Trincheira no carrinho de compras

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Houve um tempo em que as marcas funcionavam como bússolas de status. O relógio, o carro e o rótulo do vinho serviam como sinais silenciosos de repertório cultural, posição econômica e aspiração social. Consumíamos para ascender; consumíamos para sermos vistos; consumíamos para sinalizar. Esse mundo não desapareceu por completo; foi absorvido por algo mais agressivo e mais tribal.

No Brasil de hoje, as marcas operam como totens ideológicos. O supermercado, a cerveja e até o detergente deixaram de ser escolhas de conveniência para se tornarem códigos emocionais de alinhamento. O consumo já não é apenas uma tentativa de distinção social, mas um ritual de pertencimento tribal.

O carrinho de compras transformou-se numa urna ambulante, e o corredor do mercado, numa zona de conflito. É por isso que determinadas polêmicas empresariais já não são analisadas sob o rigor técnico, jurídico ou sanitário. O debate escapa rapidamente da esfera objetiva e mergulha na lógica do veredito prévio. Antes mesmo de qualquer investigação aprofundada, a opinião pública já não pergunta apenas “o que aconteceu?”, mas “quem está sendo atingido?” e, sobretudo, “a serviço de quê?”.

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Há quem trate isso como mera irracionalidade coletiva. Seria por demais confortável. Essa erosão sistêmica é também consequência de um ambiente político em que governos, autoridades e estruturas de Estado abandonaram a liturgia da imparcialidade para assumir, reiteradamente, tons de antagonismo moral e disputa ideológica.

Quando o poder deixa de soar como árbitro e passa a soar como militante, até decisões potencialmente legítimas passam a carregar a sombra do descrédito. Então algo profundamente corrosivo acontece.

A autoridade simbólica não se deteriora primeiro pela ausência de legalidade, mas pela erosão da credibilidade. Porque confiança institucional não depende apenas de normas formais; depende da percepção coletiva de neutralidade. Depende da sensação de que a régua não muda conforme o alvo da vez.

Uma vez que essa confiança se rompe, o espaço público deixa de funcionar como arena racional, convertendo-se em um campo emocional de confirmação de grupo. Tudo se politiza; tudo transforma-se em narrativa; tudo passa a ser interpretado pela lente da facção.

Será este o retrato mais perturbador do Brasil contemporâneo? Uma sociedade em que até o corredor dos produtos de limpeza passou a carregar ressentimento político, identidade coletiva e ceticismo institucional.

O problema nunca foi apenas o produto comprometido. É uma sociedade que já não consegue enxergar fatos sem antes procurar bandeiras.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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