Quando o petróleo aumenta, a ignorância econômica aparece

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A guerra entre os Estados Unidos (EUA) e o Irã traz várias consequências para o mundo inteiro. A mais visível é o aumento do preço do petróleo e de seus derivados. A menos visível é a ignorância sobre o que é inflação.

Políticos, jornalistas, comentaristas de televisão e alguns economistas repetem um mantra: “a alta do barril de petróleo vai gerar inflação”. A frase é repetida com tanta convicção que parece uma lei. Mas não é nem lei física nem econômica. É apenas um erro econômico comum.

Se a guerra ou qualquer outro evento reduz a oferta de petróleo ou cria uma expectativa de escassez, seu preço naturalmente sobe. É o mecanismo mais elementar da economia: preços são determinados pela oferta e demanda. Nada de misterioso aqui. Quando algo se torna mais escasso, seu preço aumenta.

Isso não é inflação, mas o aumento do preço de um produto específico e, por consequência, de tudo aquilo que depende dele na sua cadeia produtiva. Petróleo mais caro significa transporte mais caro, energia mais cara e custos maiores para diversas atividades econômicas. Isso altera os preços relativos na economia. E só.

Não é a primeira vez que isso acontece. Nos choques do petróleo de 1973 e 1979, os preços da energia dispararam em todo o mundo. Nos países onde os bancos centrais geraram expansão monetária para acomodar o choque, como EUA e Reino Unido, o resultado foi inflação persistente. Os países que não monetizaram o choque tiveram apenas mudanças temporárias nos preços relativos.

Ou seja, o petróleo subiu para todos, mas a inflação apareceu onde governos e bancos centrais decidiram expandir a quantidade de dinheiro em circulação.

Regra sobre o petróleo

Quando o petróleo fica mais caro, a economia reorganiza seus preços, como o faz quando qualquer outra mercadoria tem seus preços alterados. Transporte sobe, energia encarece e alguns setores perdem competitividade, mas outros preços caem ou crescem menos, e a economia se ajusta. A renda das pessoas não aumenta automaticamente apenas porque o petróleo subiu.

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Isso é economia básica: preços relativos mudam o tempo todo. O erro comum é confundir mudança de preços relativos com inflação. Inflação é outra coisa. Inflação é a redução generalizada do poder de compra da moeda causada pela emissão monetária.

Se não houver expansão monetária, o aumento do petróleo terá apenas um efeito relativo dentro da estrutura de preços da economia. Tudo aquilo que utiliza petróleo e seus derivados na sua cadeia produtiva ficará relativamente mais caro. Setores que dependem menos de energia fóssil sofrerão um impacto menor. A economia se ajusta.

Porém, o que frequentemente acontece é que governos costumam aproveitar aumentos de preços em bens de grande impacto — petróleo, energia, alimentos — para expandir a quantidade de moeda. Quando isso ocorre, o choque inicial serve como uma conveniente cortina de fumaça. A culpa da inflação é então atribuída ao petróleo, à guerra, à seca ou a qualquer outro fator externo, mas nunca à emissão de moeda.

Papel do Estado

A transferência de culpa é politicamente conveniente. Afinal, o maior beneficiário da inflação é justamente quem controla a moeda: o governo. E quem mais perde é o indivíduo comum, especialmente o mais pobre, que vê seu poder de compra diminuir sem entender exatamente por quê.

Por isso, convém prestar atenção. Quando alguém afirma que o aumento do preço do petróleo gera inflação, na prática, está repetindo a narrativa que livra o verdadeiro responsável.

Inflação, como incansavelmente explicou Milton Friedman, é um fenômeno monetário. Ocorre quando a quantidade de dinheiro cresce mais rapidamente do que a produção de bens e serviços. Como o governo possui o monopólio da emissão de dinheiro, a conclusão é simples: havendo inflação, a culpa não será do petróleo, do boi no pasto ou do inocente chuchu, como imputou o falecido Delfim Netto, mas de quem controla a moeda.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.

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André Burger

André Burger

Economista e administrador de empresas pela UFRGS, onde também fez mestrado em finanças. Tem pós-graduação em teoria econômica na ESEADE em Buenos Aires, Argentina. Recebeu treinamento em private equity no Venture Capital Institute, Emory University, em Atlanta, Georgia. Curso de Conselheiro de Administração pelo IBGC. Foi senior partner por 20 anos na CRP Companhia de Participações, uma das empresas pioneiras em private equity no Brasil. Estruturou o fundo de private equity da FAMA Investimentos. Foi sócio responsável por M&A e sourcing na Proinvest Finanças Corporativas por 8 anos. Sócio fundador da Audaka Consultoria, empresa de estruturação de recursos e fusões e aquisições (M&A) desde 2017. Membro do conselho de administração de diversas companhias. Foi Presidente do IEE em 1992, Diretor do IL-RS. Membro da Mont Pèerin Society.

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