A ferramenta retórica da esquerda trabalhista: China (parte 2)
Na primeira parte, discutimos rapidamente sobre o que era o trabalhismo, o contexto em que ele surgiu e o seu papel na construção da história do Brasil. Também citamos alguns militantes e suas ideias para o país.
Como foi dito na primeira parte, existem muitas diferenças entre as estruturas institucionais da China e dos países nórdicos. Essas estruturas não são complementares porque vivemos em um mundo com recursos escassos.
Enquanto os países nórdicos estão concentrando seus gastos em bem-estar social, a China foca seus gastos em investimento e infraestrutura. Caso o argumento dos trabalhistas fosse “juntar o melhor dos dois mundos”, o Estado teria um gasto em torno de 85% do PIB.
A China não tem a mesma rede de proteção social que os países nórdicos possuem. Além disso, como mostramos na primeira parte, as regras de relações do trabalho são criadas e discutidas entre o mercado (empresas, empregadores, sindicatos e trabalhadores), não pelo Estado.
A título de comparação, o Brasil gasta 12% do PIB com previdência, enquanto a China gasta 2% do PIB.
Ao contrário, na China, além de não existir essa rede de proteção social, o Estado não só intervém, mas dita as regras que mais beneficiam a economia e não os trabalhadores.
Segundo a China Labor Watch[1], por meio de um relatório, as empresas ocidentais praticam ações diferentes dos seus próprios compromissos declarados com padrões éticos de trabalho.¹

Podem acusar essa prova de ser uma evidência anedótica, mas o site promove um trabalho extenso mostrando a dura realidade que os trabalhadores chineses enfrentam. Além disso, a jornada média anual da China é maior que a de quase todos os países capitalistas – e não é pouco.

Enquanto a média anual de horas trabalhadas por trabalhador nos países nórdicos é de 1.434 horas, na China, a média é de 2.328 horas. São 894 horas, em média, trabalhadas a mais.
Um outro caso que confirma a falta de proteção e direitos da classe trabalhadora na China foi o escândalo que ocorreu na Bahia com a empresa chinesa BYD. Em junho de 2025, a empresa chinesa de carros elétricos BYD (Build Your Dreams – que, em português, significa “Construa Seus Sonhos”), foi autuada pela fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho na Bahia (SRTE/BA) por condições análogas à escravidão.
Segundo o próprio Ministério do Trabalho e Emprego, “foram identificados 471 trabalhadores chineses trazidos de forma irregular ao Brasil, dos quais 163 foram resgatados em condições análogas à escravidão.”²
Os auditores detalharam “um conjunto de irregularidades que, em sua totalidade, configuram a submissão dos trabalhadores a condições degradantes e coercitivas, caracterizando a violação dos direitos fundamentais previstos na legislação brasileira.” Os relatos mostram que alguns trabalhadores estavam em jornadas de trabalho superiores a 10 horas. Um trabalhador machucado relatou que estaria trabalhando “há 25 dias sem descanso.”
A mesma prática usada nos sindicatos é usada nas empresas. Essa dinâmica é muito parecida com o que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães usava na Alemanha pós-1933. O Reichswirtschaftsministerium (Ministério da Economia do Império) direcionava um Betriebsführer (“gerente” de negócios) que fazia parte do partido com a missão de garantir a conformidade ideológica dentro das empresas. Já o Arbeits-Vertrauensmänner era responsável por coordenar e supervisionar os trabalhadores. Além disso, também resolvia disputas em prol dos planos do Reich. Esse sistema sustentava a subordinação dos direitos dos trabalhadores a serviço do Estado.
Na China, sindicatos de trabalhadores têm membros do Partido Comunista Chinês controlando e coordenando essas instituições conforme o plano do governo. Caso greves ou tentativas de pressão sejam vistas como prejudiciais para empresas, o governo não vê problema algum em reprimir tais ações.
工会 — gōnghuì (sindicato) integra a estrutura da All-China Federation of Trade Unions (ACFTU), que funciona dentro da ordem do Partido-Estado. A ACFTU segue a liderança do Partido Comunista Chinês, opera seguindo o centralismo democrático.
O trabalhismo como ideologia política defende um Estado que crie e proteja direitos à classe trabalhadora. Isso é o que a China quase não faz. Isso não significa que é uma defesa das empresas, mas sim uma defesa dos planos do governo. Significa que uma paralisação em uma empresa-chave pode atrapalhar os planos do governo na condução da política econômica.
A mesma coisa acontece em empresas que começam a despontar e ganhar competitividade internacional. Para garantir que as empresas vão participar e seguir os planos do governo central, 党委书记 — dǎngwěi shūjì (Secretário do Comitê do Partido) é enviado para participar da gerência dessas empresas.
O “desaparecimento de CEOs” não é algo tão incomum na China. O jornal The Economist informou em uma matéria que, em 2023, 13 CEOs de empresas listadas na bolsa desapareceram. Inclusive, o governo nunca reconheceu publicamente a detenção de Xiao Jianhua, empresário que foi sequestrado por agentes chineses em Hong Kong em 2017 e preso em 2022, fato denunciado por autoridades canadenses. ³
Essa dinâmica na China mostra que há uma semelhança com as experiências corporativistas autoritárias do século XX como a Itália fascista e a Alemanha nazista. Portanto, os trabalhistas se colocam em uma posição difícil ao defender o modelo chinês. A China está longe do ideal que essa militância afirma defender: jornadas extensas, baixa proteção social, sindicatos subordinados ao Partido e mecanismos de representação que operam mais como instrumentos de controle político do que como expressão autônoma dos trabalhadores.
Se o critério é a democracia, a contradição é ainda maior: o modelo chinês concentra poder, restringe oposição, controla sindicatos e submete empresas, trabalhadores e lideranças econômicas aos objetivos do Partido. A China pode até servir como exemplo da capacidade estatal de planejar a economia, mas dificilmente pode ser apresentada como modelo trabalhista ou democrático. Nesse sentido, quando parte da esquerda trabalhista brasileira exalta a experiência chinesa, ela não está defendendo a emancipação da classe trabalhadora.
O único argumento que sobra é a tentativa utópica de selecionar a dedo as melhores práticas de cada país e achar que podem simplesmente implementá-las de cima para baixo, assim como foram o sindicalismo, a constituição e quase tudo que é feito no Brasil.
Referência
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. BYD é autuada por submeter trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão na Bahia. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego, 3 jun. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/junho/byd-e-autuada-por-submeter-trabalhadores-chineses-a-condicoes-analogas-a-escravidao-na-bahia. Acesso em: 4 jun. 2026.
CHINA LABOR WATCH. Brewing Concerns: Labor Practices and Compliance Gaps in Starbucks’ South China Operations. China Labor Watch, 14 out. 2025. Disponível em: https://chinalaborwatch.org/brewing-concerns-labor-practices-and-compliance-gaps-in-starbucks-south-china-operations/. Acesso em: 4 jun. 2026.
THE ECONOMIST. The case of China’s vanishing chairmen. The Economist, 7 dez. 2023. Disponível em: https://www.economist.com/business/2023/12/07/the-case-of-chinas-vanishing-chairmen. Acesso em: 4 jun. 2026.
[1] Fundada em 2000, a China Labor Watch é uma organização independente. Ao longo dos últimos 20 anos, a CLW tem se dedicado a monitorar e relatar práticas trabalhistas em fábricas, defender os direitos dos trabalhadores, criar comunidades, desenvolver capacidades de ação coletiva e compartilhar conhecimento com trabalhadores, comunidades, governos e outros parceiros.



