do mês e precisava gastá-lo antes que os preços subissem não tinha a mesma proteção. A inflação brasileira funcionou, durante décadas, como um imposto regressivo, cobrado com maior intensidade justamente de quem tinha menos instrumentos de defesa.

O título do livro adquire, no Brasil, um sentido quase literal. Em março de 1990, o Plano Collor bloqueou os saldos de contas correntes e cadernetas de poupança acima de determinado limite. Famílias e empresas perderam, de um dia para o outro, o acesso ao próprio dinheiro. Poucos episódios demonstram com tanta clareza a advertência de Rothbard: quando o Estado controla a moeda, o dinheiro do cidadão deixa de ser plenamente seu.

O Plano Real interrompeu a hiperinflação. O processo começou em 1993, com uma etapa de ajuste fiscal, prosseguiu com a criação da Unidade Real de Valor (URV) e culminou, em julho de 1994, com a introdução da nova moeda. A estabilização inicial foi, portanto, obra do próprio plano. Nos anos seguintes, outras instituições contribuíram para consolidá-la, entre elas o regime de metas de inflação, adotado em 1999, e a Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000, que limitaram a capacidade do Estado de gastar acima de seus meios. A autonomia formal do Banco Central, aprovada em 2021, representa a etapa mais recente dessa trajetória de consolidação e não uma condição do êxito alcançado em 1994.

Convém registrar que essas instituições não correspondem ao modelo defendido por Rothbard, que rejeitava a própria existência do banco central. Ainda assim, elas confirmam, em chave moderada, o núcleo de seu argumento: a estabilidade da moeda depende da limitação do poder de quem a emite. Quando esses limites se enfraquecem, seja pela pressão por gastos, seja pela tentação de reduzir juros por decisão política, o risco inflacionário retorna.

A direita brasileira deverá extrair dessa lição uma advertência para si mesma. A defesa da moeda estável não é compatível com a defesa de crédito subsidiado, de desonerações sem contrapartida ou de gastos que dependem da complacência da autoridade monetária. A responsabilidade fiscal não pode ser exigida apenas dos adversários.

Os limites da proposta rothbardiana

Reconhecer o mérito do diagnóstico não exige aceitar integralmente a solução. Rothbard propõe o retorno a um padrão-ouro pleno, com conversibilidade integral e reservas de cem por cento nos bancos. A proposta enfrenta objeções relevantes, que convém expor com honestidade.

A primeira diz respeito à rigidez. Críticos do padrão-ouro argumentam que a oferta de moeda passaria a depender da descoberta e da extração de um metal, fator que nada tem a ver com as necessidades da economia, e que o sistema tenderia a produzir períodos de deflação. Rothbard responde que a queda de preços resultante do aumento da produtividade não é prejudicial e que o temor da deflação é, em grande parte, fruto de confusões teóricas. O debate permanece aberto, mas a posição do autor é minoritária entre os economistas.

A segunda objeção é de ordem histórica. O próprio padrão-ouro clássico conviveu com crises bancárias e financeiras e foi abandonado justamente quando os governos decidiram não mais respeitá-lo. Isso sugere que nenhum arranjo monetário é imune à vontade política, e que a questão decisiva talvez não seja o lastro, mas as instituições capazes de impedir que os governantes o abandonem.

Friedrich Hayek ofereceu uma alternativa distinta. Em Desestatização do dinheiro, propôs eliminar o monopólio estatal sobre a emissão e permitir que moedas privadas concorressem entre si, de modo que os usuários escolhessem a mais confiável (HAYEK, 1976). A proposta compartilha com Rothbard a desconfiança em relação ao monopólio estatal, mas confia na concorrência, e não em um lastro fixo, como mecanismo de disciplina.

A existência dessas divergências não enfraquece a tradição liberal. Mostra, ao contrário, que ela não se resume a um dogma, e que o compromisso comum com a limitação do poder admite caminhos diferentes para ser realizado.

O livro também possui limites de forma. Escrito como ensaio de divulgação, simplifica deliberadamente questões complexas e adota um tom combativo que, em certas passagens, atribui aos governantes intenções uniformes que a história nem sempre confirma. Deve ser lido, portanto, como uma porta de entrada vigorosa para o tema e não como tratado definitivo sobre ele.

Por que defender uma moeda honesta

Reunidos os elementos discutidos até aqui, é possível sustentar que O que o governo fez com o nosso dinheiro? oferece uma contribuição que ultrapassa a teoria monetária.

O livro mostra que a moeda não é um instrumento neutro à disposição dos governos, mas uma instituição da qual depende a possibilidade de poupar, planejar, investir e contratar. Quem controla a moeda controla, em alguma medida, o valor do trabalho de todos. Por isso, a questão monetária é também uma questão de liberdade.

Defender uma moeda honesta não equivale a defender os interesses do mercado financeiro. Significa proteger o salário de quem não tem como se defender da inflação.

Defender uma moeda honesta não equivale a recusar qualquer papel ao Estado. Significa exigir que seus gastos sejam pagos com tributos aprovados pelo Parlamento e não com a desvalorização silenciosa do dinheiro do cidadão.

Defender uma moeda honesta não equivale a aderir integralmente ao padrão-ouro. Significa reconhecer que o poder de emitir moeda precisa de limites claros, estáveis e difíceis de contornar.

Defender uma moeda honesta não equivale a tratar a inflação como problema exclusivamente técnico. Significa compreender que ela não é politicamente neutra: escolhas fiscais, monetárias e institucionais alteram sua probabilidade, sua duração e a distribuição de seus custos.

Em síntese, o livro ensina que não há liberdade econômica sem uma moeda em que as pessoas possam confiar.

Considerações finais

O que o governo fez com o nosso dinheiro? percorre a origem da moeda, sua apropriação pelo Estado e o colapso do sistema monetário ocidental para responder à pergunta contida em seu título. A resposta de Rothbard é direta: os governos transformaram uma instituição que pode emergir das trocas em instrumento de financiamento próprio, e cada limite que restringia esse poder foi sendo removido ao longo do tempo (ROTHBARD, 2013).

Retoma-se, ao final, a hipótese que orientou este artigo: o mérito central da obra está em devolver a moeda ao debate sobre liberdade e limitação do poder. Essa contribuição permanece válida mesmo para quem não aceita as soluções propostas pelo autor, porque o diagnóstico sobre os incentivos dos governantes e sobre os efeitos redistributivos da inflação resiste às objeções feitas ao padrão-ouro.

Convém reconhecer também os limites da análise. A relação entre emissão monetária e alta de preços é mais complexa do que a apresentação didática do livro sugere, e seus efeitos distributivos dependem dos canais pelos quais a moeda nova circula. A posição de Rothbard sobre o sistema bancário é contestada dentro do próprio campo liberal, sua defesa do padrão-ouro é minoritária entre os economistas, e o tom do livro, por vezes, sacrifica nuances em favor da clareza. Nada disso, porém, invalida a pergunta que ele formula, e que cada geração precisa voltar a fazer.

Para o Brasil, a lição tem peso particular. O país conhece por experiência própria o que significa viver com uma moeda em que ninguém confia e sabe que a estabilidade conquistada nas últimas três décadas não está assegurada de antemão. Ela depende de instituições que limitem a capacidade do Estado de gastar acima de seus meios e de transferir a conta para quem guarda o próprio dinheiro.

Por fim, a obra lembra que a inflação raramente é percebida como uma decisão. Aparece como um aumento de preços no supermercado, como um salário que rende menos a cada mês, como uma poupança que perde valor sem que ninguém tenha assinado nada. É justamente por ser silenciosa que ela é tão eficaz.

Se o leitor sair do livro mais atento a quem decide o valor do dinheiro que recebe, Rothbard terá alcançado seu objetivo e terá mostrado que uma moeda estável não é um detalhe técnico, mas uma das condições para que o fruto do trabalho continue pertencendo a quem o produziu.

Referências

BUCHANAN, James M.; WAGNER, Richard E. Democracy in deficit: the political legacy of Lord Keynes. New York: Academic Press, 1977.

FRIEDMAN, Milton. Money mischief: episodes in monetary history. New York: Harcourt Brace, 1994.

HAYEK, Friedrich A. Denationalisation of money: an analysis of the theory and practice of concurrent currencies. London: Institute of Economic Affairs, 1976.

MENGER, Carl. On the origin of money. The Economic Journal, v. 2, n. 6, p. 239-255, 1892.

MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

NORTH, Douglass C. Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

ROTHBARD, Murray N. O que o governo fez com o nosso dinheiro? São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2013.

*Elias Lopes é empresário, administrador de empresas, CEO da Target Mecânica e associado ao IFL-BH. Atua nos setores industrial e de investimentos, com foco em estratégia, gestão e desenvolvimento de negócios.

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