A velha política quer fritar o cisne negro
O Brasil entra em 2026 (re)marcado pelo antagonismo político e pelas nódoas da corrupção. Utilizarei nesta breve análise o modelo do cisne negro, desenvolvido por Nassim Nicholas Taleb, católico ortodoxo grego de etnia árabe, matemático e professor da Universidade de Nova York, em seu livro The Black Swan (2007). Taleb define cisne negro como algo imprevisível, quase singular e impactante, que mais tarde será racionalizado como um acontecimento absolutamente previsível. O modelo é importante para compreendermos como eventos inesperados podem transformar cenários políticos e a governança.
O palco das eleições de 2026 será o mesmo lodaçal dos últimos vinte anos, onde progressistas, menos progressistas e ditos conservadores prometem cortar cabeças. O governo atual busca reeleger-se a qualquer custo (preço não tem preço para a entourage rouge); a oposição se organiza ao redor de um outro Bolsonaro, do governador de São Paulo e de alguns outros governadores de indiscutível sucesso eleitoral em suas províncias, a exemplo de Romeu Zema (Novo-MG).
A disputa pelo eleitorado dividido será dramática e a governabilidade do futuro depende da capacidade do presente de formar coalizões para atuar na próxima legislatura federal, algo que o patético e lastimável resultado da CPMI do INSS – atribuível à interferência excessivamente salgada do STF – demonstra ser muito difícil de atingir, pois o arranjo entre os poderes continuará tumultuado em meio a tantos (querendo ser) chefs dentre tão poucos commis.
Apliquei, como disse, o modelo do cisne negro ao cenário político brasileiro e pude identificar três dimensões perigosas de nossa realidade, desde as crises geopolíticas, bombardeios, vírus chineses, bancarrotas globais que tanto afetam o Brasil – em função de sua dependência crônica do resultado de commodities e da vulnerabilidade fiscal -, passando por escândalos internos, desrespeito à separação de poderes, inadequada representação popular no Congresso, gritarias das massas, subversão do discurso, até chegar nos gargalos tecnológicos e sociais causados pela inteligência artificial, pelas confusões nas ágoras virtuais e nos movimentos (exércitos ideológicos) disfuncionais que alteram sobremaneira a dinâmica da comunicação, do discurso e das possibilidades de consenso.
Não existe lenitivo para desarranjos institucionais e organizacionais.
Há quem diga, dentre os cândidos possíveis concorrentes ao cargo de presidente, que a solução está na aposentação do atraso (e o atraso, ao meu sentir, está na mentira, na egolatria e na cara-de-pau) que a reeleição e a continuidade da atual política cafona e anedótica indicam. A vitória da agenda liberal pode até liderar reformas econômicas (até onde?), reaproximando os setores produtivos, mas o irritante contexto de discussões intermináveis nos perfis da internet, que não levam a lugar nenhum, precisaria dar espaço à governança concreta, adequada e transformadora.
Já agora, na emergência de uma terceira via com discursos palatáveis e focados em asfaltar o mundo, mora a dificuldade de construção de uma base nacional.
Restou o cisne negro, o evento inesperado, mas que representa um factível vir-a-ser político diante da necessidade do país de promover a renovação do cenário e a redefinição do jogo (sujo). O Brasil precisa expurgar os personagens detestáveis e fazer de uma vez por todas sua acreditação no mercado global, o que significa parar de andar em más companhias e melhorar a governança e o sistema regulatório (aumentando previsibilidade), conquistar a confiança global (alinhada a padrões de tributação e controle da corrupção), aumentar a qualidade da produção industrial e a diferenciação dos produtos, trazendo reconhecimento e eliminação das barreiras tarifárias.
Precisamos enfrentar desafios estruturais que sugerem equilíbrio fiscal, crescimento econômico sustentado e recuperação dos valores nacionais que foram perdidos. O cisne negro alerta que estes desafios previsíveis carecem de eventos inesperados.
O Brasil de 2026 a 2030 será remoldado não apenas pelas escolhas eleitorais, mas especialmente por sua capacidade (ou não) de se readaptar e reconhecer, selecionar e fazer uso dos bons resultados inesperados.
O modelo do cisne negro reforça a ideia de que a política raramente segue um curso linear. Crises e eventos inesperados abrem espaço para novas lideranças, outras prioridades, transformações da má gestão e dos maus exemplos em histórias de sucesso nacional.
É imoral mantermos uma taxa de mortalidade anual, por violência, de mais de 34.000 pessoas. É uma vergonha mundial termos dinheiro público desviado dos cofres da previdência e das estatais – branqueados nas latrinas dos carteis mais organizados do mundo – para o financiamento de viagens de luxo, campanhas eleitorais e farras com suecas.
Enquanto muitos ainda torcem pelas frigideiras, torço bravamente pelo cisne.
*Rogério Torres é advogado e membro da Lexum.



